Palácio para Aquiles: conheça o refúgio pessoal da imperatriz da Áustria

Refúgio pessoal da imperatriz Elisabeth da Áustria, a Sissi, o palácio dedicado ao herói grego Aquiles, que personifica o luto, é uma homenagem ao filho Rudolfo, que cometeu suicídio. O local abriga um museu, em Gastouri

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Götz Fendrich/Flickr

A escadaria se abre ao triunfo de Aquiles sobre Heitor, filho do rei Príamo de Troia, representado em enorme tela a óleo estendida de ponto a ponta na extremidade superior da parede. Amarrado pelos calcanhares à biga, Aquiles, em vingança à morte de seu amigo Pátroclo na batalha, arrasta o corpo de Heitor por 12 dias ao redor das muralhas de Troia. O relato de Homero na Ilíada, um dos poemas épicos mais conhecidos da história, escrito por volta do século 8 a.C., integra o acervo do Achillion Palace, atualmente museu, na localidade de Gastouri, ao Sul da grega jônica de Corfu.



A Aquiles, esse herói grego da guerra que personifica o luto, a imperatriz Elisabeth da Áustria (1837-1898), conhecida por Sissi, dedicou esse palácio — refúgio pessoal às dificuldades enfrentadas na corte dos Habsburgo e ao suicídio, em 1889, do príncipe Rudolfo, seu filho e herdeiro do trono. “Quero um palácio (...) digno de Aquiles, que desprezava todos os mortais e não temera nem os deuses”, escrevera Sissi, expressando as angústias do olhar conservador sobre a decadência de seu império, esmagado, por um lado, pelos movimentos republicanos de igualdade e cidadania e, por outro, pelo peso da modernidade triunfante, que após a Segunda Revolução Industrial projeta a ascensão da Alemanha entre os povos germânicos, destroçando gradativamente as esperanças dos Habsburgos em manter a aparente hegemonia no Centro e Leste da Europa.

Cenários panorâmicos se abrem ao topo da colina, onde Sissi implantou sua casa de veraneio, abraçada por uma sucessão descendente de terraços verdes. Construído entre 1890 e 1891 pelo arquiteto italiano Raphael Carita, pretendeu reproduzir o estilo de um antigo palácio da mítica Feácia, povo que, segundo Homero, teria habitado a ilha.

O luto se mescla, nessa residência de verão, ao tributo às artes e à filosofia. Apolo, deus da música, da verdade, da poesia, da perfeição; Hermes, o deus mensageiro; as nove musas, filhas de Mnemósine e Zeus, símbolos da inspiração, são esculturas que, em pérgulas e pelos jardins, se misturam aos 13 bustos de filósofos e ao inglês Shakespeare. Nada, contudo, que se compare à obra Aquiles morrendo, do alemão Ernst Herter, uma das principais esculturas dos jardins de ciprestes e plantas exóticas. Mais impressionante do que ela, apenas o monumental trabalho de 15 metros, Aquiles vitorioso, a pedido do Kaiser Guilherme II, da Alemanha, que nove anos após o assassinato de Sissi, adquiriu a propriedade. “Para o maior entre os gregos do maior entre os alemães” era a inscrição original, removida após a Segunda Guerra Mundial.

 

Picasa/Flickr
 

 

Durante a Primeira Guerra Mundial, em dezembro de 1915, Corfu foi ocupada pelos exércitos francês e sérvio, que transformaram o Achillion Palace em base militar e hospital. Na sequência do Tratado de Versalhes, de 1919, a propriedade foi incorporada ao patrimônio do estado grego, até ser novamente ocupada durante a Segunda Guerra, desta vez, por tropas alemãs e italianas.

Na Odisseia de Homero, Corfu é mencionada como a ilha em que Ulisses é lançado após o naufrágio de sua embarcação, que retornava de Troia à sua terra natal, Ítala, enfrentando a fúria de Posseidon. Foi resgatado pela princesa Nausicaa, filha do rei Alcínoo, dos feácios. Fincada entre a Itália e o continente grego, na costa Oeste, em Corfu civilizações diferentes se mesclam em mitos, lendas, em registros únicos de um patrimônio cultural para a humanidade.

Colonizada pelos coríntios no século 8 a.C., lutou ao lado dos atenienses na Guerra do Peloponeso no século 5 a.C. O berço da civilização Ocidental esteve sob a dominação dos romanos, bizantinos, godos, normandos e angevinos. Durante o século 15, quando a Grécia enfrentava o jugo do Império Turco-Otomano, assim como as ilhas jônicas, Corfu foi os olhos e a fortaleza da República de Veneza no Adriático.

Apoiada pela Inglaterra, França e Rússia, a Guerra da Independência da Grécia contra o Império Otomano se estendeu entre 1821 e 1830. A Grécia proclamou-se como nação em 1832, ainda com a maior parte de sua população vivendo em territórios otomanos. Em 1864, incorporou as ilhas Jônicas e, até 1947, novas ilhas e territórios, até a configuração de sua atual fronteira. (Colaborou Eugênio Gomes).

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