COREIA DO SUL

Memórias de guerras: os conflitos ajudam a entender a história sul-coreana

Preservar a história é uma prioridade para o povo. O passado de batalhas explica como o país se transformou na grande potência atual

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postado em 26/08/2016 10:00

 

Gabriela Walker/CB/D.A Press

É impossível tentar entender o que é a Coreia do Sul hoje sem conhecer, ao menos um pouco, seu envolvimento em guerras e conflitos regionais. Apontado por turistas como um dos locais mais interessantes para se visitar em Seul, o Museu da Guerra reúne em um amplo espaço cerca de 33 mil artefatos, que ajudam a documentar o passado e o presente bélico do país. No museu podem ser vistos tanques, aviões e armas, além de fotos e filmagens de batalhas de diferentes épocas.

Visitantes podem participar da simulações que, apesar do contexto, parecem sair de um parque de diversões. É possível experimentar como seria o voo de um F-15 Slam Eagle, manufaturado pela Boing para a Força Aérea Coreana, e ter ideia sobre a sensação de atirar com rifles K-2. O museu também oferece uma série de atividades culturais e mantém uma área especial para crianças, com brinquedos e desenhos que ressaltam a independência do país e heróis de guerras antigas.

Nas paredes da exposição permanente sobre a Guerra da Coreia, são lembrados todos os países que ajudaram Seul no confronto contra a vizinha do norte, com o envio de soldados, doações de equipamentos, remédios ou dinheiro. As circunstâncias da guerra e suas consequências, são coisas que os mais velhos fazem questão de não esquecer. Em tours agendados, visitantes podem ser acompanhados por veteranos, que revelam memórias dos momentos mais difíceis da história coreana. A visita ao museu, gratuita, é, sem dúvida, um programa imperdível para quem tem interesse em saber um pouco mais sobre a península coreana e sua relação com os países que a cercam.

 

Em estado de alerta

 

A DMZ, ou Zona Desmilitarizada, foi criada em 1953, com a assinatura de um armistício entre as Coreias do Norte e a do Sul, que, tecnicamente, continuam em guerra. A faixa ocupada tem 240 km de extensão e 4km de largura e, apesar do nome, é uma das regiões mais militarizadas do mundo.

 

Rodrigo Craveiro/CB/D.A Press


Desde que foi instalada, teve alguns incidentes com vítimas. O local foi descrito pelo ex-presidente dos Estados Unidos,  Bill Clinton, como o “mais assustador do mundo”. Apesar disso, o interesse de turistas nacionais e estrangeiros em conhecer a DMZ é crescente e cerca de cinco milhões visitam o local anualmente.

A entrada na DMZ é restrita a tours,organizados por várias agências em Seul, e o percurso é acompanhado por um militar. O passeio deve ser marcado antes de chegar à Coreia. Isso porque, por questões de segurança, cópias do passaporte são exigidas pela organização e as reservas precisam ser confirmadas no mínimo três dias antes da visita.

O valor das excursões varia de acordo com o passeio e custam a partir de 40 mil wons, o equivalente a R$115, podendo chegar a 130 mil wons (cerca de R$373) para os tours mais completos.

No observatório Dorasan, um dos principais pontos de parada, é possível ver a linha de trem que liga as capitais Seul e Pyongyang. A cidade foi símbolo de cooperação entre os países. Em fevereiro deste ano, foi desativada em represália a um teste nuclear realizado pelo regime de Pyongyang.

 

Rodrigo Craveiro/CB/D.A Press
 

 

Desde novembro de 1974, militares sul coreanos descobriram quatro túneis subterrâneos cortando a DMZ. Acredita-se que foram feitos para um ataque contra o sul e que outros permanecem desconhecidos das autoridades.

Três túneis estão abertos para visitação. Descoberto em 1978, o terceiro túnel está a  52km de Seul. Ao todo, tem 1,635m de cumprimento, 2m de altura e 2m de largura. Pessoas com dificuldade de locomoção  podem seguir de trem até o ponto final. A pé, a descida íngreme é feita em rampas e leva cerca de 20 minutos. O segundo túnel, descoberto em 1975, por onde 30 mil soldados poderiam passar por uma hora, e o quarto, descoberto em 1990, onde há equipamentos norte-coreanos.

 

Experiência de quase batalha

 

Atrás do prédio, está o último bastião da Guerra Fria. O primeiro contato causa perplexidade. Diante de uma das três construções azuis erguidas pela Organização das Nações Unidas, três militares sul-coreanos do Batalhão do Comando de Segurança da ONU. Usam óculos escuros e trazem uma expressão impassível. Todos têm o corpo voltado para um grande edifício ao fundo, guardado por um soldado norte-coreano. A linha de concreto no solo demarca o exato ponto da fronteira entre a Coreia do Sul e a Coreia do Norte.

 

Rodrigo Craveiro/CB/D.A Press
 

 

Dentro da casa azul da esquerda, ficam sempre mais dois militares sul-coreanos: um deles, parado na cabeceira da mesa onde o tenente-general William Harrison Jr. — representando o Comando das Nações Unidas — e o general norte-coreano Nam Il assinaram o Acordo de Armistício Coreano, em 27 de julho de 1953, interrompendo uma guerra que matou 3 milhões de pessoas. O outro vigia a porta dos fundos, por onde se acessa a Coreia do Norte. Apenas militares têm a autorização para atravessá-la. Um colega jornalista, após registrar imagens do entorno, é repreendido pelo soldado anfitrião e tem a câmera vasculhada, com as fotos apagadas.

Retornamos ao ônibus, que segue por uma estrada sinuosa, ladeada por floresta. Em determinado ponto, se avista os dois mastros imponentes com as bandeiras da Coreia do Norte — o quarto mais alto do mundo — e do Sul. Eles se erguem, respectivamente, a partir dos vilarejos de Kijong-dong e de Daeseong-dong, separados por apenas 2,2km. Uma das funções dos soldados da JSA é proteger os moradores do lado sul-coreano.

Pouco à frente, paramos ao lado de uma gigantesca estrutura branca, a qual não se tem autorização para fotografar. Estacas brancas fincadas ao solo indicam a fronteira. Não há qualquer sinal de vida ou de construções erguidas nos últimos 60 anos ao longo de 2km a cada lado da divisa — é a chamada zona de segurança ou zona-tampão. Do mirante, é possível avistar Kijong-dong, a cadeia de montanhas da Coreia do Norte e, a alguns metros de onde estamos, a famosa Ponte Sem Retorno.

 

Rodrigo Craveiro/CB/D.A Press
 

 

A paisagem, aparentemente bucólica, destoa do som que vem do vilarejo norte-coreano. A todo o momento, mensagens transmitidas por meio de alto-falantes enaltecem a figura de Kim Il-sung, fundador do país comunista. O tom de voz é claramente desafiador e intimidatório. No regresso à Casa da Liberdade, passamos por dois imensos tanques de guerra estacionados e por trincheiras. Uma lembrança de que a paz no local ainda não ultrapassou a fronteira das aparências.

 

Para visitar a DMZ:

Os tours ocorrem de terça-feira a sábado. Há dias em que a visita é vetada.

Um intérprete em inglês ou japonês acompanha o grupo.

Para fazer a reserva, é necessário o número do passaporte, a nacionalidade e o número de contato, até quatro dias antes da realização do passeio.

Preço aproximado: 85 mil korean won (cerca de US$ 72)


Contato: tourdmz@tourdmz.com
 

Os repórteres viajaram a convite da Embaixada da Coreia do Sul e da TV Arirang

 

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