PRAGA

Capital da República Tcheca é uma das mais belas cidades no Leste Europeu

O tempo parece parado, até que o relógio astronômico atrai a todos com os movimentos de figuras que marcam as badaladas das horas.

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postado em 14/10/2017 10:00 / atualizado em 11/10/2017 15:57

Rudolf Vlcek/CB/D.A Press


Em expectativa, diante do Hotel de Ville, no coração da praça da Velha Vila — Staromestské Námestí —, pequenas multidões se reúnem diante do relógio astronômico para o espetáculo que a morte anuncia, não segundo a segundo, mas a cada hora. Ao esqueleto, aquilo que algum dia sobrará de nós, cumpre bater o sino e brandir a espada. A festa se inicia. Duas janelas se abrem, onze apóstolos e São Paulo, conduzidos por São Pedro, desfilam.


Outras personagens emblemáticas encravadas nessa preciosidade do século14, aperfeiçoada por Jan Taborsky entre 1552 e 1572,  abordam a natureza humana: a avareza, a vaidade, a guerra religiosa e, enfim, o apagar do palco, a morte. Celebram o tempo, o belo desenrolar da trama do relógio da vida.  E por paradigmático que seja, se Franz Kafka tinha razão, aquele que tem a faculdade de ver a beleza não envelhece.

Assim é a Velha Vila de Praga — Staré Mesto — indiscutivelmente, entre as mais belas do mundo. Praga nasceu de assentamentos celtas, estabelecidos entre os séculos 4 e 3 a.C.  Mas foi sobretudo a partir de 1355,  quando Carlos IV (1316-1378), rei da Boêmia e da Itália, foi coroado imperador do Sacro Império Romano (1355-1378).  Elevada à condição de capital do império, viveu o seu esplendor sob um patronato sensível à cultura e às artes, que  em 1348 havia fundado a Universidade de Praga. Se em uma das margens do Rio Vltava reina absoluto o Castelo de Praga e Hradcany, na outra impera a magnífica praça da Velha Vila. Monumentos, igrejas, palácios e fachadas de mansões multicoloridas, que mesclam estilos romano, gótico e rococó, saltam intactos, como que por mágica, de minuciosas gravuras e aquarelas dos séculos 18 e 19.

Nessa praça estão não apenas as marcas do tempo que passa, mas de séculos da história que fica, de uma turbulenta vida política. A começar pela rivalidade entre as populações tcheca e alemã, integradas pela burguesia e pela alta hierarquia eclesiástica, estopim, no século 15, da insurreição hussita. É dedicado a Jan Hus, um dos principais monumentos dessa praça, cuja posição de neutralidade no cisma papal (1309 a 1377) — crise que colocou Avignon em oposição a Roma — respaldava o então rei Venceslau IV, sucessor de Carlos IV, em desafio aos prelados de origem alemã. O rei decretou que a nacionalidade tcheca, sob o comando de Hus, assumisse o controle da universidade, em detrimento daqueles de nacionalidade alemã.

Mas com a reunificação da Igreja Católica no Concílio de Constança (1414-1418), contudo, Jan Hus foi declarado herege e lá queimado em 1415. Como as ideias não morrem,  em 30 de junho de 1419, em Praga, diante da recusa dos membros do conselho da cidade de libertar os protestantes hussitas presos,  partidários de Jan Hus, liderados por Jan Zelivsky, atiraram os conselheiros da torre do Hotel de Ville, diretamente  para as lanças dos revoltosos. Foi a primeira defenestração de Praga. A guerra hussita opôs católicos e protestantes na Boêmia entre 1420 e 1434.

A segunda defenestração de Praga, uma extensão desse conflito, ocorreu na outra margem do rio,  no Castelo de Praga, em 1618, que mobilizou toda a Europa e ficou conhecida como a Guerra dos Trinta Anos. Disputas político-religiosas, questões comerciais e fronteiriças se misturaram neste conflito, que teve impacto sobre a geopolítica do continente. Praga teve, igualmente, papel relevante e pioneiro nas chamadas revoluções nacionalistas de 1848, quando nacionalistas tchecos se insurgiram contra a dominação alemã dos Habsburgos. Também na chamada Primavera de Praga, desmistificou a truculência do socialismo autoritário soviético em 1968.

Praga e os tchecos, quase sempre derrotados nesses episódios, ou na sequência deles, prenunciaram, contudo, sempre o futuro. Ao ser condenado à fogueira, Jan Hus declarou, profético: “Vocês hoje estão condenando um ganso (Hus significa ganso), mas, daqui a 100 anos, não poderão queimar o cisne”. Martinho Lutero foi o cisne. Os católicos, austríacos e soviéticos que o digam.  Assim é Praga, em suas fortes primaveras.  (Colaborou Eugênio Gomes)
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