CONSCIENTIZAÇÃO

Quer incluir atrações com animais no roteiro? Não pense só em diversão

Programação turística com os bichos pode atrair visitantes que admiram a fauna, mas é preciso prestar atenção à prática de tratamentos cruéis contra eles

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 18/03/2017 10:00 / atualizado em 22/03/2017 17:20

Erik de Castro/Reuters

Muitos são os turistas que incluem atrações com animais nos roteiros de viagem. Segundo relatório da organização sem fins lucrativos World Animal Protection, são mais de quatro mil viajantes por ano. Mas o que é fonte de entretenimento para os seres humanos nem sempre é positivo para o bem-estar dos animais. O mesmo relatório estima que mais de 10 milhões de pessoas compram entradas para locais que promovem turismo cruel com diversas espécies de bichos selvagens.

 

“O turista nem sempre está ciente de que é prejudicial. A maioria escolhe ir nessas atrações por causa da admiração e do carinho com os animais”, explica Roberto Vieto, gerente de Vida Silvestre da World Animal Protection.

 

Para evitar atrações que praticam crueldades contra os bichinhos, o especialista alerta: “não pode ter contato direto com o animal, shows ou momentos em que o visitante alimenta os animais”. Os bichos que participam de espetáculos, por exemplo, são treinados para agir de forma não natural. Muitas vezes, para atingir o resultado esperado, os treinadores realizam práticas cruéis de castigo até que o animal aprenda.

 

Um relatório feito para a Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS), realizado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), destaca pontos negativos para os animais que fazem parte de atrações turísticas: mudança do habitat, comportamento e aspectos psicológicos dos animais. Ainda de acordo com a pesquisa, espécies que sofrem com perturbações constantes tendem a se alimentar e descansar menos, além de apresentar maiores níveis de estresse. As que não vivem em cativeiro ainda podem migrar para regiões que lhes proporcionam situação de vulnerabilidade.

 

Mudança do mercado

Em outubro do ano passado, os sites de viagem TripAdvisor e Viator deixaram de vender entradas para atrações em que o turista tivesse contato direto com animais mantidos em cativeiro ou ameaçados de extinção. As atrações que continuam anunciadas nos sites — como aquários, passeios a cavalo, programas voluntários em santuários e áreas de preservação — passam a ter um selo que redireciona o usuário a um site educacional. Na página, há informações sobre pontos relevantes em relação ao bem-estar do animal e a conservação de sua espécie.

 

Presença global

Segundo pesquisa da Unidade de Conservação da Vida Selvagem (WildCRU, em inglês) da Universidade de Oxford, na Inglaterra, atrações turísticas com animais selvagens representam entre 20% e 40% do turismo global, recebendo mais de três milhões de pessoas por ano. Dos turistas entrevistados que frequentam esses locais, apenas 7,8% acreditam que elas geram implicações negativas ao bem-estar dos animais.

 

Arquivo Pessoal

Uma vez e nunca mais 

Em 2015, Renata Bernabé, 23 anos, viajou para Buenos Aires com a irmã e decidiu incluir o Zoológico de Luján na programação. A escolha da atração, que fica a pouco mais de 60 km da capital argentina, foi feita depois de indicações de amigos da universitária. “Chegando lá, achamos bem estranho. Dentro da jaula, os tigres e leões ficam deitados em cima de uma mesa, e se você toca neles, eles não respondem ao estímulo. Pareciam sedados. Isso me incomodou.” Na jaula dos filhotes de tigre, a experiência foi um pouco diferente. “Para mim, eles não pareciam tão sedados quantos os adultos”, conta Renata.

Inaugurado em 1994, o Zoológico de Luján é uma das principais atrações turísticas próximas a Buenos Aires e, há muito tempo, se envolve em polêmicas relacionadas ao tratamento dos animais. A principal denúncia, nunca confirmada, é a de que os bichos são dopados para que se possa acariciar, dar alimento e tirar foto com os animais — entre elefantes, leões e tigres filhotes e adultos. De acordo com o zoológico, a experiência dos turistas é possível por causa da criação diferente dos animais: os felinos crescem com cachorros, por exemplo, para que “imitem” a afeição dos animais domésticos com os seres humanos.

O Zoológico de Luján não foi a única atração com animais que Renata visitou. Em uma viagem para Washington, nos Estados Unidos, a estudante esteve em um café onde era possível interagir com vários gatos. “Eu achei muito estressante para os animais. Era uma rotatividade muito grande de pessoas. Acho que quem pensou nessa ideia não achou que seria ruim, mas temos que levar em consideração as características de cada espécie.”

Após a visita, Renata não voltaria nem indicaria os dois lugares que visitou. “Acho que não devemos incentivar esse tipo de atração turística”, completa.

 

Dani/Flickr

Para acertar na escolha

Vieto explica que, para praticar um turismo consciente, é preciso procurar atrações de observação de animais. “São passeios feitos com guias, vendo os animais de longe, em silêncio, sem interagir com o eles”. Antes de ir a um zoológico, por exemplo, é interessante pesquisar se o local promove espetáculos com bichos ou maneiras de ficar em contato direto com algum deles. “Uma boa atração turística com animais faz o visitante se questionar por que os bichos estão ali e não na natureza. Não adianta ir só para tirar uma foto de um animal na jaula. É preciso que haja um momento para conscientização”, completa.

 

Não se cale

Ao visitar uma atração turística que não preze pelo bem-estar dos animais, é importante denunciar aos órgãos fiscalizadores. Mau-trato é um dos crimes previstos pelo Art. 32, da Lei Federal nº 9.605, de 1998.

 

Promotoria de Justiça do Meio Ambiente e delegacia de polícia: atos de crueldade contra animais

Linha verde do IBAMA: crimes e agressão ao meio ambiente. Informações: 0800-61-8080 ou linhaverde.sede@ibama.gov.br 

Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.