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Professor deve ser carreira de Estado, indica estudo do Banco Mundial

Estudo do Banco Mundial mostra que formação deficiente dos profissionais de ensino é o principal fator que restringe a qualidade da educação

A escola precisa fazer a leitura correta do tempo. A instituição ainda vive no século 19; os professores, no século 20; os alunos, no século 21
É unanimidade entre os especialistas em educação a necessidade de se traçar uma nova rota para o atual sistema educacional, que está ultrapassado, não somente em função das novas tecnologias, mas, principalmente, da metodologia de base. “A escola precisa fazer a leitura correta do tempo. A instituição ainda vive no século 19; os professores, no século 20; os alunos, no século 21”, afirma a especialista no tema e editora de Opinião do Correio, Dad Squarisi.

Fato é que a situação da educação brasileira atual exige mudanças em vários aspectos. Por isso, ela considera fundamental ter um olhar com foco em três pontos elementares: no aluno, no professor e na própria escola como espaço do conhecimento e acolhida.

A especialista sugere que cada estudante seja acompanhado de perto pela escola e pelo professor para que não se perca no caminho. “O que o aluno mais quer é aprender. Se isso não acontecer, ele desanima”, reconhece. Outra questão preocupante é a formação dos professores, que, segundo Dad, devem ter carreira de estado. De acordo com a especialista, um estudo do Banco Mundial conclui que “a baixa qualidade dos professores é o principal fator que restringe a qualidade da educação”.

Na opinião dela, só por meio de uma escola acolhedora e de qualidade, “jovens não vão abandonar as salas de aula e vão deixar de engrossar as estatísticas da população carcerária. Ocuparão lugar de destaque na vida em vez de celas desumanas e sem saída”.

Dad acredita que é possível melhorar o ensino público sem fazer mágicas. “Com muito trabalho, determinação e vontade política”, destaca. Por isso, ela recomenda que experiências que dão certo devem ser replicadas. “Temos bons exemplos que se constituem em ilhas de excelência, mas precisamos transformar o Brasil em um continente de excelência”.

Mal na foto

sistema educacional brasileiro precisa de um norte. A especialista demonstra em números que precisamos superar os obstáculos. “Na última Avaliação Nacional de Alfabetização (ANA), 55% dos estudantes foram reprovados em leitura e matemática”, coloca. Vale dizer que esse instrumento do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) avalia os níveis de alfabetização e letramento em língua portuguesa, a alfabetização em matemática e as condições de oferta do ciclo de alfabetização da rede pública.

A especialista comenta, ainda, que, na rede mundial de avaliação de desempenho escolar, conhecida como Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, ficamos em 59º lugar em leitura; 63º, em ciências; e 66º, em matemática. “Quando o assunto é evasão, 16% dos alunos não completam o ensino médio e 52%, o ensino fundamental”, lamenta. Outro dado alarmante é que 1,7 milhão de jovens, entre 15 e 17 anos, estão fora da escola. Quanto àqueles que conseguem chegar ao ensino superior, somente 17% dos jovens, entre 25 e 34 anos, se formam.

Na opinião de Dad Squarisi, “o Brasil universalizou o acesso à escola, mas não ao conhecimento. Os alunos vão à aula, mas não aprendem”, completa. Segundo a especialista, “os alunos do fundamental e médio recebem educação de má qualidade em matérias fundamentais, e ainda possuem baixo aproveitamento escolar na universidade”. Uma das causas, segundo ela, é o desprestígio na profissão. “É uma profissão que exige um plano de carreira sedutor, que atraia os cérebros que hoje fogem para outras carreiras ou se refugiam no serviço público.”



Alfabetização na hora certa

As três esferas de governo já perceberam que a alfabetização deve ocorrer na idade certa. “Não é possível pensar em elevar a aprendizagem sem garantir a alfabetização aos 7 anos. A boa educação infantil é fundamental, especialmente quando consideramos a desigualdade de oportunidades que as crianças têm na vida em família”, considera a consultora em políticas sociais, com 15 anos de experiência, Fabiana de Felício.

Na opinião dela, a escola deve suprir, à medida do possível, as carências das famílias de baixa renda, promovendo “contato precoce com a boa comunicação oral, suporte de adultos com boa formação, acesso a livros e materiais pedagógicos estimulantes”, defende. Fabiana afirma que a alfabetização já vem sendo apresentada aos gestores públicos como uma prioridade na educação. “Isso é constatado pelo destaque do tema nas metas do Todos pela Educação, no Plano Nacional de Educação vigente, na implementação da Avaliação Nacional de Alfabetização (ANA) e no Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (PNAIC).

O que não parece claro, tampouco simples, segundo a consultora, é como atingir essa meta. “Mas, municípios bem-sucedidos nesse desafio investiram em universalizar a pré-escola, garantir a frequência das crianças na escola, aperfeiçoar continuamente seus professores e avaliar constantemente o desempenho geral e individual das crianças, além de darem suporte individualizado no caso de detectarem dificuldades específicas”, afirma.

Fabiana toca também num ponto nevrálgico. “A baixa qualidade média das aulas implica em diversas consequências, como: baixa aprendizagem, desestímulo para a frequência, evasão escolar, mas também é afetada por diversas ações, como gestão escolar, formação de professores, plano de carreira, avaliação de aprendizagem”.

A especialista concorda que não é uma questão trivial de resolver, mas aponta que “alguns municípios já demonstram que é possível”. Fabiana é uma das idealizadoras do Índice de Oportunidades da Educação Brasileira (Ioeb) — plataforma que permite comparar índices e fazer rankings da educação de todo o Brasil. “É possível evoluir muito nas oportunidades educacionais sem milagres, ou seja, sem grande investimento adicional e sem depender de pessoas únicas e extraordinárias”.

A consultora assegura que o nível da educação básica no país está melhorando graças aos avanços obtidos em mais da metade dos municípios brasileiros. “A média passou de 4,5 para 4,7. Pouco mais da metade (54%) dos municípios são responsáveis por essa evolução. 38% dos municípios tiveram piora, ainda que pequena, nas oportunidades educacionais, de acordo com o índice.”