Neuropróteses ainda são alvo de debates entre especialistas

A adoção de dispositivos comandados pelo cérebro do usuário levanta questões como a possibilidade de ataques de hackers e a definição de culpados em casos de acidentes

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postado em 10/07/2017 06:00 / atualizado em 09/07/2017 21:02

As próteses neurais são dispositivos criados para substituir funções corporais comprometidas. Diferentemente das comuns, são controladas pelo cérebro do usuário. Uma série de eletrodos mede a atividade cerebral e identifica padrões que correspondem a movimentos, como levantar o braço. Quando a pessoa pensa em mexer uma parte do corpo, um sinal correspondente é enviado à prótese, que se move conforme a intenção.

 

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A dedicação de pesquisadores e os avanços tecnológicos têm fortalecido a ideia de que as neuropróteses farão parte do nosso cotidiano. Antes disso, porém, surge um dilema ético, discutido em uma edição recente da revista científica Science. Como qualquer tipo de ferramenta, acidentes envolvendo esses dispositivos poderão surgir, e é preciso, defendem os autores, estabelecer o quanto antes medidas de segurança para diminuir a ocorrência deles, bem como definir quem deverá ser responsabilizado.

Produzido por pesquisadores da Alemanha, da Suíça, dos Estados Unidos, do Japão e do Canadá, o artigo sugere alguns possíveis problemas que poderão surgir com o uso das neuropróteses, como a possibilidade de ataques de hackers, de roubo de dados e de invasão de privacidade. Segundo os autores, existem três pontos importantes a serem considerados: a responsabilização, a segurança e a privacidade, e a expectativa dos usuários.

Um dos obstáculos é que ainda não é fácil detectar a origem de um movimento nessa interação entre cérebro e máquina. “Nós não devemos ser complacentes sobre o significado disso para a sociedade”, defende John Donoghue, diretor do centro suíço de pesquisa Wyss e um dos autores do artigo. “Temos que considerar a possibilidade de vivermos ao lado de máquinas semi-inteligentes controladas mentalmente e preparar os mecanismos para garantir o uso seguro e ético delas.”

Os especialistas sugerem que, em alguns casos, será possível aplicar princípios éticos já consolidados em outras áreas. Caso haja um mecanismo de segurança — como um pensamento voluntário que cancele algum movimento perigoso —  será dever do usuário utilizá-lo, da mesma forma como o dono de uma arma de fogo deve mantê-la travada quando fora de uso.

Outro caso em que um indivíduo poderia ser responsabilizado por um acidente seria quando ele usasse o dispositivo em uma situação que tenha um risco razoavelmente previsível. Por exemplo, segurar um bebê com uma prótese mesmo sabendo que ele pode ser derrubado.

“Imagine o caso em que uma pessoa está com muita raiva de outra e pensa em dar um soco. Esse imaginar não é suficiente para realizar a ação. Existe algo em nossa mente que diferencia uma intenção que não vai ser cumprida de uma que será. Embora no momento seja difícil imaginar um mecanismo de veto completamente seguro, acho importante ter levantado essa necessidade”, ressalta Júlio Saldaña, do grupo ICONE de inteligência computacional, pertencente à Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP).


Privacidade

Grande parte das próteses atuais recebe sinais do cérebro por uma conexão sem fio. Porém, esses dados neurais podem ser interceptados, prejudicando a privacidade do usuário e abrindo espaço para ataques de hackers, que, em algumas situações, podem ser até letais.

“A proteção de dados neurais em pessoas com paralisia total que utilizam as próteses como única forma de comunicação com o mundo é particularmente importante”, diz Niels Birbaumer, do centro de pesquisa Wyss e também autor do artigo. “A calibração desses dispositivos pode depender de informações pessoais fornecidas pela família do paciente, como ‘o nome da sua filha é Emily’. Uma proteção estrita de dados deve ser aplicada a todas as pessoas envolvidas.”

As tecnologias atuais usam um grande número de sensores implantados no cérebro para captar os sinais do órgão e enviá-los à neuroprótese. O número pode chegar a mil, e a grande quantidade de dados que devem ser enviados torna difícil criptografar o sinal para que ele não seja interceptado.

“Com esse panorama em mente, é fácil imaginar o quanto ainda falta para poder chegar a aplicações em que se introduzem técnicas de criptografia a fim de garantir a segurança dos sinais neurais”, afirma Júlio Saldaña. “De acordo com o artigo, a implementação de medidas de segurança para a informação transmitida desde o implante neural é uma necessidade, o que aumenta os desafios em termos de implementação eletrônica. Atualmente, já há bastante dificuldade em manter um consumo suficientemente reduzido e, ao mesmo tempo, permitir a transmissão sem fio.”

Apesar dos estudos na área de próteses neurais mostrarem avanços consideráveis, o especialista reforça que é preciso levar em conta que esses desenvolvimentos são muito recentes e que a tecnologia ainda está em estágio inicial. “Devido ao apelo dessas aplicações, é fácil perder a noção do ponto de desenvolvimento em que elas se encontram. É bom que a comunidade tenha noção do quanto falta para se chegar ao uso no cotidiano”, reforça Júlio Saldaña.

“Temos que considerar a possibilidade de vivermos ao lado de máquinas semi-inteligentes controladas mentalmente e preparar os mecanismos para garantir o uso seguro e ético delas”
John Donoghue, diretor do centro de pesquisa Wyss, na Suíça, e um dos autores do artigo

“Imagine o caso em que uma pessoa está com muita raiva de outra e pensa em dar um soco (…) Embora, no momento, seja difícil imaginar um mecanismo 
de veto completamente seguro, acho importante ter levantado essa necessidade”
Júlio Saldaña, do grupo ICONE de inteligência computacional, pertencente à Escola Politécnica da USP

 

Impactos psicológicos

Além dos impasses tecnológicos, os especialistas alertam para os impactos do uso de neuropróteses na saúde mental dos usuários. Júlio Saldaña, do grupo ICONE de inteligência computacional, da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), cita o caso de uma paciente cega que participou de uma cirurgia para voltar a enxergar, mas não teve as suas expectativas atendidas.

 

“Eu considero isso, do ponto de vista tecnológico, um avanço impressionante. Porém, algum tempo depois, a paciente decidiu retirar o implante e manifestou problemas de depressão ocasionados pela expectativa não satisfeita. Ela achava que, com o implante, poderia voltar a ver normalmente, mas o dispositivo a permitia enxergar imagens em preto e branco, de forma pixelada”, relata o especialista.

 

Preocupação parecida foi escrita no artigo publicado na revista Science. “Nós não queremos exagerar os riscos nem criar falsas esperanças nas pessoas que podem se beneficiar das próteses”, disse John Donoghue, diretor do centro suíço de pesquisa Wyss e um dos autores.


Qualidade de vida

Segundo um estudo publicado, em janeiro, na revista Plos Biology, existem registros confiáveis de apenas quatro pessoas com paralisia total — incluindo os movimentos dos olhos — que utilizaram interfaces neurais para responder perguntas simples, com sim ou não. O mesmo estudo afirma que a qualidade de vida desses pacientes, segundo eles próprios, é surpreendentemente alta.

 

Para os autores, tecnologias do tipo podem ajudar pessoas com doenças degenerativas a tomarem decisões melhores. “Nós encorajamos um conhecimento melhor de saúde e neurologia na sociedade”, escreveram no artigo que tem Ujwal Chaudhary, da Universidade de Tübingen, na Alemanha, como autor principal. “Cada cidadão deve ser provido do entendimento básico necessário para uma escolha informada. Isso inclui informação pública, na escola e na formação dos professores. Esses dispositivos restauram a autonomia e a qualidade de vida de muitos indivíduos, mas a sua capacidade e os efeitos a longo prazo no cérebro e na mente ainda não estão claros”, completaram.

 

Referência na área, o neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis também aponta a qualidade de vida como ganho dos usuários de interfaces cérebro/máquina. Ele trabalha há quase 20 anos no desenvolvimento de soluções do tipo para reabilitação motora de pessoas com paralisia causada por danos neurológicos. Um dos avanços mais conhecidos do trabalho se deu na abertura da Copa do Mundo no Brasil, quando o usuário de um exoesqueleto conseguiu chutar uma bola. A expectativa da equipe é de que o dispositivo mude a conduta no tratamento dos pacientes com lesão medular, estimados em 25 milhões de pessoas no mundo.

 

*Estagiário sob supervisão de Carmen Souza  

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