ESCÓCIA

Castelo de Edimburgo, na Escócia, abriga a Velha Cidade (Old Town)

Aos pés das muralhas milenares, a medieval Old Town e a neoclássica cidade nova do século 18 (New Town) misturam-se em gritante harmonia

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postado em 07/11/2017 10:00 / atualizado em 01/11/2017 16:55

Bogdan Tapu/Flickr


“Ninguém me fere impunemente.” Sob o Brasão Real de Armas da Escócia, aquele que um dia foi o lema do reino anuncia-se à entrada do Castelo de Edimburgo. Ao topo do extinto vulcão, a fortaleza, originariamente construída no século 6, pelo rei Eduíno da Northumbria, se funde à linha do horizonte desta que, desde o século 15, é a capital da Escócia, em 1705, integrada à Grã-Bretanha. Aos pés dessas muralhas milenares, a medieval Velha Cidade (Old Town) e a neoclássica cidade nova do século 18 (New Town) misturam-se em gritante harmonia e ainda reverberam as vozes um dia propagadas por pensadores como David Hume (1711-1776), Adam Smith (1723-1790), Adam Ferguson(1723-1816) e Hector Boece (1465-1536).


Mais do que qualquer outro do Reino Unido, o Castelo de Edimburgo combateu cercos — principalmente contra os ingleses —, durante as guerras de independência, entre 1296 e 1328, em sua primeira fase e, entre 1332 e 1357, em sua segunda fase. Foram disputas violentas, que aterrorizaram, mas, igualmente, inspiraram gerações, impregnadas pelo espírito de guerreiros, como William Wallace (1270-1305), que ajudaram a cunhar a identidade escocesa.

Ora sob o domínio escocês, ora sob o inglês ao longo dessas décadas, as campanhas militares se iniciaram com a morte do rei Alexandre 3º, em 1286. Sem deixar herdeiro e com a monarquia escocesa dilacerada por disputas entre nobres, foi aberto caminho para que Eduardo 1º da Inglaterra, chamado a arbitrar a disputa, submetesse o reino vizinho. Mas a vassalagem imposta não foi escolha aceita. Em 1296, Eduardo 1º capturou a fortaleza, recuperada em 1314 num ousado ataque noturno conduzido por Thomas Randolph, sobrinho de Robert Bruce. Em 1335,foi retomado por mãos inglesas, para, seis anos depois, ser retomado. Foram tempos em que escoceses, sem jamais se vergar, recobraram, a cada derrota, o domínio de seu ícone.

Priska B./Flickr


Entre conflitos religiosos e políticos que emergiram nos séculos seguintes da tensa relação entre os vizinhos, protegidos pelas muralhas do Castelo de Edimburgo, reis e rainhas nasceram e morreram. A começar pela rainha Margaret, casada com Malcon 2º, morta em 1090, canonizada pelo papa Inocente 4º em 1250, a quem o seu filho, David 1º, dedicou-lhe, em 1130, a capela que está entre as edificações mais antigas da cidade. Também a rainha Marie de Guise, mãe de Mary Stuart, ali faleceu em 1560, antes de assistir, seis anos depois, no mesmo castelo, ao nascimento de seu neto — futuro James 6º, rei da Escócia, e James 1º, da Inglaterra —, unindo pessoalmente as duas coroas em 1603, que se mantiveram estados soberanos. Foi aí pavimentado o caminho que levaria ao Tratado de União, em 1707, abolindo a União das Duas Coroas e a independência entre os reinos, em favor do Reino da Grã-Bretanha.

Para além das disputas entre ingleses e escoceses, a sangrenta e bem documentada história do Castelo de Edimburgo exibe o julgamento arbitrário e a condenação de centenas de mulheres por “bruxaria”: em 1537 foi lançada à fogueira Janet Douglas, Lady Glamis; acusada de atentar com magia contra o rei James 5º, durante a Primeira Guerra Mundial, foi alvo das bombas alemãs lançadas por um Zeppelin.

Fortaleza, palácio real, guarnição militar e prisão do governo, ao longo dos séculos 12 e 21, o castelo de Edimburgo se adaptou a diferentes funções. Listado, ao lado da Old and New Town de Edimburgo, patrimônio da humanidade pela Unesco, atualmente, é um dos lugares mais visitados da Escócia. Guarda, entre as preciosidades, o canhão Mons Meg, construído na Bélgica em 1449, o “estado da arte” daquele período, com alcance da explosão de 3,2 quilômetros.

Uma imersão no tempo, nas derrotas, vitórias, violências e conquistas da história, é a bela jornada que relata o Castelo de Edimburgo. Uma bela viagem, que, nas palavras de David Hume, está no espírito de quem a contempla. Que o diga o escocês William Wallace, mais do que nunca, no imaginário desse país.
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