Brasileira é responsável por maior app de ensino de idiomas do mundo

Gina Gotthilf é responsável pela expansão do aplicativo Duolingo, que conta com 70milhões de usuários

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 10/08/2015 06:10 / atualizado em 13/08/2015 15:14

Roberta Machado

Duolingo/Divulgação


Mais de 100 milhões de pessoas aprendem idiomas com a ajuda de um jogo de celular. Em apenas quatro anos, o Duolingo tem conquistado usuários em todo o mundo e, de forma gratuita, dado a uma simples brincadeira o status de coisa séria, com aval de professores, universidades e governos de diversos países. Aos poucos, o ícone da coruja verde que representa o aplicativo vira sinônimo de aprendizado de línguas e pode mudar a cultura do ensino a distância.

O projeto é fruto do sonho do gualtemalteco Luis Von Ahn, criador do sistema de autenticação captcha, que foi comprado pelo Google e permitiu que o visionário seguisse o plano de levar a educação gratuita para o mundo. Ao lado dele está uma brasileira de 29 anos. Quem vê o diploma dela em filosofia e o treinamento em neurociência comportamental não adivinha que a paulistana Gina Gotthilf é o nome por trás da comunicação e da expansão internacional do Duolingo.

Na semana passada, ela apresentou o aplicativo a Barack Obama. O presidente norte-americano aprovou o projeto e considerou a ideia de fazer um curso gratuito pelo app. “Então, se eu quiser melhorar o meu espanhol, deveria baixar o Duolingo. Claro que agora eu não tenho permissão de ter um smartphone, mas essa é uma outra história”, brincou.

A aprovação do líder norte-americano vem na fase mais próspera do empreendimento, agora focado em investimentos em um modelo feito especialmente para ser usado em sala de aula, entre outros projetos “A educação é uma coisa que todo mundo acha que ajuda a equalizar o nível socioeconômico de um país. Com mais acesso a ela, as pessoas podem ter emprego melhores e mais dinheiro”, ressalta Gina. Confira trechos da entrevista concedida ao Correio.

Arquivo Pessoal
Você é formada em filosofia, mas fez um trabalho de pesquisa na área de neurociência. Como isso a ajudou a compreender ofenômeno das redes sociais e a implementar novas ideias?

Eu acho que fui para a filosofia e acabei entrando para a neurociência meio sem saber o que queria fazer, mas com muito interesse em entender como a mente humana funciona e é influenciada por situações sociais e culturais. Acabei trabalhando em áreas que têm muito a ver com culturas diferentes. Agora no Duolingo, tive de lançar o aplicativo na China, no Japão, na Coreia, na Turquia, na Hungria e também na América Latina. Não posso dizer que o estudo em si me ajudou muito nessa área, mas acho que o preparo de trabalhar num laboratório, de analisar dados de uma maneira superespecífica e focar em resultados me ajudou a compreender estratégias de crescimento para plataformas digitais. Às vezes, você tem de realmente focar muito e entender que a teoria por trás das coisas difere muito dos dados que encontra.

Tem algum tipo de fórmula? Como você pega uma ideia e adapta para um público novo?
O trabalho que acabei fazendo tinha pouco a ver diretamente com as áreas que estudei. Por isso, sempre tive de colocar a mão na massa em coisas que eu nunca achei que conseguiria fazer ou que supostamente não teria preparo. Acho que, até agora, a coisa mais importante dos trabalhos que tive — tanto quando fiz estratégias de mídia digital para empresas de moda de luxo, para o crescimento do Tumblr, do Duolingo e quanto para todas as outras consultorias — é uma questão de lidar com cada problema como se fosse algo isolado. O Tumblr chegou para mim e falou ‘olha, a gente gostaria de crescer no Brasil’. Se eu parasse para pensar que não tinha formação para aquilo, que não sabia como fazer para uma empresa crescer, que não tinha experiência com administração de empresas, que não tinha estudado relações internacionais nem relações públicas, não teria feito nada.

E o que você conseguiu mostrar sobre o Brasil para o Tumblr?
Acho que tem muitas particularidades. Tanto na questão do público e da estratégia da plataforma, quanto no lado profissional brasileiro, que é muito diferente do americano. As expectativas são diferentes, o jeito de trabalhar também. Então, às vezes, tem um pouco de frustração nesse relacionamento. Quando eu estava no Tumblr e acabei abrindo o meu negócio para trabalhar com empresas de tecnologia no Brasil e na América Latina, consegui ajudar (os clientes) a se comunicar para amenizar os problemas.

E por que você acha que o Duolingo teve uma aceitação tão grande no país?
Primeiro, porque o brasileiro tem muita vontade de aprender inglês. Ele não tem acesso a cursos bons, mas gosta da cultura americana. Então, o inglês é o maior idioma do Duolingo hoje no país. Além disso, o fato de ser um jogo ajudou muito. A ideia é fazer com que as pessoas desenvolvam uma vontade de aprender sem saber que estão estudando. Além disso, o brasileiro gosta de compartilhar novas ferramentas digitais com amigos. E o Duolingo é de graça. Então, não tem nada impedindo que ele use essa plataforma.

E qual é o público de vocês?

A gente tem de tudo. O Duolingo foi justamente criado para que pessoas que não têm acesso a cursos de aprendizado de idiomas porque não podem pagar, moram longe ou trabalham usem a melhor ferramenta para aprender idioma de graça. Infelizmente, tem muitos países, e o Brasil é um deles, em que, se você tem acesso aos melhores recursos quando nasce, tem acesso à melhor educação e, assim, pode ir para a melhor faculdade e ter um emprego bom. Se você não tem, é o contrário. A ideia é quebrar esse círculo vicioso aprendendo um idioma que possa dobrar o seu potencial salarial. A gente recebe cartas de velhinhos que podem conversar com os netos que nasceram em um país com outro idioma, de mães cujos filhos começaram a aprender outra língua numa idade muito baixa. Agora que a gente tem o Duolingo para escolas, há mais de 100 mil professores cadastrados para ensinar idiomas em sala de aula. Tem empresas que começaram a usar o aplicativo para ensinar idiomas aos funcionários. Só precisa saber ler e escrever para usar a ferramenta.

E como foi a adaptação do Duolingo para a sala de aula?

Quando a gente começou, a ideia era oferecer o aplicativo apenas para o usuário final. Só que começamos a ouvir histórias de professores que substituíram o currículo e o livro didático pelo aplicativo e, finalmente, alguns governos começaram a entrar em contato, como o da Costa Rica, da Guatemala, do Equador e de maneira muito mais ampla o da Colômbia, porque queriam usar o Duolingo de uma forma mais ampla nas escolas públicas. Lançamos o aplicativo para escolas no início deste ano. É um painel de controle que permite que o professor consiga ver o progresso dos alunos de uma maneira consolidada e fácil. Começamos, agora, a adicionar funcionalidades extras.

Então, não houve uma resistência ao aspecto da gamificação do aplicativo?

Temos um estudo independente que mostra que 34 horas de Duolingo são equivalentes a um semestre universitário nos EUA. Levamos essa questão muito a sério, não são só joguinhos. A ideia é usar a gamificação para motivar o aluno a aprender mais. Temos uma equipe inteira de profissionais com doutorado em aprendizado de máquina, um segmento da inteligência artificial, e que faz com que o aplicativo se torne cada vez mais personalizado.

 

Arquivo Pessoal
 

 

A matéria completa está disponível aqui, para assinantes. Para assinar, clique aqui.   

Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.