Jornal Correio Braziliense

Identidade

Resistência negra mostra a força de sua cultura no YouTube

Jovens ocupam espaço na internet para falar do dia a dia de enfrentamento a preconceitos e discriminações

André Baioff*
O dia 20 de novembro de 1695 foi marcado pelo assassinato do personagem que se transformou em símbolo da luta e resistência do povo negro por liberdade e justiça, na história do país: Zumbi, o líder do Quilombo dos Palmares. Mais de 300 anos depois, a data de sua morte é revivida como instrumento de reflexão das causas que envolvem a consciência negra. O dia virou feriado em várias cidades e municípios. Mas, não basta. A luta continua e ferramentas como as redes sociais dão voz e espaço para fortalecê-la. É o caso de canais do YouTube.

À frente do canal Jô Gomes, a jornalista e dançarina Joceline Gomes, 30, não se reconhecia como mulher negra até os 22 anos de idade. Recém-formada, conseguiu o primeiro emprego, e lá sentiu o peso da discriminação. Uma colega de trabalho começou a alertá-la sobre o problema. “Isso aconteceu porque você é negra da favela, dizia essa minha amiga, toda vez que ele fazia algo. Eu levava um susto e pensava: ‘Ok, da favela. Mas, negra?’”, recorda Joceline.

Em 2010, durante o Festival da Mulher Afro Latino Americana e Caribenha (Latinidades), ela começou  a estreitar os contatos com outras mulheres negras e a entender melhor as questões raciais e os preconceitos que sofria na vida profissional. Cinco anos depois, entrou no Grupo Cultural Obará, que trabalha com manifestações culturais afrobrasileiras. Desse mergulho na cultura negra até criar um canal próprio no YouTube, foi um passo.
Jô era discriminada e não se reconhecia na cor: "Ok, da favela. Mas, negra?" - Foto: Minervino Junior/CB/D.A Press;
“O canal surgiu sem pretensão nenhuma. E foi crescendo. Hoje, uso como acervo profissional. De apresentações e aulas”, conta Jô, que compartilha aulas de danças específicas da cultura afro — como o kuduro, afro house, azonto e dancehall —, e da cultura urbana, como hip-hop e street dance. “O canal é uma espécie de portfólio virtual para os meus trabalhos. Dança é muito visual e o canal facilita nesse sentido”, explica.

Por ser uma linguagem acessível e rápida, ferramentas da internet, como o YouTube, são cruciais para a promoção da autoestima da população negra, principalmente da juventude, acredita Jô. “Antes, quem fazia vídeo era quem tinha uma câmera excelente e serviço de internet ‘bala’. Agora, com um celular você tem contato com tudo isso.” 

Referências

Para Marizete Gouveia Damasceno, 60 anos, coordenadora da Comissão Especial de Psicologia e Relações Étnico-Raciais do Conselho Regional de Psicologia do DF (CRP/DF), é muito importante que a internet traga representatividade para os negros. Doutoranda em psicologia clínica e cultura, ela ressalta que isso é necessário, principalmente para os mais jovens, que precisam de referências para não assumir a identidade da pessoa de pele branca como detentora de tudo o que se conhece de positivo.

“A pessoa negra não se vê representada nos diversos setores da vida. Ela vai ao médico, o médico é branco; vai ao dentista, também é branco; na escola, a professora também é; seus colegas, também; na mídia, também, só mostram pessoas dessa característica; e por aí vai. Seus semelhantes (pessoas negras), a criança, ou o adolescente, só vê em serviços mais subordinados”, compara a psicóloga.

No processo de aceitação do indivíduo como pessoa negra, Marizete ressalta a facilidade de comunicação nas redes sociais. Lá, é possível encontrar personalidades inspiradoras que servem como modelos para crianças e jovens. “Essas pessoas poderiam, de outra forma, estar invisibilizadas, devido às dificuldades de acesso do negro à mídia tradicional e, portanto, à falta de representatividade”, diz a psicóloga.

O Brasil foi o último país a deixar o sistema escravagista. E só 29 anos atrás, na Constituição de 1988, tipificou os crimes de preconceito e discriminação racial, tornando o racismo inafiançável. Joelma Rodrigues da Silva, professora da licenciatura em educação do campo da UnB em Planaltina, no entanto, diz que ainda falta muito. “É crime inafiançável, mas quantos estão presos por isso?”, questiona.
Chayene assumiu o cabelo e foi zoada na rua: "Primeiros dias foram tensos" - Foto: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press;
A gerente de marketing on-line Chayene Rafaela Alves da Rocha, 26, é a influenciadora digital do canal Girafa de Estimação. Quando poucas mulheres negras deixavam os cabelos naturais, Chayene ouvia piadas das pessoas que se incomodavam com isso. Ela conta que a sua mudança não foi proposital. Após um acidente com um produto químico que quase corroeu o seu couro cabeludo, ela, traumatizada, nunca mais o alisou.

“Viés contrário”

“Os primeiros dias foram ‘tensos’. Andava na rua e ouvia os gritos das pessoas, mandavam pentear o cabelo. Elas me olhavam de cara feia, riam. Minha mãe se estressou muito. Uma vez, fomos a uma loja e a atendente estava rindo e cochichando de mim. Minha mãe não aguentou e brigou muito. Foi um processo difícil”, relembra. Embora a aceitação do cabelo tenha acontecido por conta do acidente, Chayene diz que já havia pensado em mudar, desde que começou a ler sobre o empoderamento negro.

No canal de nome curioso, o Girafa de estimação, ela chama a atenção para as questões raciais. Tudo começou com um blog do mesmo nome, que ela escolheu por gostar do bicho que habita as savanas africanas. “No começo, é inusitado. Todos acharam um pouco estranho.” Aos poucos, ampliou a comunicação, criando um canal no YouTube, perfil no Instagram e página no Facebook.

Anastácias

Para homenagear a escrava Anastácia, que não aceitava a falta de liberdade, a violência e as injustiças a que era submetida e lutava contra a opressão, as youtubers Verônica Pereira dos Santos Gomes, a Nonny, e Jacira Andréia Doce Teixeira,  de 28 anos, decidiram criar um canal de resistência.  “Quisemos esse nome —  Anastacias — para ser um viés contrário. Para poder ser voz, para falar aos que se encontram na mesma situação que nós”, conta Verônica.
Verônica, Jacira, Amanda e Sophia resgatam a história: "As Anastácias" - Foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press;
Por acreditar na força dos coletivos femininos, ela e Jacira se uniram a Amanda Alves Guimarães Alves, 22, e a Sophia Costa Serra, 23, para fortalecer a causa. “Sinto que, por meio da nossa união, podemos ajudar outras mulheres negras a passar pelo que passamos de forma menos dolorosa”, emociona-se Jacira.

No canal, criado em julho deste ano, elas falam de forma descontraída sobre o dia a dia de enfrentamento aos preconceitos e discriminações e as formas de valorizar a identidade e a cultura negras. “Várias vezes, contamos algumas histórias que ninguém, entre nós, sabia”, diz Sophia. “É sempre nesse tom de desabafo, e as nossas reações são todas muito reais. Fazemos questão de deixar para contar as coisas com a câmera ligada para passar essa veracidade.” 
 

E ainda tem mais

Rosa do barraco
- Foto: Luiz Ferreira/Reprodução Facebook;  
Rosa Luz é uma transexual negra da periferia. Em 2016, criou o canal Barraco da Rosa, que possui mais de 15 mil inscritos. Entre os temas, relata suas vivências enquanto transexual, negra e afro-latina.
Canal: youtube.com/barracodarosa

Mamba Maluca
Um dos poucos representantes masculinos na cena dos youtubers da cidade, Saulo, do canal Mamba Maluca, investe no humor.
Canal: youtube.com/channel/UCg-plxdVEcBMla0RaWQyqeQ/featured


Neggata
- Foto: Luiz Ferreira/Reprodução Facebook;  
Com 22 mil inscritos, Lorena Monique é um dos exemplos de atitude no enfrentamento das questões raciais. Com visual camaleônico, aborda o empoderamento feminino.
Canal: youtube.com/neggata
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Girafa de estimação: youtube.com/girafadeestimacao
Jô Gomes: youtube.com/user/jocelinegs
Anastácias: https://m.youtube.com/channel/UCqOO7amZn4SFV58ybXlwA7A 


* Estagiário sob supervisão de Valéria de Velasco, especial para o Correio