Técnica de confeitaria asiática transforma bolos em arte

Goiana domina a arte do flower cake e roda o Brasil ensinando a técnica de confeitaria, originária da Ásia, que resulta em lindos bolos decorados com flores

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 03/09/2017 08:00 / atualizado em 31/08/2017 15:33

Há quase uma década, Amélia Lino tem vivido boa parte do tempo na estrada. Primeiro, para acompanhar o marido nas inúmeras transferências a trabalho. Depois, por conta da profissão que decidiu abraçar. Boleira de mão cheia, ela foi uma das pioneiras em introduzir no Brasil o flower cake, técnica de confeitaria, originária da Ásia, que transforma bolos em verdadeiros buquês de flores.

Desde março do ano passado, Amélia tem, literalmente, rodado o Brasil para ensinar a arte dos bicos de confeitar a alunos ávidos por aprender a técnica. E, por onde chega, tem sala cheia. Mas tudo isso ainda é novidade na vida da doceira, que, por anos, exerceu os ofícios de bancária, advogada e dona de casa.

Natural de Quirinópolis, no interior de Goiás, Amélia tinha uma vida pacata na cidade de menos de 50 mil habitantes. Até que, há nove anos, casou-se e começou a seguir o marido, que, por conta do emprego como engenheiro civil, vivia trocando de endereço. Primeiro, foi para Manaus; depois, Porto Velho. Na sequência, vieram Carangola (MG), Santa Bárbara, também em Minas, uma volta a Quirinópolis... “Você vai encher esse bloquinho de anotações só com as cidades onde moramos”, brinca.
Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press
Entre uma mudança e outra, vieram dois filhos: Sara, de 7 anos, e Ítalo, 4. Amélia também deixou de ser bancária e passou a exercer o direito, em escritório montado em casa. Filha e neta de doceiras, porém, ela sempre alimentou a paixão pelas panelas. “Minha mãe fazia aqueles doces de tacho e a minha avó, detalhista, produzia bolos lindos e deliciosos.” Nas festas de aniversário das crianças, Amélia não abria mão de preparar tudo pessoalmente. “Todos amavam e eu acabava fazendo bolo para os vizinhos e os amigos, mas nunca cobrava. Era apenas um hobby.”

Até que Amélia, o marido, José Geraldo Lino, e os filhos se mudaram, em 2015, para o interior do Pará, mais precisamente para Novo Progresso, uma cidade com 25 mil habitantes, distante mais de mil quilômetros de Belém. “A minha rua não tinha asfalto, o aeroporto mais próximo ficava a mais de 700 quilômetros. Foi um impacto muito forte”, recorda-se. Até os planos de advogar tiveram de ser adiados. “Um dia, fui ao dentista e ele me perguntou: ‘O que você gosta de fazer?’. E aconselhou: ‘Você tem que arrumar uma ocupação, se não vai ficar deprimida. É o que ocorre com a maioria das mulheres que chegam aqui acompanhando o marido’.”

A essa altura, Amélia já tinha conhecido a técnica do flower cake pela internet e praticava muito em casa. Perguntou, então, à dona da academia da cidade se podia levar um bolo para as alunas degustarem. “Caprichei. O bolo ficou lindo e todas amaram. No fim de semana, eu já tinha 10 encomendas”, lembra. A partir daí, Amélia não parou mais. “No Natal, cheguei a preparar 80kg de massa. Trabalhava sem parar.” Mas, quando ela estava com clientela certa e muito feliz, veio a notícia: o marido seria novamente transferido. “Chorei, porque, agora, não queria mais ir embora.” Antes de deixar Novo Progresso, Amélia ensinou a técnica a quatro amigas. E gostou de dar aulas.

Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press
Cansada de viver se mudando, a advogada decidiu voltar para Quirinópolis com os filhos, enquanto o marido seguiu para Belo Horizonte, seu novo posto de trabalho. “Quando cheguei à minha cidade, todos acharam que eu retornaria ao direito. Mas anunciei que ia fazer bolos. A maioria das pessoas ficou chocada. Indagavam: ‘como você vai deixar de ser advogada para trabalhar na cozinha?’” Até então autodidata, Amélia viu que era hora de se especializar e viajou para Barcelona, onde fez cursos para se aperfeiçoar na arte do flower cake. Voltou com outra visão e decidiu dar um novo rumo à profissão recém-abraçada: seria professora da técnica. Escolheu Goiânia para ministrar o primeiro curso.

A essa altura, o marido já não aguentava de saudades da família e Amélia fez a proposta: ele largaria o emprego e viveria de fazer bolo com ela. “José Geraldo achou uma loucura, claro. Até que me acompanhou no curso em Goiânia. Em um único dia de aula, ganhei quase a metade do que ele tirava em um mês no emprego. Ele viu, então, que aquilo poderia ser lucrativo.”

De Goiânia, Amélia seguiu com as aulas para Brasília, Belo Horizonte, São Paulo... Quando viu, a agenda estava cheia. Ela já não conseguia produzir bolos para vender. Tornou-se professora em tempo integral. José Geraldo, que já dava uma mãozinha à mulher nas encomendas de Novo Progresso, passou a ser ajudante de Amélia nas aulas. 

Hoje, eles rodam o Brasil em uma caminhonete lotada de apetrechos para confeccionar verdadeiras obras de arte em forma de bolo. “Levo as batedeiras, os bicos, as formas. Meus alunos põem a mão na massa. A aula é toda prática e ainda forneço apostilas e vídeos para treinarem em casa.”

Amélia oferece quatro tipo de cursos, do básico ao avançado, com duração de um dia. “Começo às 9h e só saio quando todos conseguirem executar o que foi ensinado. Já teve dia que acabou às 23h”, garante. Já no primeiro módulo, o aluno produz o próprio bolo — da massa à decoração, com os oito tipos de flores e folhagens aprendidos.

Nas aulas, com público predominantemente feminino, José Geraldo circula desenvolto e cumpre à risca todas as ordens de Amélia. “Ele já está ‘domesticado’”, diverte-se. O casal ainda não sabe o que o futuro reserva para a família, hoje estabelecida em Quirinópolis. De uma coisa, porém, têm certeza: aproveitarão o momento. Amélia planeja a publicação de um livro que, ao lado das receitas, virá recheado de poesias, uma das muitas paixões da doceira. Um jardim de doces e letras.
 

Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press
Bolo Amélia Lino

(Base para rechear e confeitar a seu gosto) 

Ingredientes
- 6 ovos
- 250g de farinha de trigo: destas 250g, 4 colheres de sopa são de amido. Complemente o restante com farinha até obter as - 250g. Peneire os dois juntos, duas vezes, para incorporar.
- 280g de açúcar refinado
- 1 xícara de leite (ferver até levantar pelas bordas, na hora de colocar na massa)
- 2 colheres de margarina derretida (serão inseridas no leite, ferverão juntos)
- 1 colher rasa de fermento em pó químico 
- 1 colher de chá de baunilha branca

Modo de fazer
- Bata os ovos inteiros. Quando obter volume e consistência (aproximadamente em 10 minutos), diminua a velocidade da batedeira para o mínimo, acrescente o açúcar devagar até formar um creme fofo.
- Coloque o leite fervido com as colheres de manteiga e bata por 30 segundos.
- Ligue o forno na temperatura média (180ºC). Em seguida, insira a farinha, depois o fermento (peneirados) ainda na velocidade mínima da batedeira.
- Distribua em duas assadeiras, de 20cm x 10cm de diâmetro.
- Retire do forno e desenforme de imediato, ainda quente, sobre o papel-manteiga e cobrir com pano seco.

Serviço

Amélia Lino
Telefone: (31) 99246-2400 ou Instagram: @amelialinoo
Em 28 de setembro, ela estará em Brasília para ministrar o curso de flower cake avançado em new glossy
Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.