Saúde

Exames de vista com optometrista não verificam a saúde ocular

Cuidados para enxergar bem começam com a escolha do profissional capacitado para tratar do sistema ocular. Confundir o trabalho do oftalmologista com o do optometrista pode custar caro

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postado em 24/12/2017 07:00 / atualizado em 28/12/2017 19:46

Você sabe qual é a diferença entre optometria e oftalmologia? Muitas pessoas, por não saberem que são duas profissões distintas, acabam acreditando que realizaram um exame completo ao procurar um optometrista, mas, na verdade, não tiveram o globo ocular analisado, tarefa que cabe ao médico oftalmologista. 

Por não ser uma especialidade da medicina, como a oftalmologia, que trata de todas as doenças do sistema visual, a consulta realizada com o optometrista é mais barata.

O desconhecimento sobre essa diferença pode ter um preço alto, explica Andréa de Moura Gomes, oftalmologista do Hospital de Olhos Santa Lúcia. “Inúmeras vezes atendi pacientes com doenças oculares não vistas no exame com optometrista, principalmente em áreas mais carentes, onde as pessoas vão seduzidas pela questão do custo.” Atuando em óticas, esses profissionais prescrevem receitas de óculos em um exame que mede só a acuidade visual.

As doenças do sistema ocular, somente o oftalmologista está capacitado para diagnosticar, avaliar e cuidar. A lista é extensa e inclui seis patologias que podem levar à cegueira. “Muitas vezes, a gente diagnostica doenças graves, como câncer, com um exame da saúde do olho. O optometrista não tem nem equipamento nem conhecimento para fazer esse tipo de diagnóstico”, explica a médica.

Cegueira

Andréa Gomes alerta que a importância de visitar periodicamente um oftalmologista também se deve ao fato de que existe uma vasta lista de patologias oculares que não apresentam sintomas evidentes. É o caso do glaucoma: a principal causa de cegueira irreversível no mundo é silenciosa.

Como muitos pacientes só procuram atendimento quando sentem dificuldades de enxergar, doenças como a catarata e o glaucoma — não identificadas no exame de optometria — aumentam os números da cegueira no Brasil. 
 

Dados preocupantes

Como muitos pacientes só procuram atendimento quando sentem dificuldades em enxergar, doenças como a catarata e o glaucoma - não identificadas no exame de optometria - aumentam os números da cegueira no Brasil. Em levantamento do IBGE de 2010, 528.624 pessoas declararam que são incapazes de enxergar, enquanto 6,5 milhões de brasileiros relataram ter alguma deficiência visual. Segundo a Sociedade Brasileira de Glaucoma (SBG), 70% das pessoas com glaucoma no país sequer sabem que possuem essa patologia. 
 
Reprodução
 
 
Algumas patologias oculares que não podem ser examinadas pelo optometrista:
Catarata, glaucoma, Degeneração Macular Relacionada à Idade, uveíte, ceratocone, daltonismo, toxoplasmose, pterígio, pinguécula, hordéolo, calázio, tumores oculares, episclerite, esclerite, neurite óptica, descolamento da retina, distrofias corneanas, queratites, traumatismo ocular, retinopatia hipertensiva, retinopatia diabética, oclusões vasculares retinianas. 
 
 

Palavra do especialista

Drº Mauro Nishi é Diretor Médico do Centro Brasileiro da Visão e doutor pela Universidade de Tóquio

1. Um exame de vista completo, com um oftalmologista, examina quais aspectos oculares?
Um exame oftalmológico básico definido pela Classificação Brasileira Hierarquizada de Procedimentos Médicos (CBHPM) inclui: anamnese, refração, inspeção das pupilas, acuidade visual, retinoscopia, ceratometria, fundoscopia, biomicroscopia do segmento anterior, exame da motilidade ocular e do senso cromático, junto com tonometria. Dependendo da suspeita diagnóstica ou controle de doença ocular, dezenas de outros exames oftalmológicos estão disponíveis, mencionando apenas alguns bastante utilizados: campimetria computadorizada, ultrassonografia biomicroscópica, angiofluoresceinografia, avaliação de vias lacrimais, exoftalmometria, ceratoscopia computadorizada, gonioscopia, mapeamento da retina, microscopia especular da córnea, potencial de acuidade visual, retinografia, teste de sensibilidade ao contraste, biometria por interferometria, paquimetria ultrassônica, tomografia de coerência óptica, perimetria de dupla frequência, perimetria de hiperacuidade preferencial, tomografia corneana, aberrometria, OCT-angiography, photoscreener, eletro-oculografia, eletro-retinografia, potencial visual evocado, etc.

2. Quais possíveis doenças oculares podem não ser identificadas em uma consulta com um optometrista, mas certamente seriam vistas em um exame oftalmológico?
Muitas doenças são silenciosas e quando se manifesta com baixa de visão já não são reversíveis. Dentre as centenas de patologias oculares detectáveis pelo exame oftalmológico podemos destacar pela sua frequência o Glaucoma, a Retinopatia Diabética e a Degeneração Macular relacionada à idade. Estas patologias são as principais causas de cegueira irreversível em nosso meio, devendo haver prevenção mesmo quando a visão ainda se encontra normal. O médico oftalmologista cuja formação engloba um mínimo de 6 anos de faculdade de medicina e pelo menos 3 anos de residência médica para a especialização em Oftalmologia é o profissional capacitado para acompanhar a complexidade que envolve os problemas oculares e visuais. 
 
3. Com que frequência as pessoas em geral devem consultar um oftalmologista para averiguar o globo ocular?
Qualquer indivíduo  que  tiver  sintomas  oculares  requer  exame  oftalmológico  prontamente.  Os indivíduos que não têm sintomas, mas que tem alto risco de desenvolver alterações oculares relacionadas com doenças sistêmicas - como diabetes mellitus e hipertensão - ou que têm uma história familiar de doença  ocular, necessitam  de exame  oftalmológico  completo  periódico  para evitar ou minimizar futuras perdas visuais. A frequência dos exames depende da idade do indivíduo, algumas condições específicas, e a probabilidade de se encontrar anormalidades no exame ocular. Adultos que não têm sintomas, e que não se encontram em um grupo de alto risco, devem se  submeter a um exame oftalmológico completo inicial, e seguir  um cronograma  de avaliação periódica projetado para prevenir as doenças oculares prevalentes epidemiologicamente. O envolvimento do oftalmologista no desenvolvimento normal da visão começa logo ao nascimento, com a realização do teste do reflexo vermelho, também conhecido como “teste do olhinho”. Certas doenças oculares infecciosas, congênitas e hereditárias podem manifestar-se no nascimento. Muitas crianças diagnosticadas com o déficit de atenção ou hiperatividade sofrem, na verdade, de algum tipo de problema oftalmológico; sem o diagnóstico de que sofre de problemas de visão, a criança tem seu desenvolvimento neuropsicossocial prejudicado. Para cada faixa etária, várias doenças oculares são prevalentes e devem ser prevenidas. O exame médico oftalmológico periódico permite identificar, tratar e acompanhar doenças oculares, como a catarata, o glaucoma, degenerações e alterações oculares, contribuindo para a manutenção da boa visão pelo restante da vida.

 
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