ECOLOGIA

Projeto Arara Azul chama atenção para conservação da natureza no Pantanal

O objetivo é proteger araras sob risco de extinção e desenvolver uma cultura de proteção do bioma

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 15/01/2017 09:00 / atualizado em 12/01/2017 17:47

Minervino Junior/CB/D.A Press

No alto dos capões, bosques de árvores e palmeiras que pontilham em toda a planície do Pantanal vivem e nidificam as araras-azuis, bem como as vermelhas e várias outras espécies de pássaros. No meio da natureza está o Projeto Arara Azul, que consiste na pesquisa, manejo e conservação da ave. Para executá-lo, biólogos, veterinários, assistentes, auxiliares de campo, fazendeiros e universitários unem forças, aliados ao conhecimento, para garantir a permanência da espécie. Iniciado em 1990 pela bióloga Neiva Guedes, conquistou resultados relevantes: hoje, a população de araras-azuis se expande no Pantanal e a área monitorada praticamente triplicou.

 

A base para trabalhos de campo está instalada no refúgio ecológico Caiman, localizado em uma fazenda de 53 mil hectares, na pequena cidade de Miranda, no Pantanal sul-mato-grossense. O local fica a 243km de Campo Grande, sendo 210 km de estrada de asfalto e 33km de estrada de chão. Lá, o trabalho, que mais parece uma grande aventura, começa ao nascer do sol. É nas primeiras horas da manhã, no momento em que a fome desperta e os bichos precisam comer, que os animais do Pantanal se mostram mais ativos e podem ser observados com facilidade.

No começo dos trabalhos, contabilizavam-se apenas 1.500 indivíduos da espécie. Calcula-se que, atualmente, a população na região supere 5 mil araras; 425 ninhos naturais cadastrados em 59 fazendas (mais de 400 mil hectares); 288 ninhos artificiais instalados em 15 fazendas; e mais de 300 ninhos manejados e recuperados.

 

Briga por ninho

Minervino Junior/CB/D.A Press

Uma única espécie de árvore, o manduvi, concentra até 95% dos ninhos da arara-azul. Por ter um cerne macio e suscetível à formação de ocos, essa é a árvore que elas preferem. As aves não começam um buraco, mas aumentam pequenas cavidades feitas por pica-paus, pela queda de galhos ou iniciadas por fungos e cupins. O buraco utilizado para o ninho é fundo e aconchegante, forrado com serragem que as araras beliscam da própria árvore.

Como é difícil encontrar cavidades naturais e há uma grande disputa com outras espécies, o projeto desenvolveu e instalou ninhos artificiais. Os primeiros vieram em 1997. “A taxa de ocupação foi pequena, mas atingiu o objetivo de conservação da espécie a curto prazo, porque parte deles foi tomada por araras vermelhas, tucanos, gaviões, corujas, patos selvagens e urubus, diminuindo a disputa por ninhos naturais”, destaca Neiva.

 

Perigo constante

Estima-se que, até a década de 1980, mais de 10 mil araras foram capturadas por traficantes de animais. A situação da espécie se agravou com o desmatamento, as queimadas e a caça realizada por índios que vendiam adornos feitos com penas. Hoje, embora o tráfico continue representando uma ameaça, já se constata uma redução significativa do comércio ilegal, principalmente na região do Mato Grosso do Sul, devido ao trabalho de conscientização realizado pelo Projeto Arara Azul.

No entanto, a atividade ilegal continua intensa em outras regiões do Brasil. Entre 2004 e 2006, cerca de 60 filhotes de araras-azuis foram retirados dos ninhos para o comércio de animais silvestres. Desses, 10 aves com menos de três meses foram apreendidos pela Polícia Federal, em Corumbá. O destino era Bolívia, Peru e, posteriormente, outros países.

Outro fator preocupante é o ataque de predadores que vivem na natureza. Para ajudar na identificação desses animais e evitar que eles cheguem aos filhotes, o projeto passou a utilizar câmeras. “Trabalhar com a natureza é como montar um grande quebra-cabeça. Sempre terá uma peça nova para encaixar. Com a ajuda da tecnologia, estamos conseguindo identificar alguns predadores. Infelizmente, esses ataques resultam em grandes impactos”, explica.

 

Contra o tempo

Em 2011, voaram mais filhotes dos ninhos artificiais do que dos naturais, o que reforça a importância desse trabalho para a conservação da biodiversidade. “A velocidade das perdas dos ninhos naturais é muito maior que o surgimento de novos ninhos, por isso, manejos realizados em ninhos naturais e artificiais para aumentar o número de cavidades disponíveis para as araras têm resultado positivo para a espécie. No último ciclo, o Instituto Arara Azul monitorou 151 ninhos, sendo 87 naturais e 64 artificiais”, aponta a bióloga Neiva Guedes.

A mudança de status da arara-azul na lista da fauna brasileira ameaçada de extinção, divulgada pelo Ministério do Meio Ambiente em dezembro de 2014, foi considerada uma grande conquista do projeto. Ainda assim, a espécie é citada como vulnerável na lista vermelha das espécies ameaçadas da União Internacional pela Conservação da Natureza (IUCN — International Union for Conservation of Nature). “Se a gente não cuidar, a arara-azul some em um segundo. Enquanto eu estiver viva, vou trabalhar em prol da conservação da espécie”, diz Neiva.

 

» Personagem da notícia

Bióloga em ação

Minervino Junior/CB/D.A Press

Era novembro de 1989 quando Neiva Guedes, bióloga que acabara de se tornar doutora, visitou o Pantanal sul-mato-grossense. A visão de um galho seco tomado por um bando de araras azuis despertou uma paixão à primeira vista. Neiva descobriu, no entanto, que aquelas lindas aves corriam o risco de desaparecer da natureza. Naquele momento, decidiu lutar pela conservação da espécie em seu habitat. Nascia, ali, o Projeto Arara Azul, que trabalha com a ajuda de voluntários, estagiários e tem o apoio de entidades e empresas, como a Fundação Toyota do Brasil.

 

Para saber mais

» O nome científico da espécie é Anodorhynchus hyacinthinus, popularmente conhecida como arara-azul, araraúna ou arara-preta
» Pode medir até 1m e pesar 1,3 kg
» Possui plumagem na cor azul-cobalto, degradê da cabeça para a cauda, sendo preta a parte inferior das penas, das asas e da cauda. Apresenta amarelo intenso ao redor dos olhos. O bico é grande, maciço, curvo e preto. A língua espessa e escura chama atenção pela faixa amarela nas laterais
» É o maior psitacídeo do mundo
» Na natureza, começa a se reproduzir com 8 ou 9 anos, formando casais fiéis e permanentes
» Coloca, em média, dois ovos de cada vez e, em geral, só um filhote sobrevive, ficando por 3 meses no ninho. Após esse período, começa a voar, mas continua dependente da alimentação dos pais até os 6 meses
» No Pantanal, sua alimentação é altamente energética, baseada apenas em castanhas de duas espécies de palmeira: acuri e bocaiúva
» Uma única espécie de árvore, o manduvi, concentra até 95% dos ninhos da arara-azul

 

* O repórter viajou a convite da Toyota

Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.