Educação

Educação (sexual) vem de casa?

Tabu em grande parte dos lares brasileiros, diálogo sincero sobre sexo ajuda a preparar o jovem para amar de forma responsável, respeitosa e saudável. Pesquisa mostra que ainda há muito atraso a vencer

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postado em 22/10/2017 08:00 / atualizado em 23/10/2017 15:05

A tarefa de tratar o sexo como algo natural dentro dos lares não é fácil. Primeiro, porque cada família deve encontrar a melhor forma de abordar o assunto. Segundo, porque a criação dos pais de jovens de hoje foi bem diferente da que o mundo atual pede.  Mas uma coisa é consenso entre especialistas: o debate deveria começar dentro de casa, onde o tema ainda costuma ser tratado como tabu.

Pesquisa realizada pela empresa farmacêutica Bayer em todas as regiões brasileiras, com pessoas entre 15 e 25 anos, revela que os pais não são nem a segunda opção quando os jovens precisam tirar dúvidas sobre sexo: 60% deles buscam a internet, 15%, os amigos, e somente 8% recorrem aos pais.

Os dados do levantamento mostram mais: quando questionados sobre quem ensinou sobre sexo, a pornografia foi mais citada do que a opção que continha profissionais de saúde, como médicos, enfermeiros, etc. Diante das respostas, sobram várias perguntas, como, por exemplo: que tipo de educação sexual os jovens estão recebendo? Quem deveria dar essas informações? De que forma essa educação deve ser dada?
Arte: Alan Rios

Sabrina Bittencourt, 36 anos, empreendedora e doutora honoris causa em educação, costuma falar abertamente sobre sexo com o filho de 15 anos, mas sabe que é uma exceção. Para ela, antes de tudo é preciso parar de tratar o sexo como um assunto proibido, porque isso faz com que as experiências sexuais não sejam sinônimo de prazer. Sabrina faz uma comparação entre épocas para abrir os caminhos do diálogo. “Sei que muitas mulheres da minha geração, hoje mães de adolescentes, também passaram por situações de transar escondido”, admite.

De acordo com especialistas, essas relações longe de casa, sem preparativos e desprovidas de afeto, são muito mais passíveis de frutos distantes dos cobiçados, como alguma doença sexualmente transmissível ou uma gravidez indesejada, tão comum no cenário nacional. Por isso, conta Sabrina, quando escreveu o texto intitulado Por que permito que meu filho adolescente transe em casa, que viralizou no Facebook, a sua intenção foi mostrar que o sexo deve ser “consentido, natural, sem repressão, amoroso, generoso entre todas as partes envolvidas e com um suporte de confiança plena entre pais e filhos”.

Quebrando o silêncio

A sexóloga Laura Muller lembra que é muito difícil para os pais, também, dar as orientações necessárias. “O que eles tiveram de educação sexual para estarem preparados para lidar com isso?”, questiona. Mas, para ela, esse ciclo do tabu pode, e deve, ser quebrado. Apesar de haver um senso comum de que o diálogo sobre sexo pode estimular jovens a praticarem relações desde cedo, o que se vê na prática é totalmente diferente, como explica a especialista.

“Isso é uma bobagem. Falar sobre sexualidade de uma forma educativa não vai estimular a vivência precoce do sexo. Pelo contrário, vai favorecer e ajudar esse jovem, quando chegar o momento em que ele se sinta preparado para viver as primeiras experiências sexuais, a fazer isso de uma forma saudável, responsável e prazerosa”, assegura Laura.

Quando o diálogo sobre sexo e sexualidade não existe, muitas outras questões da educação familiar são deixadas de fora da criação dos filhos. O autoconhecimento é prejudicado, a formação de uma identidade do jovem é quebrada e casos como o de Webert da Cruz, 23 anos, se tornam comuns: “Dentro de casa eu não era quem eu era”, conta ele. O estudante não mora mais com a família, porque sentia a falta de diálogo e acredita que havia um clima que oprimia manifestações de sexualidade.

“Saí de casa aos 21 anos, por conta da homofobia da família. Eu não me sentia compreendido, não entendia os meus desejos, não podia falar deles, não podia me expressar sobre como me sentia”, conta Webert. E o problema se agravou quando começaram as discussões sobre a orientação sexual dele. “Eu fiquei muito mal, pensando, durante várias semanas, sobre quem eu era, quem era a minha família.”
Minervino Junior/CB/D.A Press

Porto seguro

Falar sobre sexo é muito mais do que citar o ato sexual. Tão comentado em mesas de bares e encontros de amigos, o assunto é complexo. E, para Laura Muller, a diversidade de gênero é uma das ramificações do tema que devem ser abordadas por quem quer que eduque: “Devemos falar de quatro eixos da educação sexual: como evitar a gravidez fora de hora, como evitar doenças sexualmente transmissíveis, a prática do sexo em si, incluindo o afeto e o prazer, e a diversidade sexual”, detalha.

Na casa de Webert esse último ponto nunca tinha sido discutido. Pelo contrário, era reprimido com atos que iam desde os olhares de reprovação da mãe para atitudes que considerava afeminadas, até a decisão momentânea de não falar mais com o filho depois da revelação de que ele era homossexual. “Diferentemente das pessoas heterossexuais, que enxergam a família como porto seguro, muitas vezes, para nós, LGBTs, ela é a primeira opressora”, avalia o jovem.

Citando Paulo Leminski — “Isso de ser exatamente o que se é ainda vai nos levar além” —, Webert descreve sua luta fora do lar para poder viver a própria identidade, encontrar novas formas de acolhimento e lidar com as questões sexuais com apoio de amigos que enfrentaram as mesmas situações. “Saindo de casa é que eu fui ter uma melhor educação sexual, porque na rua eu vi que existem outros tipos de família, aprendi novas coisas. E a internet foi um espaço de compartilhar vivências, em que eu descobri muita coisa e vi que existem muitas pessoas com histórias parecidas com a minha.”
Divulgação Bayer

 

Prevenção e (por que não?) prazeres

A educação sexual deve ser tema de diálogos também fora de casa, especialmente nas escolas. As recomendações sobre o papel das instituições de ensino na educação sexual existem já há 20 anos e fazem parte dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), do Ministério da Educação. Mesmo assim, nem sempre são colocadas em prática. A omissão prejudica os jovens.

“Desde 1997, é sugestão dos parâmetros que o tema sexualidade seja transversal no ensino a partir dos seis anos de idade. Isso significa que o tema sexualidade deve aparecer nas variadas disciplinas”, relata Laura Muller. Criados pelo governo federal, os PCNs são planos que orientam os professores das redes pública e privada sobre os temas que devem ser abordados em sala e como isso deve ser feito nas diferentes disciplinas.

Sobre sexualidade, o MEC é bem claro ao recomendar a melhor forma de educar: “A escola deve informar e discutir os diferentes tabus, preconceitos, crenças e atitudes existentes na sociedade”. Os resultados dessa medida, de acordo com o PCN, serão “o aumento do rendimento escolar, devido ao alívio de tensão e preocupação com questões da sexualidade, e o aumento da solidariedade e do respeito entre os alunos”.

Na prática, no entanto, a realidade passa um pouco longe do cenário ideal dos debates. Para a professora de biologia e mestranda da UnB Priscilla de Almeida Gomes, o trabalho desenvolvido nas escolas ainda peca pela falta de diálogo entre as variadas disciplinas e pela redução do assunto aos aspectos biológicos. “O foco é muito mais sobre órgãos genitais, fecundação, gestação e prevenções do que uma discussão propriamente dita. Não existe muito incentivo no que diz respeito ao estímulo de discussões de identidade de gênero e orientação afetiva e sexual, por exemplo.”

O tal “do orgasmo”

Divino Charles, autônomo, explicou para a filha, na adolescência, o que era um orgasmo. Não foi nenhuma surpresa para ela, que sempre tirou com o pai as dúvidas que mexem com a cabeça de tantos jovens. Larissa Fernanda, 23, sempre teve em casa a educação que outros procuram na internet e o carinho que tantos buscam na rua. “O meu pai fala sobre tudo em relação à educação sexual. E minha mãe é como uma amiga, eu sempre conto as coisas para ela abertamente”, diz a jovem.
Ana Carneiro/Esp. CB/D.A Press
A mãe de Larissa, Eliana Maria de Souza, 44, nunca deixa de ouvir a filha e não reprime perguntas ou revelações sexuais, apesar de ter sido criada de maneira extremamente tradicional, em uma família que se envergonhava diante de cenas mais picantes na tevê. “Na minha época, os pais não falavam nada sobre sexo. A gente foi descobrindo as coisas ouvindo o povo falar. Era tudo tão fechado que, na minha casa, tinha uma cortininha na frente da tevê e, quando passava cena de beijo, minha mãe já fechava para ninguém ver”, conta Eliana.

Charles também não teve diálogo sobre sexo em casa, mas se orgulha em dizer que o ensino que não recebeu conseguiu dar para os filhos. Com a experiência dos seus 48 anos, ele lutou contra a vergonha e decidiu falar tudo, sem medo para não ter preocupações futuras. “Eu cacei coragem e fui falar com eles sobre tudo: menstruação, sexo, preservativo, como ter a primeira relação, como reagir quando forem assediados na rua, o porquê dos desejos, como ter orgasmo e tudo mais.”

Nada escapou de Charles e Eliana, que desde cedo conversaram com seus filhos como amigos, mas com a sabedoria de pais preocupados com o bem-estar deles, a saúde, os prazeres e o respeito. O resultado é o mais benéfico possível, segundo Larissa. “As conversas não me incentivaram a ter relações, tanto que não tive cedo.”

Para Larissa, na verdade, o diálogo permanente com os pais lhe deu a certeza de que podia contar com eles sempre, “sem pirarem ou brigarem comigo”, e ajudou a construir uma relação de confiança.  Charles reconhece a importância da educação que ele e Eliana escolheram para os filhos e que nunca tiveram quando jovens: “Agora sei que meus filhos estão preparados”. 

Sem tabus na conversa

Com crianças
O adulto não deve inibir as perguntas, mas explicar tudo com linguagem adequada à idade e com a ajuda de contos e ilustrações.

Com adolescentes
Os pais devem escolher momentos para iniciar o diálogo com os filhos sobre os principais pontos do sexo: prevenção da gravidez precoce e de doenças sexualmente transmissíveis; prática sexual (incluir questões de afeto e prazer) e diversidade sexual.

Com jovens
O assunto tratado na adolescência deve prosseguir e se aprofundar, envolvendo debates sobre identidade, autoconhecimento e diferentes experiências.


* Estagiário sob supervisão de Valéria de Velasco, especial para o Correio 
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