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Quanto mais estudo, menor é o risco de uma pessoa se envolver com o crime

Em levantamento realizado em Pernambuco, menos de 3% dos indivíduos com mais de 12 anos de escolaridade se envolvem em crimes. Esporte tem papel importante para resgatar jovens

Raniery Pinheiro Alves e o professor Edson de Souza: futsal premiado

 
Pesquisas desenvolvidas em todo o mundo correlacionam melhoria de escolaridade com redução de criminalidade. Segundo o secretário de Educação de Pernambuco, Frederico Amâncio, em levantamento realizado no estado, menos de 3% dos indivíduos com mais de 12 anos de escolaridade se envolvem em crimes. “Quanto mais tempo o aluno passar dentro da escola, menor será tendência a cometer delitos”, diz.

Para o secretário, o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos teve papel fundamental na transformação do ensino no estado. Campos não aceitava que as adversidades e as vulnerabilidades tivessem um impacto direto em sala de aula. “No Nordeste, somos a região com mais necessidades de avanço na área social. Nem por isso, nossas crianças estão condenadas pela educação inferior à de outras regiões do país”, afirma.

Fato é que a equipe pedagógica da rede pública de ensino de Pernambuco trabalha com um olhar direcionado para entender quais as reais necessidades das escolas espalhadas pelo estado, quais as carências dos estudantes, para poder trabalhar com as diferenças e saber contorná-las. Promover essa interseção, no entender de Amancio, é fundamental para atingir os pontos mais sensíveis que devem ser fortalecidos.

A Escola Rotary do Alto do Pascoal, em Água Fria, na capital pernambucana, é um exemplo disso. Localizada em uma região que apresenta um dos mais baixos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH), os alunos convivem em uma área de alta vulnerabilidade. Para reverter esse quadro de injustiça social, o professor Edson de Souza ensina a prática do futsal como meio de oferecer um novo projeto de vida para esses jovens. Inspirado pela arte de ensinar de maneira humanizada, o professor de educação física é um visionário.

Edson desenvolveu esse programa que brilha os olhos de 60 jovens, entre 12 e 17 anos. São meninos e meninas que querem fazer parte de grandes times de futebol profissional. O viés principal desse trabalho, segundo o professor, é lutar contra as ameaças que permeiam a vida dos estudantes, como as drogas. “Não focamos apenas nos fundamentos do esporte. O trabalho também apresenta os conceitos da dignidade e da cidadania”, observa.

O professor ressalta que só podem participar do programa os alunos com boas notas, frequência e comportamento exemplar. Para motivar ainda mais os jovens, ele conta com a mobilização de todos os moradores do bairro. E diz que faz eventos para arrecadar dinheiro na comunidade, como rifas e bingos dentro da escola, além de pedir  a doação de chuteiras. “Hoje, meu time da Rotary joga devidamente uniformizado”, afirma.

O projeto já conseguiu tirar muitos estudantes das drogas, segundo Edson, que se orgulha em dizer que também é um caminho para quem quer brilhar nos times profissionais. A história de Gabriel Henrique, 15, tomou um novo rumo graças ao futsal. Filho de uma ex-presidiária e órfão de pai, o garoto que mora com a avó materna, próximo à escola Rotary, joga futebol na quadra de cimento da comunidade desde os 10 anos. “Ele tem um talento gigantesco. É uma pedra de diamante que precisa ser lapidada”, afirma o professor.

Não é à toa que Gabriel passou em duas seletivas para jogar no Cruzeiro Esporte Clube, de Minas Gerais. Segundo o professor, ele foi aprovado e começará na categoria de base no início de 2018. “Isso melhora não só a autoestima desses alunos, mas a autoestima de todo o bairro”, comemora.

Conquistas vão além do banco escolar

Os avanços conquistados por Pernambuco nos rankings de avaliação do ensino básico não deslumbram o secretário de Educação do estado, Frederico Amâncio. “Bonito não é estar no primeiro lugar, mas ter o sentimento de ter dado o passo para avançar”, diz. Para os alunos, ver Pernambuco liderando o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) é um sinal de que uma escola de qualidade se tornou prioridade. A expectativa é de que casos de sucesso possam ser replicados por todo o Brasil, de forma a multiplicar o conhecimento de qualidade, vital para o futuro do país.


Conquistas são o que não têm faltado em Pernambuco, nas salas de aula e nos campos de futebol. No Futsal, equipes das categorias mirim e infantil dos alunos da Escola Rotary do Alto do Pascoal garantiram medalhas nos Jogos Escolares de Pernambuco, segundo o gestor da escola, Ranniery Pinheiro Alves. “Os times mirins, masculino e feminino, são os atuais campeões do campeonato, na fase regional.

Diante de tantas vitórias dentro e fora do campo, a escola passou a ser referência da comunidade, de acordo com o gestor. “No  Índice de Desenvolvimento da Educação Básica de Pernambuco (Idepe) deste ano, atingimos 4,27 no ensino fundamental e 3,89 no ensino médio, o que nos coloca como uma das escolas que mais avançaram nos últimos dois anos”, destaca.



Intercâmbio

Ainda segundo Ranniery, isso só se tornou possível graças aos projetos transformadores que vêm sendo desenvolvidos. “Com  isso, estimulamos tanto a participação quanto a permanência efetiva dos estudantes”, observa. A escola conta também com uma oficina de música. O gestor afirma que a Banda Marcial Rotary do Alto do Pascoal já ganhou muitos títulos estaduais e nacionais.

Outra modalidade esportiva praticada é a luta olímpica, em parceria com o Centro Comunitário da Paz (Compaz). No Programa Ganhe o Mundo, “três estudantes obtiveram nota para fazer intercâmbio internacional em 2016. Neste ano, um aluno foi para o México”, conta.

E no que diz respeito ao preconceito, a escola faz questão de discutir temas sensíveis, como a homofobia. “O objetivo é provocar uma reflexão no aluno para que ele aprenda a se posicionar contra qualquer discriminação baseada em diferenças culturais, classe social, crenças, sexo e etnia”, completa.