Bela terra: cidade paraense foi palco da extração de látex no século 20

Planejada por Henry Ford, na Amazônia, Belterra foi criada para dar apoio à atividade extrativista. Comunidades próximas reinventaram o trabalho nos seringais a partir do artesanato. A natureza em volta é fascinante

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postado em 21/08/2016 10:00 / atualizado em 30/08/2016 17:10

Paulino Menezes/MTur


Passear por Belterra — abreviação de “bela terra”, segundo os nativos — é esbarrar com o inusitado em cada esquina. Projetada para servir de apoio à extração de borracha no oeste do Pará em 1932, a cidade guarda cicatrizes de um abandono econômico de mais de oito décadas. Ao longo das ruas de terra úmida típicas da Região Amazônica, a atmosfera tende ao contrário: à secura e ao isolamento do deserto.

Quem está hospedado em Santarém, do outro lado do Rio Tapajós, ou em cidades próximas, pode reservar algumas horas para conhecer o legado da Ford Motor Company na região (confira Para saber mais). O passeio deve ser feito, de preferência, com um guia turístico. O serviço é oferecido por várias agências de viagem instaladas em Santarém.

Comece pela Praça do Seringueiro, no centro da cidade. Ela separa a Igreja de Santo Antônio da Igreja Batista, construída pelos americanos que chegaram para trabalhar na cidade. Um campo de golfe ficava entre os templos, mas foi substituído por um parque infantil e uma estátua que representa os trabalhadores dos seringais.

 

Paulino Menezes/MTur
 

 

Siga a pé pela Rua Mensalista — atrás da Igreja de Santo Antônio — para comprovar que a arquitetura típica dos Estados Unidos foi à Amazônia para ficar. A Vila Americana — conjunto de casas amplas que serviam de moradia ao alto escalão da Ford — e a hospedaria conhecida como Paz e Amor, destinada aos trabalhadores solteiros, mantiveram as cores e o material com que foram construídas, mas não acompanharam a passagem do tempo com vitalidade.

Ainda que integrem a área mais nobre de Belterra, parte dos edifícios da vila abriga cães de rua, teias de aranha e poeira de décadas de desuso. Na mesma avenida, o antigo escritório da Ford dá lugar à prefeitura municipal. Quando a caminhada chega ao fim, a vista para o Rio Tapajós a partir de um mirante é a recompensa.

Sustento retirado do látex
Na comunidade de Maguari, a 40 quilômetros de Belterra, a atração principal é o contato com um estilo de vida simples, baseado no extrativismo. O território da Floresta Nacional do Tapajós (Flona), lar de mais de 300 pessoas, é uma unidade de conservação ambiental gerida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Aberta para visitas turísticas, a comunidade é um ótimo lugar para conhecer as propriedades do látex e os segredos da Floresta Amazônica em uma trilha feita na mata. Por meio do artesanato, os nativos reinventam a matéria-prima que, no passado, servia às indústrias.

Paulino Menezes/MTur
A visita começa na selva. Para garantir o máximo de disposição aos visitantes, um café da manhã com direito a açaí e outras iguarias regionais é servido logo na chegada. Durante uma caminhada de três quilômetros, guiada por um morador, não se surpreenda com a presença de macacos de espécies variadas. Ainda que não cheguem perto do grupo, alguns deixam um mau cheiro característico pelo caminho. A chuva também pode cair a qualquer momento — um alívio para quem estiver sofrendo com o calor abafado da selva. Em meio a tanta umidade, as roupas demoram a secar. Portanto, além do básico — água, protetor solar, repelente e câmera fotográfica — leve peças extras, para não passar apuros.

Flores e plantas também podem ser observadas no caminho. O guia explica as peculiaridades de cada uma. As seringueiras, personagens principais da jornada, ganham sulcos adicionais para demonstrar como é feita a extração de látex ainda hoje. Uma árvore pode gerar, por dia, 300 mililitros do material. Para garantir que a seringueira cresça com saúde, os cortes são intercalados. Logo, uma área cortada hoje ficará por pelo menos um ano sem novas intervenções. Feito isso, o líquido branco escorre e é armazenado em vasilhas. O látex é utilizado na confecção de bijuterias, bolsas, carteiras e sandálias. Os objetos têm um cheiro marcante, mas são bem originais. (Rafaella Panceri viajou a convite do Ministério do Turismo)

Nas proximidades

Praia de Aramanaí
Na região banhada pelo Rio Tapajós, os mergulhos não se limitam às águas mornas. Quem vai à Praia de Aramanaí, em Belterra pode tomar banho frio no Igarapé do Encantado. A paisagem impressiona: em conjunto com construções de madeira cobertas por palha, a água azulada do Tapajós cria um cenário paradisíaco, que lembra os balneários caribenhos. Aproveite para almoçar no local. O Restaurante Sereia também funciona como hospedaria.

 

Paulino Menezes/MTur

 

Onde comer
Restaurante Sereia — (93) 99186-9336

Floresta Encantada

No fim da tarde, aproveite para relaxar na copa das árvores. Isso mesmo: na comunidade do Caranazal, a 100km da Praia de Aramanaí, há um quintal alagado que chama a atenção durante o inverno. Com a subida das águas, o que era floresta vira igapó — floresta submersa. Os turistas podem passear de canoa durante uma hora, ouvir o barulho dos pássaros ou se deleitar com o silêncio. Passeio de canoa: R$ 30. O barco tem capacidade para quatro pessoas.

Memória
» Para conhecer a história do município a fundo, visite o Centro de Memória de Belterra, iniciativa de moradores para recuperar e narrar o passado da cidade. A casa pertenceu a um médico na década de 1930 e reúne vários objetos do período.
» Aberto de terça a sexta, das 8h às 12h e das 13h às 17h.
» Mais informações no site: www.memoriabelterra.blogspot.com.br

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