Alimentação

Boa alimentação é chave para combate à doenças

Desnutrição fragiliza 50% dos pacientes internados em UTIs no Brasil. Especialistas apostam no uso de suplemento oral

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postado em 03/12/2017 07:00 / atualizado em 01/12/2017 15:03

Salvador — Uma boa alimentação, aquela que traz todos os nutrientes que cada pessoa precisa no seu dia a dia, não é importante apenas para prevenir doenças. Ela é crucial, especialmente, para quem precisa garantir forças nas duras batalhas contra doenças ou pela sobrevivência em hospitais. Desnutrição mata e ainda é uma das mazelas do Brasil.

“A comida é o sustentáculo da vida, se não comer, não para em pé”, lembra o médico José Eduardo Aguilar Siqueira do Nascimento, presidente da Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral (Braspen). E não para mesmo. Na década de 1970, a falta de alimentação tirava a vida de 100 em cada mil crianças. Sucessivos governos apostaram em programas sociais para ceifar o mal.

O alvo, agora, são os pacientes das unidades de terapia intensiva. Metade dos doentes internados nas UTIs tem desnutrição, sendo que 14,4% deles morrem. A falta de nutrientes afeta todo o quadro clínico: aumenta o risco de infecções, compromete a cicatrização, aumenta complicações pós-operatórias e prolonga o tempo de internação. Pessoas nessa situação correm 2,5 vezes mais riscos de morrer e até 50% mais  de sofrer complicações.

O cenário preocupa especialistas — um alerta já havia sido apresentado, em 1996, na conclusão do Inquérito Brasileiro de Avaliação Nutricional Hospitalar. Conduzido pelo gastroenterologista Dan Waitzberg, o estudo revelou que a maioria dos tratamentos contra doenças como o câncer, por exemplo, não surtia efeito porque os doentes estavam desnutridos (leia entrevista).

Vinte anos depois da pesquisa, o 22º Congresso Brasileiro de Nutrição Parenteral e Enteral, realizado em Salvador, na última semana de outubro, apontou que o problema persiste e ultrapassou os corredores das unidades de saúde. O tratamento dos pacientes que voltam para casa é comprometido pela negligência no cuidado nutricional, o que aumenta o índice de readmissão hospitalar.

A desnutrição afeta principalmente pacientes oncológicos (66,3%) com mais de 60 anos (52,8%) e com infecções (61,4%). Para mudar esse cenário, a Braspen promete publicar uma nova  diretriz com oito recomendações ao Ministério da Saúde. O documento vai ressaltar a importância da suplementação e atualizar a visão nutricional do ponto de vista da alta médica.

“Além da prescrição médica, os médicos deverão fazer um formulário com informações e recomendações para a alimentação e a suplementação oral”, adianta José Aguilar. Ele explica que, muitas vezes, o paciente vai para casa e necessita de outra internação devido a uma perda de músculos que pode causar insuficiência respiratória. “Para avançarmos, temos que melhorar a informação e a política pública. A desnutrição é tão grave como a doença a ser tratada.”

Solução líquida

Para a Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral, a suplementação — feita com soluções líquidas de pequeno volume — deve ser introduzida na dieta do paciente quando ele não consegue ingerir alimentos na taxa adequada para a idade ou doença que enfrenta. Essa é uma das conclusões do estudo. O próximo passo será negociar com o Ministério da Saúde a implantação e o custeio desse modelo de alimentação a partir de 2018.

“Esse tipo de doente, normalmente, tem pouca fome. Você pode até dar um prato de comida, que é o adequado, mas eles não comem. Então, com uma pequena quantidade de suplemento, você repõe toda a quantidade de calorias e nutrientes necessários. Isso é estratégico. E não é uma coisa cara, é muito mais caro uma dose de antibiótico, por exemplo”, compara José Aguilar.

Por lei, cada unidade de saúde é obrigada a manter um setor para monitorar os casos de desnutrição.  A portaria que regulamenta a prática completou 10 anos. Agora, diz José Aguilar, é atacar o problema.“Muitos hospitais entendem que isso faz parte da dieta, mas não faz. A dieta hospitalar é entendida como o prato, esses suplementos são específicos, têm gradações. Alguns hospitais privados têm aceitado as prescrições médicas e cobrado os planos de saúde, que estão entendendo que isso é custo benefício”, revela.

Bom para a saúde do paciente e para as finanças do governo e dos hospitais. “O importante é entender que, quando se usa terapia nutricional oral, se evita antibiótico, se evita UTI, se evitam gastos com diária hospitalar. Dessa forma, estão se reduzindo custos. Quando se relaciona o custo da terapia com os suplementos em relação ao que se economiza, a terapia se torna altamente benéfica”, destaca José Aguilar.

ENTREVISTA - Dan L. Waitzberg 

Braspen/Divulgacao
 
 
Um copo vale uma refeição

Responsável pelo Inquérito Brasileiro de Avaliação Nutricional Hospitalar, o gastroenterologista e professor do Núcleo de Apoio à Pesquisa em Alimentos e Nutrição da Universidade de São Paulo (USP) fala sobre a relação custo/benefício da suplementação oral: menos remédio e menor tempo de internação.

Por que os pacientes hospitalizados têm mais tendência à desnutrição?
O envelhecimento da população contribui para este cenário. Os idosos são mais sujeitos à desnutrição naturalmente. Eles comem menos proteína, são sujeitos a doenças infecciosas e ao câncer. A desnutrição está associada ao aumento do tempo de internação, piora a evolução cirúrgica, diminui cicatrização, usa mais antibióticos, o paciente custa mais caro e morre mais.

Faltam políticas públicas para combater esse problema?
A política brasileira é avançada. O Brasil foi um dos primeiros países a custear a nutrição enteral. Os avanços pararam por uma série de questões políticas. Existem leis muito boas. O cumprimento e a modernização são outra coisa.

Médicos apostam na suplementação oral para tratar esses casos. É a melhor saída?
Os suplementos orais, por exemplo, um copo equivale a uma refeição. Essa é uma estratégia de fácil implementação. Os suplementos são específicos para doenças como câncer, diabetes, pacientes idosos e pediátricos. Na Inglaterra, um estudo com milhares de pessoas mostrou que a evolução é melhor quando há a suplementação oral.

Quais são os efeitos da suplementação?
Redução de custos. O paciente fica menos tempo internado, toma menos remédio e demanda menos terapia. Não adianta gastar uma fortuna no tratamento e o paciente não reagir por estar desnutrido.

A suplementação é possível no Sistema Único de Saúde?
A quantidade de gente que precisa é grande, por isso o volume (de dinheiro gasto) é grande. O governo olha o montante e raciocina que é caro, mas essa lógica é inversa. Temos que investir na nutrição.

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