VIETNÃ

Bastidores: base utilizada durante a guerra chama atenção de turistas

Os túneis usados pela guerrilha de vietcongues que derrotou os EUA têm 240 quilômetros e eram verdadeiras cidades subterrâneas. Eles podem ser visitados no Parque Memorial da Guerra, mas é preciso ter disposição

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postado em 12/08/2015 19:01 / atualizado em 12/08/2015 19:01

Bertha Maakaroun

O inferno, um dia, foi aqui. E atualmente atrai os amantes, curiosos e interessados em histórias de guerra, que querem conhecer de perto — sob a perspectiva oriental — os bastidores do conflito entre vietcongues e o Exército do Norte vietnamita contra os Estados Unidos, o Vietnã do Sul e forças aliadas internacionais. A viagem começa no complexo dos túneis Cù Chi, localizado no distrito de Ho Chi Minh, base de operações dos vietcongues em diversas ofensivas, entre elas a Ofensiva Têt (1968), a maior e mais ampla de todas as batalhas.

Os túneis integram o Parque Memorial da Guerra Ben Duoc de Cù Chi. Idealizados pelo general Vo Nguyen Giap, começaram a ser construídos no fim dos anos 1940 como base da guerrilha que insurgiu contra a colonização francesa, após a eclosão da Primeira Guerra da Indochina. Cavados a pás pelos moradores locais — e transformados em ícone da resistência humana no enfrentamento às adversidades —, eles não pararam de ser expandidos ao longo dos 25 anos seguintes.

Durante o sangrento combate contra a presença americana que se seguiu à expulsão dos franceses, os túneis alcançaram cerca de 240 quilômetros de extensão, talvez mais, e em alguns lugares com até quatro níveis de profundidade. As fortificações da guerrilha que derrotou o Exército mais poderoso do mundo se alastraram desde os arredores da antiga Saigon até a fronteira com o Camboja. Interligavam vilas e aldeias e bases de apoio. Mais de 45 mil vietnamitas, entre homens, mulheres e crianças, morreram na defesa desta engenhosa cidade subterrânea, que também servia de abrigo antiaéreo contra bombardeios norte-americanos, mantinha quartos, cozinhas, salas de reuniões e hospitais.

“Quer conhecer as entranhas da guerra?”, indaga a guia Loren. Pessoas claustrofóbicas não devem sequer tentar. A experiência underground é para os fortes. Quem decide mergulhar na imensa rede de corredores entende por que os soldados norte-americanos, apelidados de “ratos de túneis” na década de 1960, fracassaram na tentativa de desativar a cidade subterrânea e “desentocar”a resistência vietcongue ali abrigada. A começar pela altura das passagens, inapropriada para homens de estatura ocidental e, em alguns pontos, de estreitíssima passagem de um nível a outro. Mesmo rastejando, a locomoção interna é penosa.

Uma variedade de métodos foi empregada, em vão, pelas forças americanas na área de Cù Chi, conhecida como Triângulo de Aço, para encontrar as entradas camufladas e os respiradouros travestidos de casas de cupim.

Estratégias de defesa
Bertha Maakaroun/Divulgação

Setenta e seis milhões de litros de agente laranja foram lançados em ofensiva química sobre a área: os efeitos são sentidos até hoje. Estima-se em 5 milhões os filhos e netos da geração que viveu a guerra. Foram detonadas sobre o Vietnã 14,3 milhões de toneladas de bombas e obuses, número quase três vezes maior do que os EUA lançaram na Segunda Guerra Mundial. Mas a resistência vietcongue seguia em ataques surpresa mortíferos, que saltavam do fundo da terra e desapareciam sem deixar rastros.

“Quando os inimigos começaram a usar pastores-alemães para localizar vietcongues, os combatentes passaram a se lavar com sabonete americano e a empregar uniformes capturados para confundir os cães”, explica a guia Loren. Nas palavras do general Giap, falecido em 2013, aos 102 anos, em Hanói: “Foi a guerra do pequeno contra o grande, das armas artesanais contra as armas modernas. A guerra de guerrilha é o meio pelo qual um país fraco e pouco equipado pode insurgir contra um Exército agressivo e possante”.

Ofensiva do tet
Desencadeada em 30 de janeiro de 1968, no feriado de Tétis — novo ano lunar vietnamita —, foi a mais ampla ofensiva militar conduzida por cerca de 80 mil vietcongues e membros do Exército Vietnamita do Norte contra os Estados Unidos, seus aliados e as forças do Vietnã do Sul. Foi uma campanha de ataques surpresa contra militares e o comando civil por todo o território do Vietnã do Sul, num momento em que o governo norte-americano e a opinião pública haviam sido levados a crer, pelas autoridades militares dos EUA, que os comunistas estariam, em decorrência de derrotas sucessivas, incapazes de reagir e de protagonizar um ataque significativo. A vitória da ofensiva foi mais política do que propriamente militar: o movimento antiguerra nos Estados Unidos ganhou corpo e voz na proporção em que eram denunciadas as atrocidades cometidas pelo Exército naquele país, o que levou à retirada norte-americana cinco anos depois e a completa vitória vietnamita em 1975.


Presença americana
O mundo vivia o auge da Guerra Fria, quando, por resolução da Conferência de Genebra em 1954, após a expulsão dos colonizadores franceses, o Vietnã foi dividido no paralelo 17, a pretexto de eleições gerais para 1956 que nunca ocorreram. O Vietnã do Norte, de orientação socialista, se tornou a República Democrática Comunista do Vietnã, com capital em Hanói, sob o comando de Ho Chi Minh. O Vietnã do Sul, de orientação Ocidental e anticomunista, com capital em Saigon, foi dirigida por vários líderes aliados dos Estados Unidos
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