JORDÂNIA

No deserto de Wadi Rum, a Hejaz Railway traz histórias de ataques aos trens

Em um dos passeios, é possível conhecer pontos por onde passava a ferrovia, a única que cortava a região

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postado em 09/12/2016 09:00

Mike Bishop/CB/D.A Press

Wadi Rum está associado a três nomes na história do sonho árabe de fundar um estado unificado desde Alepo, na Síria, estendendo-se a Áden, no Iêmen: o Xerife de Meca Hussein, da dinastia Hachemita; Auda Abu Tayi, líder beduíno, chefe dos Howeitas; e o galês Thomas Edward Lawrence, do Bureau Árabe do Império Britânico. Iniciada em 1916, a Revolta Árabe selou o fim do domínio do Império Turco-Otomano na região, abrindo caminho para o domínio dos britânicos e franceses.

 

Foi na dinâmica do conflito árabe-turco que Lawrence da Arábia introduziu na região táticas dos chamados “ataques terroristas”: miravam os trens da única ferrovia que cortava a região, a Hejaz Railway. Construída a partir de 1900, com o apoio e a consultoria dos alemães, aliados do Império Otomano na 1ª Guerra Mundial.

As ações terroristas de Lawrence, as promessas dos ingleses de entronizar Hussein, rei do Hejaz, num projeto da nação árabe unida, e o dinheiro inglês, que atraiu os beduínos, selou a aliança entre as antigas tribos árabes rivais. Os três líderes ousaram atacar a importante cidade portuária de Aqaba pelo deserto, algo considerado militarmente impossível, pela adversidade do terreno que teriam de cruzar. Pegos de surpresa, os turcos perderam Aqaba e, com ela, o único porto que tinham na região. À queda de Aqaba, em 1917, seguiu-se a conquista de Damasco: os árabes penetraram e tomaram a cidade antes das tropas inglesas do general Allenby.

Os ingleses entraram na 1ª Guerra Mundial achando que na frente oriental seria um passeio. Mas sofreram duro revés dos turcos em 15 de agosto de 1915, na batalha entre navios britânicos e franceses contra a artilharia turca, no estreito de Dardanelos. Os ingleses e seus aliados tentaram melhor sorte em Gallipolli, numa planejada operação do então lorde do Almirantado Churchill. Não só foram derrotados, mas humilhados durante quase nove meses. Os ocidentais recuaram à noite, às escondidas, depois de perder 43 mil homens. As baixas ocidentais alcançaram 220 mil homens, numa campanha que projetou a maior liderança político-militar turca no pós-guerra, o general Mustafa Kemal, “Atatürk”. Ingleses e franceses tentaram derrotar os turcos uma terceira vez, em setembro de 1915. Dessa vez, o alvo era Bagdá. Foram cercados em Kut, e depois de tentar até subornar o comandante turco, tiveram de se render para não morrer de fome.

Fama
A campanha árabe foi a única “vitória inglesa” no conflito contra os otomanos e foi a única campanha em que as tropas regulares acabaram tendo papel secundário. Por isso, tão logo Damasco foi tomada, Allenby e o rei Faisal, filho de Hussein, se livraram de Lawrence, devolvendo-o à Inglaterra. Lawrence, entretanto, ganhou notoriedade com a obra Os setes pilares da sabedoria, em que narra a campanha da Revolta Árabe.

Não demorou muito para Hussein descobrir que as promessas inglesas valiam tanto quanto os seus exércitos: o Oriente Médio foi retalhado entre franceses e ingleses pelo acordo Sykes-Picot. Hussein tentou governar o Hejaz, mas foi destronado por seus inimigos sauditas. Aos seus dois filhos couberam os prêmios de consolação: Abdullah ficou com a Jordânia, que não tinha petróleo algum, nem água, sem a Palestina, entregue pelos ingleses aos judeus. A Síria foi “dada” a Faisal, mas, quando quis, de fato, governar, foi expulso pelos verdadeiros donos, os franceses. Os ingleses o acomodaram no recém-criado Iraque. Faisal, como se sabe, não durou muito, pois, ao contrário da Jordânia, o Iraque tinha petróleo e água. Terminou expulso de lá por militares árabes precursores de um movimento pelo qual ascendeu Sadam Hussein. Os árabes perderam o seu destino pelas mãos dos que os ajudaram a traçar.

De volta ao Império Britânico, o herói Lawrence submergiu por cargos menores no Exército e na Aeronáutica, evitando expor-se como celebridade que já era, até encontrar seu destino num acidente errático de moto. Afinal, como diria Friedrich Nietzsche, “nada acontece na vida de um homem que não se pareça com ele”.

Espinha dorsal
O principal propósito da Hejaz Railway foi estabelecer, com os seus quase 1.400 quilômetros de extensão, a conexão de Constantinopla (Istambul), capital do Império Turco-Otomano, à cidade sagrada de Meca. Mas em decorrência dos conflitos na região, não foi além de Medina, a 400 quilômetros de Meca. A ferrovia corta a região do Hejaz (a Oeste da Península Arábica), com um braço que se estende até Haifa, no Mar Mediterrâneo, e promoveria a integração econômica e política do Império Turco com as províncias árabes, também facilitando o transporte de forças militares e de suprimentos. Turcos tinham-na como fonte vital de abastecimento aos seus 10 mil homens em Medina. Por isso, a ferrovia tornou-se a espinha dorsal da campanha militar.

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