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Estado de Minas CAPA

Com o cofrinho cheio, crianças sabem o valor do dinheiro desde cedo

Pesquisa mostra que a maioria dos adultos aprendem lições de educação financeira com os filhos. Conheça a história de crianças que, desde cedo, descobrem o valor do dinheiro e a importância do gasto consciente


postado em 28/01/2018 07:00 / atualizado em 26/01/2018 14:55

Início de ano. Com ele, novos objetivos, sonhos e promessas. Entre as metas que quase sempre estão lá, gastar menos e aprender a poupar. Hoje, ela aparece não só nas agendas dos adultos, mas ganha personalidade com lápis coloridos e cadernos enfeitados no mundo das crianças.

Pesquisa realizada pelo Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em parceria com o Instituto Axxus e a Associação Brasileira dos Educadores Financeiros (Abefin), no ano passado, revelou que, entre os 750 pais ou responsáveis entrevistados, 93% deles nunca aprenderam, em casa ou na escola, a administrar o próprio dinheiro. Foram apresentados, já adultos, à educação financeira pelos filhos, que, em contato com o tema na escola, abordam o assunto em casa. 

Para o doutor e mestre em educação financeira, presidente da Abefin e da DSOP Educação Financeira, Reinaldo Domingos, é importante que os pais estejam capacitados para dar o exemplo, principal caminho do aprendizado. “É preciso aceitar que crescemos entendendo pouco ou quase nada sobre a administração do nosso dinheiro. É flagrante o tamanho do conhecimento que os pais adquirem quando a criança aprende algo do tipo na escola.”

Para ele, a educação financeira é uma realidade que precisa ser abraçada tanto pelas instituições de educação quanto pelos pais, aliando a metodologia ao processo lúdico. “O movimento de mudança e de planejamento ajuda na construção da percepção do valor do dinheiro, tão importante para o lar”, pondera.

Tabela financeira

Larissa e Letícia são recompensadas pelas tarefas realizadas: valorização do esforço e do dinheiro(foto: Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)
Larissa e Letícia são recompensadas pelas tarefas realizadas: valorização do esforço e do dinheiro (foto: Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)
Falar sobre educação financeira parece algo comum para quem, logo nos primeiros anos de vida da filha, a presenteou com um cofrinho. Na casa da bancária Júlia Botelho, 38 anos, quando o assunto é dinheiro, Larissa, 9, e Letícia, 6, seguem um sistema de recompensa: para cada coisa feita, um pontinho ganho. 

Na sexta-feira, toda a família avalia o valor que as pequenas ganharão pelos afazeres cumpridos. Para cada atividade, as meninas ganham, no máximo, um real — é a famosa tabelinha que, ali, funciona melhor que qualquer tipo de mesada ou combinado.

O método começou quando Larissa tinha apenas 4 anos. Ela realizava tarefas simples, como guardar os brinquedos. Com o tempo e a chegada de Letícia, a listinha deixou menos espaços em branco no papel, com combinados mais elaborados, como arrumar a cama. “Acreditamos que a tabela seja um ótimo incentivo tanto para que elas façam as tarefas, como para que tenham o próprio dinheiro e saibam administrá-lo”, afirma a mãe.

Ela garante que a família está sempre negociando e questionando se as meninas realmente precisam dos bens que tanto pedem. Ao fim do dia, as meninas se reúnem em frente ao papel colado na parede para anotar quanto de dinheiro cada uma tem. “Quando elas não fazem, não perdem nada. É apenas uma forma de recompensa, pois estamos sempre nos ajustando e pensando em coisas novas juntos.”

 Júlia conta que as meninas guardam todo o dinheiro em seus cofrinhos e o separam para algo que querem muito — as duas já compraram bonecas, mochilas, livros e estojos. No ano passado, depois de vários meses economizando, as duas adquiriram um tablet para cada uma.

A escola também é uma parceira nesse processo. Logo na alfabetização, as duas tiveram contato com o assunto nas aulas de matemática. O conteúdo, levado para casa, é um reforço de tudo o que é aprendido e conversado em família. “Contribui muito em casa, porque elas associam o que aprendem para a vida.”

Na prática

De fato, a 1ª Pesquisa de Educação Financeira nas Escolas concluiu que os alunos apresentaram mudanças comportamentais sobre o uso do dinheiro. Quanto ao “não” na hora das compras, por exemplo, 57% das crianças que nunca tiveram contato com educação financeira até reagiram bem, mas 100% dos pequenos que já estudaram o assunto não demonstram nenhum tipo de reação negativa.

A pesquisa foi realizada em escolas de cinco capitais brasileiras com pais de crianças de 4 a 12 anos, em escolas adotantes ou não de programas de educação financeira. “Os programas não envolvem contas e cálculos, mas, sim, atitudes e sonhos a curto e longo prazos”, explica Reinaldo Domingos. 

Brincadeira que ensina

Pedro Henrique pediu de presente de Natal uma caixa registradora: aprendendo noção de dinheiro(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Pedro Henrique pediu de presente de Natal uma caixa registradora: aprendendo noção de dinheiro (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Livros, alguns produtos de brinquedo separados, notinhas divididas e máquina registradora ligada — é hora da brincadeira! Assim como todas as crianças, Pedro Henrique, 5 anos, acha inúmeras formas de se divertir. Para ele, um momento de lazer e, para a mãe, a oportunidade de ensinar, na prática e de forma lúdica, a lidar com o dinheiro.

Segundo os pais, a educação financeira sempre foi algo presente — e bastante natural — na criação do pequeno. “Acho importante passarmos para ele a nossa realidade. Desde cedo, queríamos que ele entendesse que não se pode ter tudo o que quer. Acho que temos feito um bom trabalho”, afirmam. Fernanda Pereira, 36, e Alexandre Reis, 40, adaptaram a rotina do filho com diversas brincadeiras e atividades que auxiliam no processo de aprendizado quanto às finanças: no mercado, por exemplo, a presença de Pedro é garantida. Ele ajuda nas compras e identifica os preços que valem mais a pena.

O menino gosta tanto dessa rotina que, de Natal, pediu de presente uma caixa registradora de brinquedo. A partir daí, foi só alegria. Durante as brincadeiras, ele e a mãe compram e vendem livrinhos e outros objetos e aproveitam para entender um pouco mais da educação financeira. “Junto com a caixa, compramos várias notinhas de papel. Tenho ensinado o Pedro a voltar o troco, reconhecer e contar algumas notas. É um momento especial”, relata a mãe.

Espaço garantido

Os dois cofres em forma de casinha, coloridos pelo próprio pequeno, têm espaço garantido na estante principal da casa. Cada moedinha é guardada com muito orgulho e carinho. “Nosso objetivo é que ele entenda que é preciso economizar para ter algo que deseja muito. Quando temos algum troco, por exemplo, dividimos as moedas e ele, sempre esperto, já guarda a parte dele”, conta Fernanda.

Presentes fora de hora não fazem parte da rotina da família. Ali, todos, inclusive Pedro, entendem que as lembranças chegam apenas em datas muito especiais, como aniversários, Dia das Crianças ou Natal. “Fazemos o melhor para ele dentro das nossas condições e queremos que ele entenda. Como toda criança, ele tem um gênio difícil, mas, ao mesmo tempo, se mostra compreensivo e consciente. Se ele quer algo, tem que batalhar, entender e aprender o valor do dinheiro.”

O desafio de Alexandre e Fernanda, agora, é fazer com que o pequeno comece a perceber o caro e o barato. “Ele sempre está questionando e tentamos explicar da melhor forma. O importante é fazer ele vivenciar as situações para que aprenda na prática.”

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