Cachaça

Muita fama, pouca estrutura: a capital brasileira da aguardente

Salinas, no norte de Minas, produz a famosa Havana, pinga artesanal, especial por ser feita em alambique. A cidade abriga o museu temático da bebida

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postado em 07/02/2016 09:00

Prefeitura de Salinas/Divulgação

Não é só por produzir um dos ícones do universo da aguardente de cana que Salinas é chamada de “Capital da Cachaça”. Além da icônica Havana, algumas das melhores marcas do país saem dos mais de 80 alambiques da região. Mas, ao mesmo tempo em que é referência de sabor e qualidade, o norte de Minas carece de estrutura para estimular o turismo. É o que garante o presidente da Associação dos Produtores Artesanais de Cachaça de Salinas, Aldeir Xavier de Oliveira. “Vejo que as propriedades ainda estão muito tímidas para acolher o turista. Uma ou outra fazenda recebe visitantes, mas a maioria não está pronta.”

Mas se o interesse é conhecer a fazenda onde são produzidas as renomadas Havana e Anísio Santiago, fique tranquilo. Com agendamento, é possível visitar a propriedade. E essa é a maneira mais indicada para observar o universo das cachaças de Salinas: com engajamento. É preciso pesquisar, ligar, marcar hora. Na maioria dos alambiques, é a própria família de produtores que acompanha o interessado durante o passeio, que, se peca por um lado pela falta de estrutura, ganha em genuinidade.

Salinas conta com o Museu da Cachaça, que, depois de um período fechado, reabriu em agosto de 2015. Em outubro, é promovido o Festival Mundial da Cachaça de Salinas. Além de feira de negócios, espaço para degustação, há apresentações musicais.

Beto Novaes/EM/D.A Press

Para José Lúcio Mendes Ferreira, especialista na bebida e organizador da Expocachaça, evento que há 19 anos fomenta o setor, os produtores têm que se organizar e seguir o modelo das pequenas destilarias europeias. Ele conta que já começou a organizar um projeto de estímulo ao turismo relativo à bebida. Ferreira considera que os donos de alambiques deveriam se propor a ser mais uma alternativa de passeio em rotas turísticas já conhecidas no Estado.

Para ele, as pequenas propriedades poderiam ter alguns poucos quartos para hospedar o turista e deveriam trabalhar com a comunidade para valorizar não somente a cachaça, mas os outros produtos locais. “Temos que pensar na cachaça como o indutor, que traria a pessoa para dentro da sua estrutura. Lá, o produtor pode ter poucos quartos e uma pequena loja com produtos da região. Além da hospedagem, ele tem que oferecer outros passeios, como visita a uma cachoeira, por exemplo”, conclui.

Caminhos da pinga

 

São muitos os possíveis roteiros da cachaça. Em Minas, então, é difícil ter um passeio definitivo. Qualquer região, cidade, distrito ou vilarejo do Estado tem um pequeno produtor rural que fabrica o destilado. E cada alambique traz sua identidade própria, seu sabor característico e história. Mas não se trata de ir conhecer qualquer produção. O interessante é procurar as pingas de qualidade, brancas ou amarelas, fabricadas de forma artesanal e em alambiques de cobre. Em cada região de Minas, a bebida apresenta suas individualidades.

 

Maria Tereza Correia/EM/D.A Press
 

Seguindo o caminho da exploração do ouro, de Tiradentes a Ouro Preto, encontram-se as cachaças mais amareladas, envelhecidas em barris de carvalho. Já no norte, no eixo Januária-Salinas, são as madeiras brasileiras que agregam valor único ao produto. Um dos passeios mais conhecidos no universo da pinga é o Parque Ecológico e Alambique Vale Verde, em Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Prestes a completar 13 anos de história, já se tornou um dos empreendimentos turísticos mais importantes da Grande BH.

 

Projetado para ser um ambiente de lazer familiar, o parque conta com viveiros de animais, trilha ecológica, pedalinho, tirolesa, arvorismo, escalada e muitas outras atrações, em mais de 300 mil metros quadrados. Mesmo com todas essas outras atividades, a visita ao processo de produção sustentável das cachaças Vale Verde e Minha Deusa e ao museu que conta a história da bebida são o carro-chefe do empreendimento.

Em outras localidades, mas de maneira incipiente ainda, alguns produtores começam a investir em pousadas e outras atrações para os visitantes. É o caso dos alambiques próximos a Ouro Preto, que fazem parte do circuito turístico da Estrada Real.

 

Beto Novaes/EM/D.A Press
 

Presidente da Associação Mineira dos Produtores de Cachaça de Qualidade e proprietário da marca orgânica Lukana, Trajano Raul Ladeira de Lima diz que, além da própria fazenda, outras já têm pousada para receber os visitantes. Ele produz sua cachaça em Santo Antônio do Leite, distrito de Ouro Preto, e indica outros alambiques na região que também começam a investir em infraestrutura para o turismo. É o caso da Gota de Minas, que fica em Amarantina; a Chão de Minas, em Cachoeira do Campo; e a Cobiçada de Minas, em São Gonçalo do Bação.

 

Sustento de várias gerações


“Ainda é pouco explorado, mas já está começando. Recebo em minha propriedade visitantes do Rio e de São Paulo. A vantagem de Ouro Preto é que existe uma concentração muito grande de produtores próximos uns aos outros, além de todas as atrações turísticas da região. São cachaças de alambique de cobre, elaboradas de forma artesanal. É possível acompanhar todas as etapas do processo, do plantio ao engarrafamento”, explica Trajano.

 

Ainda na região central do estado, mais especificamente no Campo das Vertentes, a pacata Coronel Xavier Chaves, popularmente chamada de Coroas, tem dois alambiques com histórias bem diferentes, mas que produzem cachaça de alta qualidade. Uma é a Século XVIII, engenho mais antigo em atividade no país. A propriedade pertenceu ao irmão de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, e até hoje é tocada por descendentes do inconfidente. “Nossos filhos são a oitava geração da família no alambique. Todo o processo é artesanal e muito caprichado. Ela é branca e não passa por envelhecimento em madeira. Digo que a Século XVIII é a cachaça que não tem vergonha de ser cachaça”, conta Cida Chaves, que, com seu marido, Rubens Resende Chaves, está há mais de 30 anos no comando da destilaria. Já a Jacuba, é bem mais nova. Há 12 anos, a marca é destilada no hotel-fazenda Bela Vista, que consegue unir o conforto do campo com o turismo cultural.

 

Renato Weil/EM/D.A Press
 

Circuito turístico
A Estrada Real é um dos maiores circuitos turísticos do Brasil. Com cerca de 1.600km, começou a ser construída no século 17 para ligar o litoral carioca às regiões produtoras de ouro do interior de Minas. Ao todo, são 177 cidades no entorno da Estrada Real, sendo 162 em Minas Gerais, 8 no Rio de Janeiro e 7 em São Paulo.
 

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