Summit

GDF desenvolve programa que transforma realidade de escolas, como a do Gama

Nesse quadro de escassez, afirma o secretário de Educação, Júlio Gregório Filho, o objetivo tem sido apoiar a criatividade

Devemos ter coragem de discutir absolutamente tudo o que venha para melhorar a educação
O aperto financeiro é grande no Governo do Distrito Federal. Nem por isso, a capital do país tem deixado de melhorar a rede pública de ensino. Nesse quadro de escassez, afirma o secretário de Educação, Júlio Gregório Filho, o objetivo tem sido apoiar a criatividade, como a do Centro de Ensino Fundamental (CEF) 15 do Gama, que passou por uma revolução para ser uma escola premiada. Tem 4,9 pontos no Índice de Desenvolvimento de Educação Básica (Ideb), acima da média de 4,3 da rede, e venceu a etapa distrital do prêmio Gestão Escolar 2017.

Os últimos 10 anos de vida da diretora Ana Elen Pereira se confundem com a história do CEF 15 do Gama. Ambas viveram dias de caos. Ponto de drogas, a unidade tinha o apelido de “Suvaco do Diabo”, no Setor Sul do Gama, ao lado de quartéis da Polícia Militar e da Força Nacional. “Um aluno foi assassinado e só na cabeça ele levou 57 facadas”, conta a diretora. O homicídio foi resultado de briga de gangues. “Em 2009, vivemos cenários de filmes aqui. Helicópteros, policiais por todos os lados. Durante dois meses, policiais civis disfarçados se misturavam aos alunos nas classes até pegarem vários estudantes traficantes”, relembra.

Ana Pereira precisou fazer acordo com as secretarias de Educação e de Segurança Pública para “limpar” a escola da criminalidade e dos drogados. “Foi muito duro para mim, mas pedi ajuda porque também o meu ex-marido era viciado em crack”, revela. Levar a comunidade para a escola tornou-se a batalha seguinte. A estratégia foi montada a partir do que aprendeu num curso de pós-graduação em gestão escolar na Universidade de Brasília (UnB). Além de envolver o corpo docente e municiar o ambiente com paredes pintadas de frases de incentivo, buscou parceria com a UnB. “Eu trazia professores para dar palestras, ensinando passo a passo. Construímos um projeto com a comunidade e a assessoria da universidade”, explica.

O resultado foi uma proposta pedagógica de “gestão democrática”, desenhada para a situação da escola, englobando gestões de projetos, de pessoal, financeira e do patrimônio. As vagas do CEF 15, hoje, são disputadíssimas, com taxa de aprovação acima de 90%. O prédio é limpo, decorado e aconchegante. Desde 2014, a escola está entre os 19 “pilotos” do Projeto de Educação em Tempo Integral, da Secretaria de Educação, com 600 alunos em classes curriculares mescladas por atividades mais lúdicas. À tarde, por exemplo, os estudantes do 5º ao 9º ano podem escolher entre informática, música, teatro, artes marciais e futsal. Há opções também de plantar, aprender a montar um biodigestor ou outra classe de educação ambiental.

Parceria privada

Casos como esse não são isolados, afirma o secretário de Educação. “Há o projeto Mulheres inspiradoras, que prioriza o diálogo, o protagonismo dos alunos e dos professores”, ressalta. “O resultado positivo do projeto é inegável: criação de repertório, mais engajamento, mais leitura, escrita autoral, fortalecimento dos vínculos familiares e com a escola”, acrescenta. Esse programa já atende 17 escolas, com mais de 3 mil estudantes. Mas é preciso ampliar os horizontes, uma vez que o Estado não pode fazer tudo sozinho, especialmente em períodos de restrição orçamentária, como o vivido agora.

Não por acaso, o Governo do Distrito Federal discute a possibilidade de adotar o modelo de parcerias público- privadas (PPPs) como forma de atrair investimentos para a melhoria da rede pública de ensino. “Não tem que ter medo ou preconceito do novo”, afirma Gregório. “Devemos ter coragem de discutir absolutamente tudo o que venha para melhorar a educação”, reforça.

Para o secretário, o avanço mais rápido da melhoria do sistema educacional só ocorrerá com mais investimentos. E, no caso do Distrito Federal, a urgência é grande, uma vez em ocupa hoje na 17ª colocação no ranking do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). “Infelizmente, só se consegue mudar isso com investimentos vultosos, e o Estado está em situação delicada”, diz.

Gregório conta que há experiências exitosas de PPPs na área de educação em Minas Gerais. Ele considera ser um ganho para o sistema “o parceiro fazer toda a manutenção da escola, sem interferir na proposta pedagógica ou em metas estabelecidas pelo governo”. O secretário reconhece que a opção pelas PPPs “é um assunto muito polêmico, mas ninguém se pode dar ao luxo de recusar ofertas que sejam interessantes para a melhoria da educação”. 

Gina Vieira: "Devemos nos despedir da escola como ela é hoje e deixar o professor como agente de mudança e transformação social"

Mulheres inspiradoras

Desde a primeira edição no Centro de Ensino Fundamental 12 de Ceilândia, em 2014, o projeto “Mulheres inspiradoras” ganhou vários prêmios em âmbitos nacional e internacional. Virou política pública na área de promoção da equidade de gênero. A ideia nasceu da professora Gina Vieira Ponte, 45 anos, negra, nascida de família pobre na Ceilândia, que, aos 8 anos, depois de sofrer muito bullying, sonhou ser educadora para transformar o mundo.

Ao fim de 2013, frustrada com o desinteresse dos estudantes pelo formato tradicional do ensino, resolveu criar o projeto quando, em sua conta numa rede social, viu um vídeo de uma aluna de 13 anos dançando com apelos sexuais. Ficou incomodada pelo fato de a garota não se aborrecer com os comentários dos colegas. “A maneira como a mulher se olha, muitas vezes, é resultado da maneira como ela foi olhada ou invalidada como sujeito”, explica.

Para mudar isso, o programa quer desestruturar o olhar culturalmente machista tanto da mulher como do homem e da mulher sobre si mesma por meio da leitura de livros de grandes exemplos femininos e das histórias das mulheres inspiradoras da família do estudante. “É uma iniciativa que mostra a diferença de olhar” sobre o feminino, diz Márcia Rollemberg, primeira-dama do DF e apoiadora do projeto.


As aulas de música estão entre as preferências de Kawane Vitória no CEF 15


Miguel Silva é um dos alunos do premiado colégio do Gama

Vagas bem disputadas

Giovana Agapito, 51 anos, tem dois filhos, Mateus e Gustavo, matriculados no CEF 15. “Eles são privilegiados”, diz a auxiliar de serviços gerais, moradora do Setor Sul do Gama, onde fica o colégio. “É uma ótima escola. Eu gosto muito, e os meninos também. Meu filho mais velho chega sempre animado com esse negócio de ser músico”, diz.

O mais velho é Gustavo, 14 anos, que entrou no 6º e está no 9º ano, o último do fundamental. “Vou sentir saudades. Essa habilidade de tocar violino eu descobri lá na aula de música”, conta. A mãe comprou o instrumento musical para ele. O garoto, que anda para cima e para baixo na escola com o violino, pretende seguir carreira.

A dança, a música, os amigos e o bom ambiente, onde se respira “amizade”, são as coisas que Kawane Fernandes, 13, mais adora no CEF 15.  Também gosta de plantar, da aula de ética e de produção textual, uma das atividades extras do período da tarde. “A gente lê, se expressa melhor. Minha leitura ficou muito boa”, diz a aluna do 7º ano, que está há dois no colégio do Gama. Ela mora no Entorno, vai de ônibus de Valparaíso, gastando R$ 250 mensais.

A mãe dela, Priscila Abreu Lima, 32, afirma que é um gasto “dos menores”, por saber que a filha está numa “excelente” instituição de ensino. “A filha de uma conhecida estudava lá, e todo dia falavam que a escola era muito boa. Fui atrás, consegui a vaga para minha filha e vi que os elogios não eram falsos”, ressalta. 

A diretora Ana Elen Pereira transformou o CEF 15 num centro de excelência