40% das imagens manipuladas não são percebidas pelas pessoas, diz estudo

Especialistas alertam para os perigos individuais e coletivos desse tipo de falsificação

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postado em 21/08/2017 08:00

A manipulação de fotos, há poucos anos, restringia-se aos especialistas. Antes das imagens digitais, ela era feita recortando e colando pedaços de filmes fotográficos para fabricar uma cena. Usava-se até pintura à mão. Quando surgiram as imagens computadorizadas, editores recorriam a softwares caríssimos e computadores potentes para fazer essas alterações. Hoje, você pode editar uma foto na tela do seu celular.

A facilidade, porém, trouxe perigos. Os programas de edição avançaram tanto que é muito difícil distinguir o que é real e o que é manipulado em uma foto. E mais: uma montagem não precisa ser profissional para enganar os nossos olhos. Um estudo publicado recentemente na revista Cognitive Research: Principles and Implications quantifica o problema e aborda os possíveis impactos dele.

Segundo o artigo, apenas 60% das imagens manipuladas são descobertas pelos seus observadores. Para chegar à conclusão, os pesquisadores da Universidade de Warwick, no Reino Unido, realizaram dois experimentos em que voluntários tinham que avaliar a veracidade de imagens. Apesar do resultado parecer uma porcentagem alta, ele fica pouco acima do acaso: se os participantes chutassem todas as respostas, o número seria próximo de 50%, segundo os autores. Considerando a grande quantidade de fotos a qual estamos expostos diariamente, porém, a estatística passa a merecer atenção.

Além disso, o uso de imagens falsas como provas em julgamentos, nas redes sociais, em jornais e em anúncios publicitários pode gerar repercussões sérias aos envolvidos. Segundo os pesquisadores, o público precisa ser crítico em relação ao que vê, mas a solução vai além disso: as instituições que usam fotos frequentemente devem adotar regras rígidas para garantir a veracidade delas.

“Imagens falsas têm implicações em quase todos os domínios, desde a aplicação de lei e segurança nacional a publicações científicas, política, mídia e publicidade”, ressalta a líder do estudo, Sophie Nightingale, do Departamento de Psicologia da Universidade de Warwick. A pesquisadora recorre às implicações jurídicas para ilustrar o impacto das imagens manipuladas. “Por exemplo, no caso da aplicação da lei, não é incomum que a veracidade de uma foto seja decidida por uma pessoa. Considerando que a nossa pesquisa sugere que as pessoas têm dificuldades para detectar imagens manipuladas, confiar nelas pode ter consequências graves e levar a aplicações erradas da Justiça.”

Alterações comuns


O estudo contou com dois experimentos parecidos, feitos por meio de questionário on-line em que os participantes tinham que avaliar a veracidade de 10 fotografias, sendo que apenas metade delas era original. No primeiro experimento, 707 voluntários tiveram que localizar o objeto suspeito nas fotos que julgaram manipuladas. No segundo, 659 pessoas foram orientadas a apontar um objeto suspeito em todas as fotos. Nesse caso, a intenção era avaliar se um estudo mais cuidadoso poderia melhorar as chances de se detectar corretamente as montagens.

Os pesquisadores usaram, nas imagens, quatro tipo comuns de manipulação: a airbrushing – retoques em uma foto, principalmente para remover imperfeições em rostos; a adição ou a exclusão de objetos; a apresentação de objetos em formas fisicamente impossíveis; e o uso de sombras em direções impossíveis.

Os resultados dos dois experimentos foram consistentes, e cerca de um terço das manipulações não foi percebida pelos participantes. Além disso, mesmo quando as montagens foram descobertas, em 55% das vezes, os voluntários não conseguiram identificar o que havia sido alterado. “Existe um grande número de pesquisas que demonstram claramente a poderosa influência que as fotos podem ter na memória, na crença e no comportamento das pessoas. Um exemplo recente foi o inocente Veerender Jubbal, cuja selfie foi editada para fazê-lo parecer com um terrorista e essa imagem se espalhou on-line”, diz Sophie Nightingale.

A imagem falsa do canadense foi largamente divulgada após os ataques de novembro de 2015 em Paris, que incluiu o tiroteio na casa de shows Bataclan. Ela chegou até a ser publicada na capa de um dos maiores jornais da Espanha, o La Razón, com a legenda “um dos terroristas”. O impacto da montagem foi tanto que Veerender recebeu diversas ameaças de morte.
“No caso dos jornais, temos o grande problema das notícias falsas. Se não detectada, uma notícia falsa poderá tomar proporções não imaginadas”, diz Anderson Rocha, professor do Instituto de Computação da Universidade de Campinas (Unicamp). Ele trabalha no Laboratório de Inferência em Dados Complexos da universidade no desenvolvimento de algoritmos capazes de detectar manipulações.

O especialista ressalta que, nas redes sociais, há o efeito do fator multiplicador. “Uma vez publicada e não verificada, a imagem de alguém poderá ser denegrida e o dano pode ser muito sério”, alerta. “Além dos casos citados, há as falsificações em publicações científicas. Muitos autores falsificam resultados, gerando perdas de milhões e milhões aos cofres públicos e levando à criação de remédios ineficazes ou mesmo danosos à saúde.”

Nem retoque

Muitos casos envolvem manipulações complexas e criadas intencionalmente para enganar o observador, mas mesmo os retoques podem ser prejudiciais, alerta Sophie Nightingale. “Pesquisas mostram que esses padrões de beleza difíceis de serem atingidos, se não impossíveis, podem levar a problemas psicológicos e colocar pessoas em risco de desenvolver comportamentos perigosos de exercícios e alimentação”, explica.

O que preocupa é que esse tipo de manipulação se espalha de forma descontrolada nas redes sociais, nas publicidades tradicionais e nas feitas pela internet. “O público é constantemente bombardeado com fotos de modelos e celebridades impossivelmente magras, sem rugas e sem espinhas. O que é pior: o uso de edição de fotos é, agora, disponível para a maioria das pessoas. Até celulares vêm com poderosas ferramentas de edição”, diz a pesquisadora.

Não é incomum que a veracidade de uma foto seja decidida por uma pessoa. Considerando que a nossa pesquisa sugere que as pessoas têm dificuldades para detectar imagens manipuladas, confiar nelas pode ter consequências graves e levar a aplicações erradas da Justiça”
Sophie Nightingale, do Departamento de Psicologia da Universidade de Warwick e líder do estudo
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