A paciência e paz dos cuidadores de bonsais

Cultivo do bonsai exige delicadeza, técnica apurada e cuidados especiais. Prática provoca paixões, muda a forma de enxergar o mundo e desperta amizades

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postado em 01/10/2017 08:00 / atualizado em 14/10/2017 20:09

Traduzida como “planejado em uma bandeja”, a palavra japonesa “bon-sai” deu nome a um cultivo que vai muito além desse conceito e conquista cada vez mais admiradores. A delicada arte do bonsai, como o termo ficou conhecido por aqui, deriva de uma antiga prática chinesa de horticultura e significa muito mais do que criar pequenas espécies em miniatura. A prática envolve princípios filosóficos da busca por iluminação e paz e exige técnicas apuradas que dependem de um olhar especial sobre o meio ambiente.

O bonsai cria representações reais de uma árvore, em forma de miniaturas, com o uso de técnicas muito especiais. As plantas podem ser de qualquer espécie, mas as de folhas menores são mais fáceis de serem projetadas. Basta se interessar um pouco pelo assunto para descobrir que, em Brasília, como em outras cidades, existe um número crescente de aficionados e praticantes dessa arte milenar.

Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press
Joselita Ribeiro Machado, 45 anos, mais conhecida entre os bonsaístas como “Jô Ribeiro”, é apaixonada pelo bonsai. Quem caminha pelo seu viveiro e troca, no mínimo, duas palavrinhas com ela, já consegue perceber o tamanho de seu amor pela arte. Um amor tão grande que levou Jô a tatuar, na pele, o seu bonsai favorito. 

Das mais de três mil plantas que cultiva ali, não há uma sequer que Jô não conheça a fundo. As suas explicações sobre a arte, que fluem naturalmente, e os gestos revelam o cuidado com as miniaturas e chamam tanto a atenção que motivam e deixam curioso qualquer visitante.

“Muito mais do que um trabalho, os bonsais sempre foram a minha paixão. Eu me encantei por eles há 10 anos e hoje, além de praticar a arte, tenho o prazer de tirar a minha renda daqui”, conta Jô. De acordo com outros bonsaístas, ela é uma das responsáveis pelo comércio fértil de bonsais no DF. Mas comprar um exemplar com ela não é tão fácil quanto parece: as miniaturas só são liberadas do viveiro após uma conversa cheia de recomendações e quando Jô tem certeza de que serão bem criadas pelo novo dono.
 

Visão diferente

“O bonsai me agregou muitos amigos durante esses anos. Todos são clientes. E criar essas plantas me fez ter uma visão diferente sobre a vida, já que ela lhe devolve tudo o que você oferece a ela.” Jô garante que suas folhas brilham apenas porque são bem cuidadas e basta prestar bem atenção para não se ter dúvida alguma. 

Atenta  ao celular, ela justifica que orienta sobre cuidados com a miniatura o dia todo. “Para uma planta durar, é preciso que tenha suporte. Assim como um bichinho de estimação precisa de cuidados”, afirma.

Além de cultivar e comercializar, Jô oferece consultoria, com atendimento exclusivo e personalizado para cada planta. Os serviços envolvem tratamento, como recuperação de árvores danificadas por pragas ou por falta de luz, manutenção e desenvolvimento de novos bonsais. E — acredite! — até hospedagem, uma prática muito comum entre os criadores de bonsai. Quem vai viajar ou quer que o bonsai tenha cuidados especiais por algum tempo pode deixá-lo com a bonsaísta.

Enquanto mostra os cultivos, Jô aponta, com orgulho, cada planta que estava lá hospedada e sendo tratada. “Esta aqui chegou sequinha e sem cor, olha como está bonita agora”, dizia, equilibrando várias miniaturas nos braços. A aposentada Márcia Holanda, 54, recorreu ao hotel da Jô nos dias de inverno, em que a planta, cultivada em apartamento, pega pouco sol. “Meu bonsai já tem 15 anos de idade. Comprei há cinco. Acho essa ideia muito prática e interessante”, diz.

De acordo com Márcia, ter a certeza que “o pequenino” está em um ambiente controlado, com cuidados adequados, é muito especial. A miniatura já chegou a ficar três meses em hotel. “É uma facilidade, já que não deixo de fazer minhas coisas. Apesar de gostar da planta, prefiro que outra pessoa faça esses cuidados mais delicados, como a poda.” Mesmo de longe, a aposentada acompanha o dia a dia e o crescimento da planta pelas redes sociais.

Minifloresta

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press

Quem também aderiu a essa prática foi o servidor público Daniel Mateus Barreto, 47. Com três pequenas plantas em casa e uma minifloresta — várias árvores juntinhas, criadas em um grande vaso — , ele afirma que a paixão veio aos poucos. “Comprei um primeiro bonsai para ver se conseguiria cuidar. Quando peguei jeito e gosto, resolvi aumentar a família”, brinca.

Sempre que viaja, Daniel deixa as árvores aos cuidados de Jô, no hotel. “É uma garantia de que, quando eu voltar, tudo estará como deixei ou até melhor. Tenho medo de deixar com conhecidos, pois não são todos que têm os mesmos cuidados que nós.”

Tanta dedicação faz a palavra férias ficar esquecida entre os criadores de viveiros de bonsai. Caso do aposentado Luiz Fernando Martins, 56, o Nicky, que ficou conhecido entre os amigos como “mestre dos bonsais”. Ele começou a se encantar pelas miniaturas ainda quando morava em apartamento. “Quando me mudei para a chácara, foi mais um gatilho para cultivar outros exemplares”, conta. Desde então, há 20 anos, Luiz, assim como Jô, compartilha a paixão pelo bonsai com outras pessoas. Dá cursos de níveis básico e intermediário e comercializa, com cautela, plantas pré-prontas e bonsais.

O ideal de trocar experiências  sobre a prática, reconhecida como “arte viva”, levou Luiz a fundar o Brasília Bonsai Clube, em 2004. Hoje, com 30 membros, o grupo se reúne para compartilhar novidades  e suas criações. “Já participávamos de fóruns de discussão na internet, mas não havia um grupo efetivo em Brasília. Existem muitos bonsaístas por aqui, então começamos a reunir essa turma para poder não só difundir a arte entre a gente, mas também divulgá-la pela cidade.”

O bonsai, segundo Luiz, vem da ideia dos tempos antigos de repassar a planta para pessoas dentro ou fora do grupo familiar, sempre cultivando-a com bastante cuidado. No viveiro da Jô, por exemplo, existe um bonsai com mais de 80 anos! E no do Nicky, a idade das plantas também é inacreditável. 

“É uma arte viva, porque você nunca finaliza. Ela reúne preciosidades na forma como trabalhamos a planta, desde o vaso até o formato todo especial”, explica. Além disso, o bonsai marca a personalidade de quem o trabalhou: assim como uma pintura, sabemos quem o confeccionou, mesmo que a interferência humana seja imperceptível.

Luiz garante que mais do que na arte, o bonsai contribuiu de forma considerável para melhorar sua vida. “Paciência, segurança, cuidado. Isso agrega muito à pessoa que me tornei. O cultivo da planta me trouxe muitas amizades e conhecimento.” 

O saber não se limitou apenas à horticultura. Para ler a variedade de livros sobre o tema de que tanto gosta, o bonsaísta aprendeu japonês, francês e espanhol. “Você pode ficar restrito ao seu quintal ou apartamento, mas eu, não. O bonsai me proporcionou muito mais”, garante. 
 
 

Leitura e estudo 

No caso de Erismar Rodrigues, 41, o primeiro contato com os bonsais veio a partir do curso de biologia, em 1999. O biólogo e paisagista notou que seria possível cultivar plantas em apartamento com a técnica de bonsai. Há 18 anos na arte, ele acredita que essa é uma ótima forma de terapia. “O cultivo remete a uma questão de espírito, pensamento, sentimento e expressão. É isso que ajuda na formação do bonsai. A paciência e a tranquilidade que direcionamos para isso acabam sendo levadas para a vida.”

Para começar, Erismar garante que é preciso dedicação. Sem leitura ou estudo, segundo ele, a arte não pode ser desenvolvida de forma completa. “É um investimento que se tornou a minha vida. Segui no ramo de paisagismo justamente por essa paixão. É algo muito especial.” Ele cultiva para comercializar e difundir a arte entre amigos, ex-alunos e aficionados. Divide os dias entre o paisagismo, a biologia e a arte do cultivo das miniaturas.

Para compartilhar os conhecimentos com outras pessoas, o biólogo dá cursos em escolas ou outros espaços. “Quatro horas, por exemplo, são o suficiente para aprender bastante coisa. Acho que o curso prático é essencial para iniciantes. Comecei assim e acho que pode ser uma ótima opção. Por isso, a ideia”, explica Erismar.

Na internet, muitas páginas, blogs e grupos em redes sociais também contribuem para que a arte seja cada vez mais conhecida. Só no Facebook, grupos com mais de 11 mil pessoas compartilham imagens, dicas e pedidos de ajuda no cultivo das plantas. Para participar, basta fazer uma solicitação e, em alguns minutos, você já é um membro muito bemvindo no Bonsai Dicas ou no Bonsai Brasil, por exemplo. A troca de informações e experiências entre os interessados é algo encantador.

Como comprar um bonsai?

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press

Veja as dicas básicas do Bonsai Empire:
Comece com espécies fáceis de serem cultivadas e administradas. Pergunte antes de comprar.
Compre uma miniatura adequada para o local onde pretende colocá-la; somente as de interior (subtropicais) ficarão bem em ambientes fechados, assim como árvores que ficam ao ar livre só se darão bem se colocadas do lado de fora da casa.
Não se esqueça de perguntar quais espécies de árvore você comprou, o que é importante para buscar informações sobre como cuidar delas adequadamente.
Verifique se o vaso não está danificado.

Serviço

Bonsai Jô Ribeiro
Onde: Águas Claras - DF
Contato: (61) 9929-1828
Horário de atendimento: segunda a sexta, das 9h às 18h
Para visitas, é preciso agendar.
Site: http://bonsaijoribeiro.com.br/site/

Viveiro do Nicky
Onde: Chácara Martins, número 7, Núcleo Rural Ponte Alta Norte, Vicinal 351, abaixo do Pesque e Pague Flamboyant, Gama/DF
Contato: Luiz Fernando, (61) 98147-9722

Onde aprender mais

Curso Básico de Bonsai com Erismar Rodrigues
Valor: até R$ 150
Informações e contatos: www.facebook.com/minijardineiro
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