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Regime dita a moda e até corte de cabelo na Coreia do Norte

No estilo imposto pelo Estado, a palavra de ordem é o recato. Nada de cabelos compridos, "que podem afetar a inteligência", nem sungas. Mostrar o umbigo, nem pensar! É cadeia na certa

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postado em 01/10/2017 08:00 / atualizado em 01/10/2017 16:08

Já pensou em pegar prisão e trabalhos forçados só porque cortou o cabelo fora do estilo oficial? Pois a regra existe, como viu o repórter Renato Alves, nos 10 dias que passou em Pyongyang, capital da Coreia do Norte. Conseguir o visto de jornalista não foi nada fácil, e Renato era o único repórter estrangeiro por lá no dia em que o ditador explodiu a temida bomba H. Em meio à euforia da população com a exibição e as comemorações do poder de guerra, ele lançou um olhar atento sobre a vida das coreanas e relata, para a Revista, como é ser mulher no país mais fechado do mundo.
 
Pyongyang — Na Coreia do Norte, não se discutem os estilos de corte de cabelo em salões de beleza ou em revistas de moda. Nem há publicação do gênero no país, onde circulam só um jornal diário e uma revista mensal, editados por um órgão estatal. Tudo, inclusive a personalidade, é questão de Estado. É o regime que decide como devem se apresentar os cidadãos.

Assim como os homens, as mulheres podem escolher entre 14 estilos oficiais de cortes de cabelo. As casadas são instruídas a mantê-los mais curtos. As solteiras podem optar por um comprimento mediano, até um pouco ondulado. No caso dos homens, a rigidez é maior. O regime recomenda que cortem o cabelo a cada 15 dias. Eles são proibidos de deixar que tenham mais de 5cm de comprimento. Os mais velhos podem ter madeixas de até 7cm.
Renato Alves/CB/D.A Press

Ressalte-se que não se trata de opções, mas de imposições. Quem quebrar as regras pode ser preso e enviado a um campo de trabalho forçado. Em 2004, por exemplo, o gabinete do então líder Kim Jong-il lançou uma campanha, por meio da televisão, chamada Um Estilo de Vida Socialista. Ela advertia para os cabelos compridos, que diziam poder afetar a inteligência.

Aliás, nenhum homem pode adotar o hairstyle do atual líder, Kim Jong-un. Também é vetado o uso de barba, bigode, cavanhaque e afins. Ainda são proibidas as perucas, os cabelos com gel e os fios longos, por serem considerados muitos efeminados. Há salões de beleza só para mulheres, unissex e barbearias. A maioria das barbearias é comandada por mulheres, que, além de rasparem os rostos masculinos, cortam os cabelos dos homens, inclusive os das orelhas e do nariz.

Código severo

Assim como as normas criadas para os cabelos, há um código de vestimenta, conservador, tanto para homens como para mulheres. Todos devem usar roupas recatadas. Mostrar o umbigo em público também pode resultar em prisão, bem como usar calça jeans, por se tratar de um “símbolo do imperialismo americano”. Curiosamente, no hotel em que estava hospedado, todos podiam consumir Coca-cola (fabricada na Malásia), a US$ 1 a lata de 355ml.

Apesar de tantas restrições, em 10 dias na Coreia do Norte, constatei uma evolução no modo de se vestir e de se comportar dos norte-coreanos, em relação aos relatos referentes ao século 20 e início do século 21. Principalmente na capital, Pyongyang, cidade que recebe mais investimentos em infraestrutura e onde mora só a elite, as famílias consideradas mais fiéis ao regime.
Renato Alves/CB/D.A Press

Além de aparelhos celulares, que só fazem e recebem ligações e mensagens de texto dentro do país, e dos desfiles de cachorros de raça — só vi dois durante a minha estada —, os norte-coreanos de Pyongyang exibem uma aparência muito diferente das pessoas magras com roupas de aspecto pobre e antigo que se viam décadas atrás. Homens andam elegantes, com sapatos sempre lustrados. Mulheres acima dos 30 anos usam sapatos de salto, vestidos, acessórios e maquiagem (delicada). 

Ousar custa muito caro (e como!)

Renato Alves/CB/D.A Press
  

No país mais fechado do mundo, algumas normas continuam inquebráveis. Para as mulheres, mostrar o umbigo ainda é algo impensável. Por isso, não se usa biquíni. Ele é totalmente proibido. Tive a oportunidade de conferir os modelitos da moda praia no único e gigantesco parque aquático de Pyongyang.

Inaugurado em 2013, com um desfile militar, à primeira vista o Munsu Water Park não difere dos similares do Ocidente. Exibe piscinas com ondas, cascatas artificiais, cafeterias, lanchonetes, cervejarias e dezenas de tobogãs de todos os tamanhos e cores. Lembra os parques de Caldas Novas (GO).

Mas uma bizarra imagem dá as boas-vindas aos visitantes no hall de Munsu. É a estátua colorida e realista do falecido líder Kim Jong-il que, sorridente e vestido com seu clássico terno de cor cáqui, ocupa o palco com a gigantesca fotografia de uma praia atrás e uma cadeira e uma sombrinha de praia de verdade ao lado.
Renato Alves/CB/D.A Press

Tão estranhos aos olhos ocidentais são também os maiôs das norte-coreanas. Alguns, até o joelho, com babados, se parecem com os modelos usados mundo afora no início do século passado. Os homens mostram o peito — o que é permitido somente em piscinas e em praias —, mas não podem usar sungas.

Em Munsu, presenciei a única demonstração de afeto em público de um casal, algo proibido até recentemente. Eram jovens de mãos dadas. Não vi beijo. Continuam considerados crimes no país o homossexualismo e possuir, consultar ou distribuir material de conteúdo erótico. O tema pornografia inexiste na Coreia do Norte. E por pornografia entende-se até uma foto de mulher com biquíni.
Renato Alves/CB/D.A Press

Privilégio para as “de casa” 

O governo da Coreia do Norte garante que as mulheres têm direitos iguais aos dos homens em seu território. É fato que elas exercem diversas atividades profissionais em Pyongyang, onde observei a presença feminina inclusive em postos de chefia. Ao menos na lei, mães e mulheres grávidas norte-coreanas têm direitos. Entre eles, 77 dias de licença-maternidade com remuneração integral e as despesas de alimentação pagas.

A lei proíbe horas extras ou trabalho noturno para as grávidas ou em período de amamentação, e manda que sejam transferidas para um trabalho mais facilitado, com a igualdade de remuneração. Há ainda, pelo menos na capital, muitas instalações exclusivas para mulheres, como sanatórios, casas de repouso e hospitais. Mas vale lembrar que eles só existem em Pyongyang, onde reside a elite norte-coreana.

A proporção de mulheres para homens em empregos com altos salários ainda é consideravelmente menor do que a registrada em empregos de baixa remuneração. Além disso, a maioria das mulheres nas altas posições na sociedade ou são parentes ou esposas dos principais líderes. Pior: são inúmeros os relatos de violência praticados pelos ocupantes do alto escalão do regime contra as mulheres. Eles incluem trabalho forçado e estupro. 

Renato Alves/CB/D.A Press

A vida por trás da vitrine


Girl band
 
  • O atual líder norte-coreano, Kim Jong-un, criou um grupo musical só de garotas. As cantoras da Moranbong Band usam roupas inspiradas em trajes militares, mas um pouco curtas para os padrões de Jong-un.

Tropa do prazer
  • Terminado (no fim de 2014) o período de três anos de luto oficial pela morte de Kim Jong-il, e depois de, por respeito, ter dissolvido a “tropa do prazer” — grupo de mulheres recrutadas pelo pai —, Kim Jong-un decidiu escolher seu próprio “exército”. O líder não abre mão da tradição familiar, mesmo casado e com uma filha.

Concubina de luxo
  • Esses “exércitos” são compostos por jovens com 13 ou 14 anos. Oficiais do regime viajam pelo país à procura de adolescentes para servirem como criadas, cantoras ou bailarinas, sendo que a mais bonita será a concubina de luxo.

Harém renovado
  • Os oficiais têm de encontrar de 30 a 40 jovens, por ano, de forma a renovar o harém. Quando elas se aproximam dos 25 anos, são “aposentadas” das funções e passam a integrar as forças de segurança ou a serem funcionárias do governo.

Símbolos sexuais
  • Por gesticularem sem parar, mesmo quando não há veículo na via, as guardas de trânsito norte-coreanas são vistas como símbolos sexuais e exemplo de dedicação ao trabalho e de amor ao partido. Também sofrem abusos sexuais das autoridades.

Estupros nas prisões
  • Mulheres desertoras contam que o estupro é uma prática comum nos campos de trabalho forçado, geralmente cometidos pelos guardas. Se a vítima engravida, pode ser assassinada para evitar que uma criança “politicamente impura” nasça.

Abuso infantil
  • As crianças nascidas nos campos de concentração são obrigadas a praticar sexo com os guardas em troca de comida. Ex-prisioneiras relatam que, como a comida é escassa, essa é a única forma que elas encontram para não morrer de fome.

Escravas sexuais
  • De 60% a 70% dos desertores norte-coreanos são mulheres — das quais, 70% a 80% acabam rendidas por traficantes de seres humanos, atuando como escravas sexuais (seus preços variam de US$ 120 a US$ 1.890).


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Jean
Jean - 02 de Outubro às 12:02
Vivem na idade das trevas!!!! População ZUMBI!!!!