Cada um no seu tablet: conheça o perfil das crianças brasileiras na web

Levantamentos nacionais e internacionais apontam para o crescimento do uso cada vez mais privativo de dispositivos móveis entre crianças brasileiras. O local preferido para acessar a web é o quarto

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postado em 04/09/2015 16:13 / atualizado em 04/09/2015 16:36

 

Carlos Moura/CB/D.A Press
 

Há tempos a internet não é lugar frequentado apenas por adultos. As crianças aprendem a navegar na web antes mesmo de amarrar os cadarços. Um levantamento da AVG Technologies comprova que 57% dos pequenos de até 5 anos sabem usar aplicativos em smartphones, mas só 14% são capazes de dar um laço nos cordões dos sapatos. Além de ter acesso a dispositivos eletrônicos cada vez mais cedo, o público infantil tem uma tendência ao uso privativo da internet. As informações são do relatório mais recente da ICT Kids Online Brazil. Realizado com pessoas de 9 a 16 anos, o estudo indica que meninos e meninas acessam a rede principalmente de casa. E o Brasil é onde as crianças mais acessam a internet por dispositivos móveis, como smartphones e tablets — um terço delas estão conectadas.

 

Os pesquisadores entrevistaram também crianças de outros sete países (Bélgica, Dinamarca, Irlanda, Itália, Portugal, Romênia e Reino Unido), com o objetivo de mapear as condições de acesso e uso da web por esse público. A tendência ao uso cada vez mais privativo é apenas um dos resultados apresentados. Os estudiosos descobriram até o cômodo preferido das crianças: o quarto (tanto o próprio quanto o aposento de outros membros da família).

Apesar do amplo acesso à web dentro de casa, a realidade não é a mesma no ambiente escolar. A pesquisa chama a atenção para o pouco uso da rede nas escolas brasileiras. Os números indicam, no mínimo, a necessidade de avançar em inclusão digital: apenas um terço dos entrevistados relataram ter internet disponível no colégio. Em contrapartida, o país está à frente de nações como Bélgica e Portugal no uso de dispositivos móveis pelos pequenos e na presença de crianças de 9 e 10 anos nas redes sociais.

 

É o caso de Leonor de Lima, 9 anos, que usa tablet há dois. Onde estuda, o dispositivo não é protagonista. Ela leva o aparelho para a escola uma vez por semana para fazer pesquisas. O uso acaba acontecendo mais em casa. A mãe, Cláudia Guerreiro, 46, limita a duas horas diárias o tempo que a filha fica on-line. “É bom que ela faça outras atividades fora de casa, para sair um pouco do universo eletrônico”, comenta. A família aposta no diálogo: “O tablet é um instrumento de consulta, uma ferramenta tecnológica, como a televisão. Orientamos quanto ao cuidado com as informações e a privacidade”, diz Cláudia.

Perfil

Editoria de Arte/CB/D. A Press
Leonor prefere usar o dispositivo para jogar, mas também coloca a leitura em dia com os e-books. Um dos prediletos, Alice no país das maravilhas, foi lido no tablet. A garota tem perfil no Facebook desde os 7 anos de idade, mas considera os aplicativos móveis mais divertidos. Sua rede de amigos no site de relacionamentos conta com apenas 17 contatos — segundo ela, membros da família e colegas da escola. A menina é exceção à regra: o estudo da ICT Kids Online Brazil mostra que grande parte do público infantil valoriza ter grande número de contatos on-line e demonstra pouca preocupação com manutenção de perfis públicos nessas redes. No Brasil, mais da metade das crianças (54%) afirma ter mais de 100 contatos e 42% dos brasileiros possuem perfil totalmente público — essa proporção é de apenas 15% na Itália, por exemplo.

Outra garota que começou a usar tablet com 7 anos é Amanda Baracho, 9, que hoje tem um smartphone. O pai, Thiago Baracho, 28, afirma que a decisão de dar o aparelho à filha dependeu mais dela do que dele. O foco é na responsabilidade: Amanda já era capaz de tomar cuidados para não estragar ou perder o dispositivo. As preocupações de Thiago giram em torno de privacidade e segurança. “Como o celular é vinculado ao meu e-mail, posso acompanhar tudo que é baixado nas lojas de aplicativos e números adicionados aos contatos dela”, esclarece.

 

Ele afirma, ainda, que costuma orientar a menina a não conversar com estranhos. Além disso, o tempo de uso diário é limitado. Amanda tem acesso ao WhatsApp — único aplicativo de troca de mensagens permitido pela família — e não leva o aparelho para a escola.

 

Vídeos e redes sociais
Assistir a vídeos de música ou de temas variados e utilizar redes sociais são as atividades mais citadas por crianças e adolescentes entre 11 e 16 anos em todos os países contemplados pelo estudo. Os dinamarqueses (70%), romenos (58%), irlandeses (49%) e britânicos (49%) preferem assistir aos vídeos on-line, enquanto as redes sociais aparecem como a principal atividade para adolescentes italianos (59%), brasileiros (52%), portugueses (50%) e belgas (48%).

De pai para filho
As crianças adoram dispositivos touchscreen. Quem está mais atento a isso são os pais: uma pesquisa da Nielsen feita em 2013, nos Estados Unidos, demonstrou que mais de três quartos (78%) dos pais que possuem tablets deixam seus filhos com menos de 11 anos usarem os aparelhos em casa. A maioria dos responsáveis (54%) disse que os filhos usam o equipamento para fins educacionais. Entre os que não deixam as crianças usarem os dispositivos, 20% afirmaram que permitiriam o acesso caso houvesse mais conteúdo educativo disponível.

 

Escolas buscam ser mais interativas

 

Fred Dufour/AFP - 3/12/12
 

Algumas instituições de Brasília migraram para o meio digital, em vez de ficar apenas no giz e no quadro. A visualização do conteúdo depende de tablets, adquiridos no início do ano letivo como parte do material escolar. Os professores utilizam a tecnologia a favor da aprendizagem — os colégios não proíbem o acesso a redes sociais e aplicativos móveis. Aulas interativas, com conteúdo interessante, são a arma para capturar a atenção dos estudantes.

 

Na escola, o acesso à rede é limitado a apenas um terço das crianças brasileiras usuárias de internet (36%). Essa proporção é inferior à verificada na maioria dos países europeus envolvidos no estudo: Reino Unido (88%), Dinamarca (80%), Romênia (53%), Portugal (49%), Irlanda (47%) e Bélgica (39%). Só a Itália, com 26%, fica abaixo do Brasil nesse item. “Em vez de restringir o acesso à internet, as escolas brasileiras deveriam valorizá-lo e investir nessa tecnologia, permitindo que as crianças explorem plenamente o potencial da internet e sejam capacitadas para o uso seguro”, considera Alexandre Barbosa, gerente do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br).

 

A estimativa da Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep) é que 30% das escolas privadas de todo o país adotem o tablet em sala de aula até o fim deste ano. Leonor de Lima, 9 anos, é estudante da Escola Classe 204 Sul e opina que os dispositivos eletrônicos, caso fossem permitidos na escola, tornariam as aulas mais divertidas. “Seria bem mais prático do que o livro, porque as crianças aprenderiam brincando”, diz.

 

Onde os adultos não entram

 

GromSocial/Divulgação
 

Para evitar a exposição do filho a conteúdos impróprios, o pai de Zach Marchs proibiu o garoto de 11 anos de participar de redes sociais. Em vez de ficar chateado por não fazer parte dos sites de relacionamento como Facebook e Twitter, o menino criou a própria rede social, o Grom Social, com a ajuda de um amigo da família e de um especialista em código de programação HTML. A rede, especialmente voltada a crianças e adolescentes, começou a ser esboçada em 2012 e chegou ao Brasil em maio de 2015, quando o garoto (foto) visitou escolas do país. A primeira versão foi feita em segredo, mas depois de conhecê-la, o pai de Zach Marchs resolveu bancar o projeto.

 

Com informações de Rafaella Panceri

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