Matéria de Capa

Economia colaborativa chega ao mundo fashion e tem alta em Brasília

Consumismo é coisa do passado. A moda agora é comprar de forma consciente e - por que não? - alugar produtos e serviços. Conheça esse novo modelo de negócio

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 17/12/2017 07:00 / atualizado em 17/12/2017 10:54

Em tempos de crise, o jeito é inovar. O hábito de consumir está presente no dia a dia das pessoas, porém, iniciativas brasilienses têm tentado mudar a forma como elas lidam com os excessos. Empresas da cidade se consolidam com o intuito de tornar a moda mais sustentável, tanto no aspecto econômico quanto no ambiental. Defendem que, se há menos compras, há mais economia e menos poluição. Dessa forma, a onda agora é alugar peças para as produções do dia a dia e, quem sabe, ganhar dinheiro com isso.

Segundo um levantamento da Wrap UK, organização inglesa especializada em pesquisas, só na Inglaterra foi reduzida a emissão de 700 mil toneladas de gás carbônico pelo fato de as pessoas usarem o ferro de passar com menos frequência.

Ainda de acordo com a pesquisa, vestuários que têm a vida útil prolongada freiam a produção e os impactos posteriores, mas apenas se novas compras forem evitadas. Ou seja, somente se a mudança de mentalidade dos consumidores, de fato, acontecer.

Compre e compartilhe

Luis Nova/Esp. CB/D.A Press
 
É nisso que acreditam Rafaela Osório, 26 anos, e Bruna Resende, 22. O lema das jovens é “viva a moda, não a possua”. Com o pensamento de que o consumo consciente pode levar à economia compartilhada, as duas amigas criaram o Shop’n Share — na tradução literal, compre e compartilhe.

Com experiências na área do empreendedorismo júnior, as duas sempre recorriam ao guarda-roupa uma da outra e das amigas na procura de algo para usar em ocasiões especiais. Diante da vontade de criar uma empresa, as sócias se questionaram se isso não poderia virar negócio. “Começamos a pensar que, quando comprávamos uma peça, tínhamos um investimento muito alto para usar uma ou duas vezes. Então, quisemos institucionalizar o closet compartilhado e permitir que outras meninas pudessem fazer o mesmo”, diz Rafaela.

Além da economia, Rafaela e Bruna exaltam o conceito da empresa: viram no Shop’n Share um potencial de impacto no meio ambiente. “Pesquisamos muito antes de lançar a empresa e vimos que o dano que deixamos de causar em termos éticos, sociais e ambientais é absurdo”, afirma Rafaela.

De acordo com o Huffington Post, agregador de blogues americano, 61% dos millennials (integrantes da geração Y, nascidos após a internet) estão preocupados com a situação do mundo e se sentem pessoalmente responsáveis em fazer a diferença. Ao se verem dentro dessa porcentagem, as empresárias apostaram no negócio como uma solução — ou tentativa inicial — de amenizar o consumismo e contribuir com a sustentabilidade.

O processo de funcionamento do SNS ocorre em duas vias: a de quem fornece e a de quem aluga. Rafaela e Bruna explicam que qualquer pessoa pode deixar uma peça que esteja parada no armário — ou que não usa mais — no espaço do Shop’n Share. A roupa passa por uma curadoria, com critérios específicos, em que as meninas dizem se a peça está apta para ir para o site.

Aprovada, ela fica disponibilizada no portal para quem quiser. A partir daí, a dona da peça recebe um relatório mensal, o qual informa quantas vezes a peça dela foi usada, além de um repasse de 40% do valor do aluguel.

A outra via é de quem aluga. “A cliente seleciona a peça que quiser no site e também pode escolher no nosso showroom. Ela fica com a peça por um tempo determinado”, explica Rafaela. A empresária acrescenta que a SNS se encarrega de todos os cuidados com as roupas. “Parte da renda que ganhamos vai para a limpeza, a manutenção e a lavagem de todas as peças. As fornecedoras e as clientes não precisam se preocupar com nada.”
 
Luis Nova/Esp. CB/D.A Press
 

Luxo acessível

A dupla acrescenta que, além da colaboração ambiental e financeira, há o desejo de tornar o luxo acessível. “O Shop’n Share é tanto para quem tem condição de investir em uma peça cara e disponibilizá-la quanto para quem não tem, mas deseja usar a roupa. Desse modo, a gente atinge vários públicos na frente de aluguel, porque torna acessível um produto que antes não era”, diz Bruna.

A advogada Milena Matos, 25, cliente da empresa, comprova que vale a pena adotar a nova forma de consumo. “Eu me considerava uma pessoa muito mais consumista. Depois que tive consciência do quanto poluímos o planeta por roupas novas, que, muitas vezes, nunca são usadas, aderi definitivamente a esse consumo consciente.”.

Milena confessa que comprava uma peça nova a cada ocasião e, agora, sentiu a diferença no bolso. “Já optei por alugar a roupa de réveillon na SNS. Como vou passar a virada na praia, estava em busca de um vestido que fosse arrumado e descolado, mas só achava opções a partir de R$ 500, R$ 600. Com o aluguel, vou gastar menos da metade do que pagaria em algo novo e que depois não usaria com frequência.”

"Vivemos em um modelo de economia em que há um grande desperdício de recursos. Essa é uma forma mais racional e consciente de consumir”
Roberto Piscitelli, professor de finanças públicas da Universidade de Brasília (UnB) 

Estilo renovado

A personal stylist Karol Stahr analisa esse novo mercado como uma oportunidade de inverter o costume das mulheres na hora da compra. “O que eu vejo hoje é que as mulheres tendem a pagar barato em uma calça para trabalhar, mas pagam caríssimo em um vestido de festa com uma estampa específica, que usarão poucas vezes. Nesse sentido, principalmente agora nas festas de fim de ano, é uma forma de consumo excelente.”

Karol também argumenta que a ideia é ótima para quem não abre mão de acompanhar as novidades. “Para quem gosta de tendências, é uma boa pedida. O guarda-roupa estará sempre renovado, e a peça não ficará parada quando sair de moda.”

A consultora de imagem Clariana Gonzaga defende o novo jeito de consumo como uma forma de inovar o estilo. “É uma ideia que pode funcionar muito por trazer sempre novidades diferentes para o visual. Porque sustentabilidade também é isso: usar a roupa que já está aí, que já está pronta”, afirma.

A profissional defende ainda o conceito de acessibilidade a produtos que antes eram inacessíveis. Peças caras agora podem ser alugadas por preços muito menores do que os originais, e o movimento têm inspirado e conquistado as brasilienses. 

SERVIÇO
Site: www.shopnshare.com.br
Telefone: 98313-4341

Um clube fashion

Antonio Cunha/CB/D.A Press
As cunhadas Vanessa Mazoni, 34 anos, e Joana Paniago, 36, viram, no mundo fashion, a possibilidade de inovar. Apaixonadas por moda, elas fundaram o Clube Hype 61 há um ano. A entrada no mercado começou a partir de um e-commerce, no qual vendiam peças de diversas marcas. Contudo, depois de seis meses on-line, sentiram a necessidade de tornar o negócio mais sustentável e que dialogasse com a economia no bolso.

As sócias decidiram arriscar na criação de um modelo de aluguel de roupas para mulheres que quisessem economizar e ter várias opções de vestimenta ao mesmo tempo. No clube de Vanessa e Joana, as clientes pagam uma mensalidade de R$ 199 e recebem um crédito de R$ 1 mil para escolher as roupas na loja, dentro desse limite. “Elas podem ficar com a peça pelo tempo que quiser. A cada 15 dias, recebemos coleções novas, então, sempre temos algo diferente”, explica Vanessa.

Além de alugar, a cliente pode adquirir a peça. Todas as roupas estão disponíveis para a compra e as que já foram alugadas têm desconto. Se a cliente não quiser mais fazer parte do clube, pode pedir o cancelamento sem multa ou regra de permanência.

Caso o aluguel seja a única escolha, o processo de devolução tem apenas uma exigência: entregar a roupa como pegou. “Nossa cliente traz a peça lavada e limpa. Mas ela também tem a opção de pagar uma taxa extra de limpeza, que aí é por nossa conta”, explica a dupla.

Estoque

Apesar de existir a opção de compra, a maioria das clientes prefere mesmo o aluguel. Segundo Vanessa, como o negócio ainda é muito recente, ainda não há excesso de peças em estoque, mas, quando isso ocorrer, elas pretendem promover um grande bazar para vendê-las.

As clientes do Clube Hype 61 são mulheres de 30 a 45 anos, que, na maioria, visitam a loja todos os dias. Anna Paula Jardim, 42, é uma delas. A bancária conheceu o clube pela internet e logo se interessou. “Na semana seguinte, fui à loja. Tive curiosidade em saber como funcionava e me via em um momento em que precisava mudar minha forma de consumir”, relata.

Ela conta que se considerava consumista a ponto de comprar uma peça a cada evento e gastar muito em roupas novas. Agora, a economia é notória. “Gastava cerca de R$ 1.500 por mês em roupas. Hoje, pago R$ 199 no pacote e ainda tenho inúmeras opções.”

As cunhadas confessam que, depois da imersão no modelo de negócio, elas também mudaram a própria forma de consumo. “Nunca pertencemos ao perfil de consumistas, mas, com certeza, nossa forma de consumir mudou. Usamos roupas da loja diariamente, não só porque é mais prático, mas porque buscamos dar o exemplo”, diz Vanessa.

SERVIÇO
Endereço: 705/905 Sul, Edifício Santa Cruz, Sala 538
Telefone: 3386-8576

Alerta fashion

100 bilhões de roupas são produzidas anualmente.
Para produzir 1kg de tecido, são gerados 23kg de gases causadores do efeito estufa para a atmosfera.
77% é quanto a emissão de gás carbônico aumentará até 2025, se o consumo da moda continuar crescendo na taxa anual.
30% das nossas roupas ficam inutilizadas e paradas no armário no período de um ano.
Estender a vida útil das nossas roupas em até três meses pode gerar uma redução na emissão de gás carbônico e no consumo de água em até 10%.

Fontes: Wrap UK e The Business of Fashion and McKinsey & Company.

Objeto de desejo compartilhado

Carlos Vieira/CB/D.A Press
Sabendo do valor elevado e, muitas vezes, surreal das bolsas de grife, Fernanda Leão, 31 anos, sempre manteve o hábito de trocar o acessório com as amigas. Observando o troca-troca, ela teve a ideia de trazer para Brasília um modelo de negócio já existente em São Paulo e no Rio de Janeiro: o aluguel de bolsas de luxo.

A ideia surgiu em maio deste ano, mas a Deux Bags começou a operar apenas em setembro. A amiga Renata Ribeiro, 32, sempre participou dos empréstimos informais, logo, foi convidada para integrar esse projeto de empresa inovador.

No começo, elas tiveram medo de investir em um mercado tido como supérfluo, mas Renata aponta esse modelo de negócio como uma maneira de evitar desperdício e decepção ao adquirir um item caro.

“Às vezes, você se apaixona por uma bolsa, junta o dinheiro e compra. Após uma semana, percebe que ela não é exatamente o que você queria, pelo peso, tamanho… Daí, o investimento está perdido”, exemplifica Renata. Além de uma forma de aumentar a rotatividade do guarda-roupa gastando menos, ela enxerga no negócio o potencial para ajudar antes de comprar o acessório, como uma espécie de test drive.

Fernanda acredita que o ato de alugar as peças sacia o desejo de adquirir um modelo específico de bolsa. Para ela, a locação é uma forma de desapego. “Temos bolsas aqui que já foram desejo e hoje estão obsoletas. As pessoas sempre querem o lançamento, e é impossível acompanhar”, afirma. Um exemplo são as bolsas do modelo saco, que já foram completamente desprezadas e agora são tendência. O valor delas triplicou nos últimos anos.

Sem falsificações

No site da marca, existem quatro categorias de bolsas, cada uma com uma faixa de preço. O menor valor é R$ 150 por três dias de aluguel. As empresárias contam que o processo de precificação foi difícil, pois não se trata de produtos baratos.

A resposta que tiveram foi positiva e elas acabaram surpreendidas pelo público atingido. “Imaginávamos que seriam clientes que não podiam adquirir as peças, mas, até o momento, as pessoas que estão alugando têm total condição de comprar as bolsas. É realmente uma opção pela locação”, destaca Fernanda.

O acervo da empresa conta com 100 bolsas, algumas pertencentes a Fernanda e Renata. Outras consignadas por amigas que demonstraram interesse em compartilhar e impulsionar a renda com o valor dos aluguéis. “Infelizmente, só podemos aceitar bolsas de pessoas conhecidas para garantir que estamos alugando itens autênticos às nossas clientes”, lamenta Renata. A preocupação delas é com o mercado de réplicas, que, apesar de estar cada dia mais especializado, ainda tem uma qualidade inferior.

Fernanda e Renata já fazem planos para os próximos meses . Elas pretendem lançar também a modalidade de assinatura, o Deux Club, na qual a cliente se associa, paga um valor fixo por mês e tem direito a duas bolsas e uma clutch. “As pessoas estão mais conscientes do valor do dinheiro, em função de tudo que temos vivido. Elas botaram a mão na consciência”, destacam as empresárias. 

SERVIÇO
Site: www.deuxbags.com.br
Telefone: 99521-1642
  
 
 
 
*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte 
Tags: moda fashion
Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.