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Estado de Minas SAúDE

Avanços da tecnologia amenizam tratamentos de pacientes renais

Mas, se a doença é crônica, só o transplante devolve a qualidade de vida. Sintomas silenciosos exigem prevenção redobrada


postado em 21/01/2018 07:00

Ela surge discretamente, com pouco ou nenhum sintoma, e boa parte dos pacientes só descobre ser portador de uma doença renal quando o problema já está em estágio avançado, e pouco se pode fazer para salvar a função do órgão. Um em cada dez brasileiros, de acordo com a Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN), sofre de algum mal nos rins, como cálculos renais, infecções ou pielonefrite, cistos, tumores, e perda da função renal ou doença renal crônica, mais conhecida como insuficiência renal.

Dados da SBN mostram que, a cada ano, cerca de 21 mil brasileiros precisam iniciar tratamento por hemodiálise ou diálise peritoneal. Na maioria das vezes, para o resto da vida, se não houver possibilidade de um transplante renal. Raros são os que conseguem ter pelo menos uma parte dos rins recuperada para deixar de depender de diálise, e poucos têm a sorte de receber um transplante renal. Em 2012, foram 5.402 brasileiros .

O rim, normalmente, é duro na queda e resiste até os últimos momentos, explica o médico nefrologista Istênio Pascoal. “Somente quando ele perde 90% ou mais de sua função, caracterizando a insuficiência renal, é que o paciente precisa ser submetido à hemodiálise ou ao transplante renal.” 

“O diabetes é uma das maiores causas. A doença tem atingido proporções alarmantes, em virtude do aumento paralelo da obesidade e do envelhecimento populacional”, diz Pascoal. A hipertensão arterial é outra grande causadora de insuficiência renal. Monitorar a pressão arterial é um aspecto importante da preservação dos rins. “Doenças  do rim,  as nefrites, e doenças genéticas, como a renal policística, também são causas comuns da perda da função dos rins e merecem uma atenção especial.”

Lutando por dois

Na fila do transplante, Débora (com Maria) faz sessões diárias de hemodiálise:
Na fila do transplante, Débora (com Maria) faz sessões diárias de hemodiálise: "É uma nova etapa, cheia de esperança" (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
 
“É uma viagem de fragilidade e autoconhecimento, na qual se revela uma força e compreensão da vida, o que não deixa de ser um presente.” É assim que a jornalista Débora Santos, 36 anos, define sua caminhada sem o funcionamento dos rins. Foi em 2015, devido a uma doença rara que afeta a camada interna dos vasos sanguíneos — a Síndrome Hemolítico Urêmica Atípica — que Débora teve uma crise de insuficiência renal aguda.

Nos primeiros sinais de insuficiência renal, Débora foi encaminhada ao hospital, mas, com a rápida evolução do quadro, o problema se tornou crônico e já não era mais possível revertê-lo. A hemodiálise diária para suprir a função dos rins entrou, então, na sua rotina.

“Meus rins não funcionam e vivo com um cateter no peito para poder passar pela hemodiálise.” O tubo passa por cima da clavícula e segue até o coração. “Por causa dele não posso nadar, não posso molhá-lo e tenho que ter muito cuidado com qualquer impacto. Esportes de risco, como lutas, estão fora de questão”, conta. 

Submetida à hemodiálise diária, ela ressalta os benefícios — com  o tratamento por duas horas, todos os dias, o cansaço é quase inexistente. “No método antigo, três vezes por semana, é como se tivéssemos corrido durante as quatro horas da sessão. O cansaço impossibilita a chance de trabalhar em seguida, por exemplo.” 

Máquinas mais modernas tornaram o procedimento mais seguro e eficaz, explica a médica nefrologista Isabela Medeiros. A tecnologia possibilita o surgimento de várias modalidades terapêuticas. “Isso permite individualizar o tratamento, de acordo com as necessidades do paciente.” Uma das mais recentes formas de tratamento é a hemodiafiltração, em que o sangue passa por um filtro maior, que capta mais toxinas.

“Isso acontece porque o tipo de filtro e a pressão exercida durante a filtração arrastam moléculas maiores para fora do sangue, deixando o tratamento ainda mais eficiente”, detalha Isabela. Entre os resultados estão menores índices de inflamação, desnutrição e anemia, além de impacto positivo na qualidade de vida dos pacientes que recebem esse tratamento. Como aconteceu com Débora, que, dois meses após a crise renal, voltou a trabalhar. “Eu sabia que não era uma situação simples, estava lutando pela minha vida. Mas não me deixei abalar”, diz ela.

A novidade que mudaria sua vida para sempre veio em 2016, com uma gravidez inesperada. As múltiplas alterações hormonais nas mulheres e nos homens com doença renal crônica resultam em uma redução da fertilidade. Na mulher, pode ocorrer irregularidade dos ciclos menstruais e até ausência de ovulação. Débora começou a sentir fortes dores abdominais e febre, até que uma leva de exames apontou a gravidez. “Foi uma surpresa para mim e para os médicos. Eles me alertavam para não criar expectativas, pois as chances de dar certo eram pequenas e os riscos para o bebê e para mim  eram grandes.”

Foram necessários cuidados para evitar a anemia e também dedicar mais tempo à hemodiálise. A gestação seguiu tranquila nos cinco primeiros meses, até surgirem os sinais de pré-eclâmpsia, doença hipertensiva específica da gravidez. “Decidi que me agarraria à ideia de que tudo daria certo e montei o quarto e o enxoval da minha filha. Os médicos ainda pediram para eu não me encher de expectativa, mas segui firme”, diz Débora.

Aos 7 meses de gestação, ela deu à luz Maria, que pesava apenas 700g e precisou ficar internada por dois meses. “Ela é um milagre em nossas vidas, por isso seu nome”, emociona-se. “As coisas mudam quando temos filhos. Essa é uma nova etapa cheia de esperança”, diz a jornalista, que se prepara para o transplante renal. “Estou passando por testes de compatibilidade com meu padrasto e os resultados têm sido bons.”

Esperança de ser feliz

"Sou uma pessoa muito feliz e, graças ao meu novo rim, posso fazer de tudo." Leonardo Mota, depois de enfrentar três anos de hemodiálise e um transplante (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
 
O apoio de familiares e amigos dá força aos pacientes renais. “A sensação de não estar sozinho, de sentir-se apoiado por pessoas que fazem parte de seu dia a dia é muito importante no tratamento ”, esclarece a psicóloga Leslie Figueiredo, do Instituto de Nefrologia Ineb. O acompanhamento por uma equipe multidisciplinar também gera vínculo e confiança na equipe. “O preparo emocional para receber um órgão doado possibilita mudanças de comportamento e reforça crenças positivas na manutenção da vida”, explica a psicóloga.

Quem o vê aos 74 anos, cheio de vida, não imagina que o assessor de comunicação Leonardo Mota sofria de  perda progressiva e irreversível das funções renais. Há quatro anos, quando renovou o exame médico ocupacional, ele descobriu uma grande elevação na pressão arterial. “Pediram  outros exames, que logo apontaram um pré-estágio da doença renal crônica, e não era possível ser revertido.”

No primeiro instante, o choque. “Estamos acostumados a ver esse tipo de coisa acontecendo com os outros, nunca com a gente. Mas decidi que queria encarar essa nova fase como uma experiência diferente na minha vida”, conta Leonardo, que enfrentou três anos de hemodiálise. “Quando cheguei à clínica pela primeira vez, eu me deparei com muitos colegas pessimistas e sem esperança de viverem uma vida longa e feliz. Resolvi, então, criar um blog para escrever sobre minhas experiências como paciente da hemodiálise e tentar trazer ao menos um pouco de esperança e alegria a eles”, conta.

Depois de três anos na fila de espera pelo transplante renal, a vez de Leonardo chegou. “Tem pacientes que esperam uma eternidade. Infelizmente, temos um deficit grande de doadores e, por todo o processo que vivi, não posso deixar de me considerar extremamente sortudo”, comenta.  Hoje, ele vive normalmente, livre da hemodiálise. “Ao meu lado, só carrego os medicamentos que impedem a rejeição. Afirmo que sou uma pessoa muito feliz e, graças ao meu novo rim, posso fazer de tudo.”

Como controlar

A melhor maneira de identificar precocemente a doença renal é através de exames de sangue e urina. A dosagem da creatinina sanguínea permite calcular a taxa de filtração sanguínea dos rins. O exame simples de urina — o Urina 1 ou EAS — pode identificar a presença de sangue, proteínas, glicose ou outras substâncias que apontam para uma possível doença renal.

Fique atento

As doenças renais podem se manifestar de maneiras diferentes. Por isso, preste atenção a alguns sinais, como:
Pressão alta
Inchaço ao redor dos olhos e nas pernas
Fraqueza constante
Náuseas e vômitos frequentes
Dificuldade de urinar, queimação ou dor quando urina
Urinar muitas vezes, principalmente à noite
Urina com aspecto sanguinolento ou com muita espuma
Dor lombar
Histórico de pedras nos rins

Sangue bombeado

A hemodiálise é feita com uma máquina que bombeia o sangue do paciente para um dialisador e, depois de filtrá-lo, o manda de volta para o corpo.
Outro tipo de tratamento é a diálise peritonial, feita com a infusão de um fluído especial de diálise no abdômen do paciente. Depois de algumas horas, o fluido é drenado para fora e, em seguida, o processo se repete. As substâncias tóxicas e o líquido em excesso no organismo passam das membranas do abdômen para o fluído e são removidas na drenagem.
Os efeitos colaterais mais comuns são relacionados a problemas com a remoção dos fluídos. Alguns pacientes podem experimentar quedas de pressão arterial, ou se sentirem abatidos e cansados.
Os dois tipos de diálise são eficazes. Pacientes que morreriam de insuficiência renal sem o tratamento podem continuar vivendo de forma produtiva. A diálise não cura a doença do rim, mas funciona como uma substituta para a função normal do órgão.

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