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Estado de Minas CAPA

Aceitação de cicatrizes, manchas e marcas no corpo vira lição de autoestima

Em uma sociedade em que a estética costuma falar mais alto, há quem não só aceite as "imperfeições" do corpo como as use para aumentar o amor próprio


postado em 21/01/2018 07:00 / atualizado em 18/01/2018 14:04

Os anúncios prometem milagres. Dicas para eliminar sardas e pintas do rosto; tratamentos de última geração para sumir com manchas e cicatrizes que, muitas vezes, não vieram com o nascimento. Parar de correr atrás dessa ou outra receita e aceitar mudanças comprometedoras à estética não é fácil.

Nessa caminhada de autocompreensão, vale um pouco de tudo: buscar no baú de memórias familiares as ligações genéticas, achar personalidades midiáticas nas quais se reconheça. Terapia e um “tô nem aí” em alto e bom tom também ajudam. E até quem nunca viu problema na diferença concorda: é preciso — e saudável — se amar.

Luísa Miranda sempre aceitou o vitiligo de forma mais natural que a família:
Luísa Miranda sempre aceitou o vitiligo de forma mais natural que a família: "Sou feliz e penso que o primeiro passo é realmente se aceitar" (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Hoje, o reflexo no espelho não incomoda Luísa Maia de Miranda, 21 anos. No fundo, no fundo, nunca foi algo muito complicado. Pelo menos para ela. Amigos, colegas de escola, familiares e o pai, principalmente o pai, sempre se incomodaram mais.

“Isso fez com que a fase da adolescência fosse a mais difícil. As pessoas perguntavam. Eu tinha que repetir o tempo todo e o meu pai era o mais preocupado com isso. Dizia que eu era muito bonita para ter essas manchas e que precisava me tratar. Mas nunca me fez bem ficar fazendo isso. Era mais para não contrariá-lo”, lembra a jovem, diagnosticada com vitiligo aos 4 anos.

A descoberta foi durante uma viagem de férias com os pais para Fortaleza. Luísa se divertia na piscina e, entre um mergulho e outro, uma manchinha sobressaltou aos olhos da mãe. Era na região dos olhos. Lá mesmo, na capital cearense, os pais de Luísa procuraram um especialista. Nos anos seguintes, viriam os tratamentos com as pomadas, inclusive caseiras, à base de chá de mama-cadela — planta medicinal típica do cerrado — e os remédios líquidos ou em forma de comprimidos, alguns vindos até de Cuba.

Entre a primeira mancha e as outras espalhadas pelo corpo de Luísa, vieram a doença e a morte das avós materna e paterna, com as quais Luísa era muito apegada, e o tratamento do pai, acometido por um câncer, que também faleceu.

“Eu não tinha esse tanto de mancha. Algumas já foram maiores, outras menores. Descobri que é genético, mas que o emocional é um gatilho. O fato é que não afeta minha autoestima. Eu me vejo como uma pessoa normal. Não tampo com maquiagem, não uso mais nada. Eu me arrumo para sair sem problema. Sou feliz e penso que o primeiro passo é realmente se aceitar”, aconselha Luísa.

O poder emocional

Nos consultórios, os episódios de choro no momento do anúncio do diagnóstico são frequentes, afirma Caio Castro, médico dermatologista da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD). O vitiligo é uma enfermidade da pele caracterizada pela perda da coloração, pela morte das células responsáveis pela pigmentação.

As causas ainda não estão claramente estabelecidas entre os especialistas, mas diversos fenômenos autoimunes estão associados à doença. Além disso, alterações ou traumas emocionais podem estar entre os fatores que desencadeiam ou agravam o vitiligo, enfermidade que acomete aproximadamente 0,5% da população mundial.

“Aceitar é um fator positivo. É menos pior para o paciente. Mas é difícil, pois se trata de uma enfermidade desfigurante. Muitos choram na hora do diagnóstico. Seja de alegria por não ter, seja de tristeza por ter descoberto. Ainda mais em um país como o nosso, muito fitness, com praia e que cultua a beleza. Com certeza, a aceitação é legal nesse processo”, avalia o médico.

Palavra do especialista

O que é vitiligo?
O vitiligo é uma doença de pele crônica adquirida, que se caracteriza pelo surgimento de manchas brancas na pele e tem evolução imprevisível. Estima-se que ocorra em aproximadamente 0,5% a 1% da população mundial e, como toda doença rara, é frequentemente estigmatizante. Recomenda-se um acompanhamento dermatológico rotineiro, pois pode estar associada a outras patologias (como doenças de tireoide e outras enfermidades autoimunes), por conta de as áreas de pele afetadas ficarem mais sensíveis aos efeitos danosos do sol e de outros agressores. Dessa forma, é importante o tratamento individualizado e proteção solar adequada.
Samara Kouzak é especialista em dermatologia pela Sociedade Brasileira de Dermatologia

Ferida cicatrizada

"A aceitação veio com o tempo, quando eu comecei a mudar meu olhar e agradecer por estar com a perna, que eu poderia ter ficado sem". Hélida Suellen, estudante e atendente (foto: Wallace Martins/Esp. CB/D.A Press)
 
Segundos separaram a juventude de Hélida Suellen em duas: a de antes e a de depois de um acidente de carro. Apesar das sete cirurgias, dos anos sem andar e da possibilidade de ter a perna amputada, a vida depois do ocorrido tem a beleza do recomeço e da superação, simbolizados na cicatriz que ela carrega.

Quando o motorista do veículo em que ela estava perdeu o controle e acabou batendo e derrubando um poste, a atendente teve uma fratura exposta — história que conta quase diariamente a quem vê a perna diferente. No começo, ela só imaginava como a perna poderia ficar, porque as imobilizações não deixavam saber a aparência da fratura depois do acidente.

“Quando vi, não foi fácil. É estranho quando você nasce com uma parte do corpo de um jeito e, depois, já não é mais assim”, lembra. Além de tudo, ter 20 anos — idade dela tinha na data do acidente — já é carregar várias incertezas sobre a própria aparência física. Para Hélida, porém, em vez de reduzir a autoestima, aquela experiência serviu para acelerar a maturidade: “A aceitação veio com o tempo, quando eu comecei a mudar meu olhar e agradecer por estar com a perna, que eu poderia ter ficado sem”, conta.

Depois das cirurgias, Hélida passou três anos e meio andando de cadeira de rodas, mas a limitação maior vinha dos julgamentos e comentários de quem — diferentemente dela — não sabia lidar com a marca do acidente.

“Há uma história e uma superação, ou um processo disso, acontecendo naquele momento. Então, olhares de ‘coitada’, de espanto ou curiosidade podem até ser normais em um primeiro instante, mas, depois, deviam dar lugar a um olhar de coragem e força. Assim, quem os recebe entende que não precisa se esconder, que pode ter uma vida normal e se alegrar por tudo que já passou.”

Hoje, até existe a opção de a jovem fazer uma cirurgia plástica para amenizar as mudanças físicas da perna, mas ela não se anima muito com a ideia: “Se pudesse melhorar a qualidade de vida eu faria, mas, como é só a parte estética, eu não tenho vontade”, diz.

Acompanhada de muletas quando precisa andar muito, Hélida deixou para trás a cadeira de rodas e as inseguranças que apareceram quando ela viu suas marcas pela primeira vez, ensinando que isso tudo já cicatrizou. “A partir do momento que uma ferida cicatriza, a gente pode recomeçar. Então, é como se todos os dias eu recomeçasse”, conclui.

Caminho para o amor-próprio

1 – Pare de se comparar
Comparar seu potencial consigo mesma pode ser mais produtivo do que a comparação com outras pessoas.

2 – Pare de dar ouvidos à opinião dos outros
As opiniões alheias, mesmo as das pessoas que você mais respeita, podem ser subjetivas. Não mude a essência para agradar a alguém. Cada vez que se isola para agradar a outra pessoa, você satisfaz os interesses dela. Os seus, porém, ficam de lado. Acredito que a melhor parte da história da humanidade foi escrita por pessoas que tiveram coragem de confrontar opiniões.

3 – Troque o vitimismo pela responsabilidade
Temos plena consciência de que somos os principais responsáveis pelas coisas que acontecem em nossas vidas e pelas escolhas que fazemos. É isso que molda quem somos e quem podemos ser.

4 – Pratique o autoconhecimento
Conhecer-se é o primeiro passo para tomar consciência das atitudes destrutivas que temos e, a partir daí, mudá-las. O autoconhecimento pode apresentar imperfeições que você não identificaria sem esse processo. Isso ainda proporcionaria condições melhores de estabelecer uma autoestima saudável.

5 – Mantenha atitude positiva em relação a si
A única maneira de mudarmos a percepção que temos de nós mesmos é mudando a forma como fazemos a nossa autocrítica. Isso só nós podemos fazer. Procure prestar atenção nas pequenas atitudes destrutivas e enfrente-as com palavras de amor-próprio. Lembre-se de que você é perfeita ou perfeito por meio da sua imperfeição.

Fonte: Cintia Milanese, psicóloga e empreendedora digital
 

Beleza única

(foto: Reprodução/@marianamendes.m/Instagram)
(foto: Reprodução/@marianamendes.m/Instagram)
 

Foi buscando um novo encanto que as agências de modelo se derreteram por Mariana Mendes. A brasileira de 24 anos nasceu com uma mancha preta no rosto, mas o que poderia ser motivo de vergonha se transformou em um de seus maiores orgulhos. A partir dessa marca, sua beleza se tornou única e conquistou milhares de seguidores no Instagram, como as fãs que encheram sua caixa de mensagens com manifestações de agradecimento por ela representar tantas pessoas marcadas por pintas e outras características físicas.
 

Maior do que a grande marca 

A infância geralmente nos dá muitas marcas: arranhões de quedas, pontos de uma testa aberta depois de uma pancada ou os pontinhos da catapora. Mas para Eduarda (nome fictício), 23, essa época foi marcada por algo bem maior: uma cicatriz de queimadura aos 11 anos. Uma brincadeira com os amigos resultou na característica física que ela carrega até hoje: “A gente estava brincando com fogo e álcool, e um menino foi alimentar o fogo, mas acabou jogando o álcool na minha direção. A chama pegou no rosto, pescoço e meu braço direito todo”, recorda-se.

As maiores dificuldades de lidar com isso começaram cedo, quando os colegas de escola faziam bullying com a garota sem se colocar na pele dela: “O pessoal passava por mim fazendo trocadilhos, cantando o hino do Botafogo…”, lembra. Mas Eduarda passou com força por esses momentos, depois de várias autorreflexões em frente ao espelho, pensando sobre sua marca e sobre si mesma.

Hoje, a jovem já não encara os mesmos preconceitos da infância, mas ainda tem que conviver com algumas rotinas por medo de julgamentos, como usar roupas de mangas compridas em entrevistas de emprego. Sua maior preocupação, porém, é que as pessoas só a enxerguem a partir da cicatriz, ignorando a pessoa Eduarda, com uma história bem maior do que aquela de quando tinha 11 anos. “As marcas não definem a gente. Nós tínhamos que ser reconhecidos pelo que somos, não pela aparência.”

Pintas para elevar a autoestima 

Durante algum tempo, as sardas foram um problema para Giullianna de Carvalho: fortalecendo-se de dentro para fora(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
Durante algum tempo, as sardas foram um problema para Giullianna de Carvalho: fortalecendo-se de dentro para fora (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
 
O que alguns veem como um charme a mais foi usado como meio de chacota contra a advogada e assistente administrativa Giullianna Rosa Ottoni de Carvalho, durante a adolescência. “Era bem aquela época de começar a se apaixonar e tinha um menino de quem eu gostava. Ele virou e falou que nunca ficaria com a ‘chamuscada’, porque não gostava daquela pele. Cheguei em casa arrasada, pensando que, se eu não tivesse aquelas sardas, ele ficaria comigo”, lembra Giullianna, hoje com 28 anos.

De lá para cá, muita coisa mudou. Fortalecendo-se de dentro para fora, a jovem começou a se proteger dos diversos apelidos: moranguinho, grampola, chapiscada. Aceitar-se foi a grande arma. “Eu sempre olhava para a minha família, que é pintada, para a minha mãe, que é pintada. As pessoas começaram a me perguntar se eu queria clarear, fazer tratamento, mas eu dizia que não. Gosto muito das minhas sardas e elas e não me atingem mais. Quando alguém fala alguma coisa, eu brigo, retruco”, comenta.

Estudos mostram que aparição das sardas têm relação com tendência familiar. Giullianna, por exemplo, nasceu sem pinta alguma. As efélides, popularmente chamadas de sardas, causadas pelo aumento da melanina na pele, começaram a aparecer aos 7 anos. Surgiram mais e hoje colorem o rosto da jovem.

A autoestima cresceu junto com as pintas e serve de ajuda para quem ainda não aceitou as marcas na pele. “Minha sobrinha não tinha pintas e, na mesma idade que eu, começou a desenvolver. Ela se achava horrível, os meninos ficavam pegando no pé dela. Então, comecei a conversar com ela. Perguntei se ela me achava bonita. Ela disse que me achava linda. Eu mostrei as pintas, fiz ela vê-las de outra forma e ela saiu feliz, achando-se linda também”, recorda a advogada.

Lidando com o diferente 

Não é fácil aceitar características físicas no próprio corpo que sejam diferente daquelas vistas em outras pessoas, principalmente em uma sociedade que passou — e ainda passa — tanto tempo presa a padrões. Para a psicóloga Thais Polonio, libertar-se desses moldes é essencial. “Quando a gente fala sobre esse tipo de marcas adquiridas depois de uma imagem estabelecida de si próprio, nós falamos de duas coisas: o padrão criado e as dificuldades de quem está preocupado por não estar dentro deles”, afirma.

Mas Thais acredita que essa dificuldade em lidar com o diferente está mudando ao longo do tempo, mesmo que a passos curtos. Essa transformação gradual está presente, por exemplo, em ações como a conscientização escolar para que crianças aprendam a aceitar o incomum como normal, o que cria um cenário novo. “Hoje em dia, existe um movimento mundial de abertura. Nós vemos muitas pessoas se abrindo mais para contar seus problemas, como depressão e pânico, e da mesma forma acontece com as imperfeições físicas.”

Não ser rígido consigo mesmo e aceitar transformações é uma das dicas da psicóloga, que completa: “Infelizmente, da maneira que somos criados, temos tendência a nos enxergar inteiramente manchados por causa de uma manchinha. Mas a aceitação vai depender muito do estado emocional da pessoa. Aqueles que têm uma boa estrutura conseguem lidar bem com mudanças e criar alternativas emocionais para as questões que aparecem. Eles vão lidar bem com isso”, diz a psicóloga.

Inspirações

(foto: GETTY IMAGES)
(foto: GETTY IMAGES)
 
A canadense Winnie Harlow superou mais do que o preconceito social. Ultrapassou as ditaduras da moda e se tornou uma referência, principalmente, pelas marcas do vitiligo. Modelo, já desfilou para grandes marcas, como a Diesel. Ela não nega que já sofreu. Por muito tempo, foi chamada de zebra, vaca, mas a aceitação a fez vencer as críticas e valorizar a diferença. Aceitação e positividade é com ela mesma. Tanto que virou uma das maiores inspirações para quem também tem a enfermidade.

“As pessoas têm a pele negra, as pessoas têm a pele marrom, eu tenho ambas. Eu me amava. E, com isso, as oportunidades começaram a cair no meu colo. E agradeço a Deus por todas elas. Experimente amar a si mesmo.”

(foto: Reprodução)
(foto: Reprodução)
 
Quem segue Cassandra Naud no Instagram sabe. Ela adora tirar fotos. Mostrar sua beleza e, junto, sua marca de nascença. Uma mancha escura, logo abaixo do olho direito, que cobre quase toda a bochecha. Um contraste significativo ao tom de pele claro da jovem dançarina canadense, motivo pelo qual Cassandra sofreu bullying durante boa parte da infância e da adolescência. Na escola, o grande sonho era fazer uma cirurgia para remover. Hoje, aprendeu a conviver com a marca.

“Minha marca de nascença é uma grande parte de mim. Ela me torna única e memorável, o que é especialmente importante para a carreira que escolhi.”
 
 
 
*Estagiário sob supervisão de Sibele Negromonte 

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