Conheça a escola brasiliense que ensina ciência da computação para crianças

Crianças interessadas na estrutura por trás dos jogos são a aposta de escolas especializadas no ensino de ciência da computação. A ideia é acostumar o público à linguagem tecnológica desde cedo

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postado em 05/10/2015 14:02 / atualizado em 05/10/2015 14:20

Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press

Entender de ciência da computação não é privilégio de gênios da tecnologia. Escolas de programação para crianças provam que não há idade mínima nem pré-requisitos curriculares para desenvolver softwares, seja no Brasil, seja no resto do mundo. Nas escolas inglesas, a ciência da computação faz parte do currículo e, nos Estados Unidos, as autoridades avaliam a adoção do mesmo modelo. Em território brasileiro, a maior parte dos estabelecimentos desse tipo está concentrada no estado de São Paulo e funciona sob o modelo de franquias.

Em Brasília, a primeira escola voltada ao ensino exclusivo de programação para o público infantil, a SuperGeeks, começou a funcionar há um mês e tem 60 alunos matriculados. Segundo o dono, Adriano da Silva, o sucesso de público se deve à demanda reprimida por esse tipo de instituição na capital federal: “Aqui, temos uma população de renda elevada e com crianças que têm acesso a muitos games”, diz. A proposta é inovadora: ensinar a garotada a criar os próprios jogos, aplicativos para dispositivos móveis e sistemas web.

A escola também aposta no ensino de robótica. Dividida em três pilares (mecânica, eletrônica e programação), essa é uma ciência que trata da construção de robôs. Ter conhecimentos de programação, nesse contexto, é essencial, pois garante liberdade na criação de qualquer eletrônico — partindo do mais simples, com sensores de distância e garras mecânicas, até os com inteligência artificial, que conseguem analisar o ambiente em torno de si e tomar decisões. Silva explica que as dinâmicas das aulas são totalmente práticas. “As primeiras são voltadas à eletrônica, passando por circuitos elétricos e mecânica. Depois vem a programação, parte em que damos vida ao robô.”

O diferencial de instituições como essa é o ensino de programação profissional. O Massachussets Institute of Technology (MIT), localizado nos Estados Unidos, utiliza um método que não exige conhecimentos sobre ler e escrever códigos. As crianças aprendem a programar por meio de blocos de comandos (como se fossem peças de Lego). A única habilidade necessária é o uso de lógica e sequências determinadas. Na escola brasiliense, o aprendizado começa com a ferramenta do MIT para ambientar os alunos, mas logo evolui para linguagens profissionais.

Pensamento lógico
Professor de pós-graduação em educação da Universidade Católica de Brasília (UCB), Afonso Galvão afirma que inserir a ciência da computação no currículo escolar é uma maneira de ensinar crianças a pensar de acordo com a lógica do mundo contemporâneo. “Estamos cada vez mais dependentes de programação e tudo que envolve inteligência artificial”, explica. Aliada ao ensino da língua materna, de outro idioma (como o inglês) e da matemática, a programação constitui, portanto, a base de uma formação bastante ampla.

O especialista menciona alguns dos benefícios ligados ao domínio da linguagem de códigos. Um deles é ajudar a organizar ideias, pensamentos e objetivos de vida de maneira mais simples. “Hoje em dia, os projetos estão mais vinculados à sua capacidade de explorá-los numa linguagem computacional. Ensinar às crianças a linguagem de programação é dar um impulso forte para que elas entrem na era do conhecimento.”

Para Afonso Galvão, o que pode haver de arriscado em apresentar a linguagem computacional na infância é extinguir o tempo usado para brincadeira. “Para a criança, brincar é a coisa mais séria que existe, pois é pela brincadeira que ela descobre o mundo”, ressalta.

Perfil
Escolas como essas atraem alunos interessados não somente em jogos, mas na estrutura por trás deles. “São crianças diferenciadas”, acredita Adriano da Silva. “Elas gostam de jogo, têm interesse em programação e inteligência superior à média.” A promessa do ensino especializado é realizar o sonho dos programadores mirins e ajudá-los a ganhar habilidades úteis para o futuro. “Quando chegam aqui, eles não sabem nem digitar no teclado. Quando saem, têm seu próprio jogo”, conta.

Entre os prodígios matriculados na escola, está Lucas Miranda, 6 anos, que produziu seu primeiro jogo em um mês. O garoto já está familiarizado com o universo de codificação de jogos, linguagem de números binários, representação de imagens e lógica de programação. Um pouco de aptidão natural mais o incentivo da família colaboraram para o sucesso. “Ele é esperto, curioso e gosta muito de tecnologia, desde pequeno”, descreve a mãe, Renata Miranda, que considera o ensino de tecnologia essencial para a formação do filho. “A tendência é que as pessoas passem a desenvolver o que elas precisam, em vez de serem apenas usuárias”, opina.

João Pedro Vieira, 10, conta que o interesse de estudar na escola partiu dele mesmo. Interessado em programação de aplicativos móveis, games e softwares, assistiu a um vídeo sobre a inauguração da escola no YouTube e agiu rápido. “Eu me interessei e pedi para minha mãe pesquisar”, lembra. “Ficamos no computador, e a professora explica o que a gente faz”, conta o aluno sobre a aula. O garoto produziu dois jogos em quatro aulas — um deles no formato brick, jogo com uma barra na parte inferior da tela cujo objetivo é rebater uma bola que sobe e desce. Ambos foram desenvolvidos em 2D, com o Scratch, ferramenta do MIT. “Fiz meu primeiro joguinho e fiquei muito orgulhoso quando tudo estava completo”, lembra. Ao ser perguntado sobre a profissão que quer seguir no futuro, o garoto afirma, sem pensar: “Quero ser um programador de softwares”.

"Ensinar às crianças a linguagem de programação é dar um impulso forte para que elas entrem na era do conhecimento"
Afonso Galvão, professor de pós-graduação em educação da Universidade Católica de Brasília

 

Programaê!/Divulgação
 

Estímulo à autonomia

Como disse Steve Jobs, todas as pessoas deveriam aprender a programar um computador, pois isso ensina a pensar. Os superpoderes adquiridos com a programação vão muito além de criar de jogos, websites e sistemas. Quem entra em contato com esse universo desenvolve habilidades de raciocínio lógico e pensamento sistêmico, além de ter a criatividade constantemente estimulada. Outros benefícios são a capacidade de resolução de problemas e de trabalhar em equipe.

Inspirado na difusão dessa gama de conhecimentos, surge o Movimento Maker, extensão da cultura faça você mesmo ou, em inglês, do it yourself. O movimento é baseado na ideia de que pessoas comuns podem construir, consertar, modificar e fabricar os mais diversos tipos de objetos com as próprias mãos. Tudo começou há 10 anos, quando uma reportagem intitulada Technology on your time (Tecnologia em nosso tempo) foi publicada na revista Make, nos Estados Unidos. Com o sucesso da publicação — e a consequente adesão de diversas empresas —, foi fundada a Maker Fair, feira que chegou a reunir cerca de 250 mil pessoas.

No Brasil, eventos semelhantes, como Arduino Day, Flisol e Campus Party Brasil (principal evento tecnológico do país), reúnem, anualmente, milhares de pessoas do mundo inteiro. Voltado não apenas para profissionais, mas para quem quer aprender ciência da computação do início, o Programaê! é um movimento que une, desde 2014, alunos, professores e pais com o objetivo de aproximar a programação dos jovens brasileiros. Entre março de 2014 e junho de 2015, cerca de 162 mil usuários já utilizaram a ferramenta. Entre eles, 22,5% em São Paulo, 10,6% no Rio de Janeiro e 6,4% no Distrito Federal.

O ideal do grupo, mantido pelas fundações Lemann e Telefônica Vivo, é mostrar que qualquer um pode ser autor no mundo digital. “Isso é importante para que sejam desenvolvidas novas soluções para problemas cotidianos ou até grandes dilemas sociais”, diz Lucas Machado, porta-voz do Programaê!. Os integrantes do movimento desenvolveram um conjunto de planos de aula para professores que quiserem inserir o tema em sala de aula.

Professores de São José dos Campos (SP), Itaquaquecetuba (SP), Bombinhas (SC), Duque de Caxias (RJ) e Elisiário (SP) já aderiram. Para usar o material didático, não é preciso ter experiência prévia — as plataformas abordam a linguagem de programação profissional com um viés lúdico. O conteúdo integral está disponível on-line, para qualquer pessoa, no site programae.org.br.

Lições de graça
Você já teve uma ideia para construir um aplicativo móvel incrível, mas não começou a desenvolvê-lo por falta de conhecimento? Com um pouco de interesse e persistência, é possível aprender a linguagem dos computadores sem sair de casa. Vários sites apostam na Hora do Código, movimento global promovido pela Semana de Educação em Ciência da Computação e a Code.org, que oferece cursos de web (HTML e CSS) e JavaScript. A iniciativa atinge milhões de estudantes em mais de 180 países, por meio de uma introdução de 60 minutos à ciência da computação e à programação de computadores. Conheça os sites com tutoriais gratuitos e transforme suas ideias em realidade:
» www.code.org
» www.codecademy.com/pt
» pt.khanacademy.org/hourofcode
» scratch.mit.edu
» fabricadeaplicativos.com.br
» www.proggy.com.br

 

Com informações de Rafaella Panceri

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