Roupa inteligente permite evaporação do suor durante as atividades físicas

Os micro-organismos impressos na roupa mudam de tamanho conforme a presença de umidade

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postado em 05/06/2017 10:03 / atualizado em 05/06/2017 10:29

A roupa usada durante a prática esportiva faz a diferença no conforto e, em alguns casos, na performance do atleta.  Há tecidos que podem grudar na pele, irritá-la, dificultar os movimentos e causar muito calor. Isso é especialmente verdade em esportes de alta performance. O modelo de 2016 da camiseta da Seleção Brasileira de futebol, por exemplo, foi criado de forma a absorver parte do suor e reduzir o atrito com a pele.

Pensando justamente nesses atletas, cientistas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, criaram uma roupa com abas nas regiões mais quentes das costas, que costumam produzir maior quantidade de suor. Quando o esportista transpira durante o exercício, as abas se curvam para fora e permitem que o suor evapore facilmente, diminuindo a temperatura da pele e a sensação de calor. Há um detalhe: o movimento de abertura do traje é controlado por bactérias impressas no interior do tecido.

“Nós utilizamos a capacidade das bactérias em reagir à umidade para criar abas bio-híbridas, que respondem ao suor”, disse Wen Wang, principal autor do artigo sobre a pesquisa, publicado na revista Science Advances. O pesquisador refere-se à capacidade de certos tipos de células, incluindo bactérias, de absorver e perder umidade para o ambiente, respectivamente aumentando e diminuindo de volume.

As abas do novo traje têm uma camada interna de tecido, entre duas outras camadas de um material que não reage à umidade, sobre a qual as bactérias foram impressas. Em um ambiente seco, o volume das bactérias diminui, gerando uma força que curva o tecido para dentro e fecha a abertura, como acontece, por exemplo, com folhas e frutas secas.

Quando há suor na pele, as bactérias aumentam de volume e curvam a aba para fora, permitindo que o suor evapore pela abertura. “Após colocar as bactérias no tecido, ele cria vida, pode sentir o suor durante o exercício e mudar a forma da aba”, explica Wen. “Isso ajuda a pele a respirar e melhora a ventilação.” As bactérias utilizadas no estudo são inofensivas. Mesmo assim, “nós não alimentamos as células presentes no traje para que não cresçam nem se reproduzam. Descobrimos que, mesmo quando estão mortas, a roupa é funcional”, garante Wen.



Testes


Para decidir a forma mais eficiente de posicionar as aberturas na roupa esportiva, os pesquisadores usaram mapas mostrando, durante a prática de exercícios, as regiões mais quentes das costas e as que produzem mais suor. No traje, as primeiras possuem aberturas grandes, que permitem maior dissipação do calor da pele. Enquanto as que produzem mais suor são cobertas por várias aberturas pequenas, aumentando a eficiência da evaporação.

Durante o teste do produto, no qual atletas usaram o traje ao se exercitar, as abas se abriram após cinco minutos de atividade, aumentaram a remoção de suor e calor da pele e deram mais conforto aos usuários. Apesar da eficácia, ainda há chão a ser percorrido até que a tecnologia seja usada na prática.

“O traje apresentado no artigo é ainda um protótipo, nós não testamos a sua durabilidade”, diz Wen. “Nossos testes preliminares mostraram que o movimento das abas se mantém após um 100 ciclos de abertura e fechamento, o que significa que é possível criar uma roupa funcional para o uso diário.”

Usos diversos


A base da tecnologia tem uma grande variedade de aplicações. O artigo sugere o emprego da solução em produtos de beleza, no controle de umidade em casas inteligentes e na remoção de umidade em tecidos biomédicos. “Nós exploramos vários usos para essa tecnologia. Por exemplo, um saquinho de chá vivo, que te avisa quando a bebida está pronta; e um abajur interativo, que muda seu padrão de luz em ocasiões diferentes. Em ambas as aplicações, a mudança de umidade no ambiente desencadeia as reações”, ilustra Wen.

Fernando Varotti, chefe do Laboratório de Bioquímica Medicinal da Universidade Federal de São João del-Rei, em Minas Gerais, classifica o desenvolvimento desse tipo de material como inovador. “A grande sacada dos autores foi combinar células e um material inerte à umidade, gerando uma estrutura heterogênea e extremamente funcional”, avalia.

Segundo o especialista, que não participou do estudo, é possível que roupas com o tecido vivo sejam vistas em breve nas ruas. “O emprego desse biofilme tende a melhorar o conforto de quem pratica esportes. Sendo assim, creio que, em pouco tempo, essa tecnologia poderá estar acessível a todos os praticantes de esportes, de um modo geral.”

Do intestino

A espécie utilizada na última versão do traje é a B. Subtilis, encontrada naturalmente no solo e no trato gastrointestinal de ruminantes, como as vacas, e de humanos. Outras duas espécies foram analisadas no estudo: a S. cerevisiae, a levedura usada em pães e cervejas, e a E. Coli, parte importante da flora intestinal humana. As bactérias foram escolhidas por serem extensivamente estudadas e pela facilidade em manipulá-las geneticamente.

"Após colocar as bactérias no tecido, ele cria vida, pode sentir o suor durante 
o exercício e mudar a forma da aba. Isso ajuda a pele a respirar e melhora a ventilação”

Wen Wang, 
pesquisador do Instituto de Tecnologia de Massachusetts e principal autor do estudo
 
 

* Estagiário sob a supervisão de Carmen Souza 
 
 
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janne
janne - 05 de Junho às 14:07
Desde o início dos anos 80 são tecidos com a mesma função, ele é chamado Gore-Tex