VIETNÃ

Conheça a grandiosidade do templo Thien Mu da Senhora Celestial, no Vietnã

Localizada no alto da colina ao lado do Rio Perfume, a torre octogonal de sete andares traz prosperidade, segunda a crença

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postado em 18/11/2017 20:00 / atualizado em 16/11/2017 15:27

 Mark Bellingham/CB/D.A Press
Em 11 de Junho de 1963, 350 monges e monjas budistas marcharam em procissão, precedida por um Austin Westminster, pelas ruas de Saigon — atualmente Ho Chi Minh —, nas proximidades do Palácio Presidencial, hoje, Palácio da Reunificação. Thich Quang Duc saltou do veículo ao lado de dois outros religiosos. O primeiro carregava uma almofada, depositada sobre a via. O segundo retirou do porta-malas um galão de gasolina. Enquanto Duc se colocava sobre a almofada em posição de lótus para meditação, um círculo se formou ao seu redor, ao mesmo tempo em que o combustível encharcava a sua cabeça. Pronto para a autoimolação, Duc, segurando um cordão de contas de oração, recitava a homenagem a Amitabha Buda. Acendeu o fósforo e deixou-se incendiar.


A cena, que abalou o mundo, foi registrada por Malcolm Browne, da Associated Press em Saigon, e relatada em reportagem de David Halberstam, do The New York Times. Nela, Duc denunciava a perseguição aos budistas pelo governo de Ngo Dinh Diem, apoiado pelos Estados Unidos, que, ao mesmo tempo, promovia a minoria católica.

O mundo vivia a Guerra Fria. Depois da expulsão dos colonizadores franceses, o Vietnã, por resolução da Conferência de Genebra, em 1954, foi dividido no paralelo 17, a pretexto de eleições gerais para 1956, que nunca ocorreram. O Vietnã do Norte, de orientação socialista, se tornou a República Democrática Comunista do Vietnã, com capital em Hanói, sob o comando de Ho Chi Minh. O Vietnã do Sul, de orientação ocidental e anticomunista, sob influência norte-americana, com capital em Saigon, era dirigido, desde 1955, por Ngo Dinh Diem.

 

Mark Turner/CB/D.A Press


“As chamas eram provenientes de um ser humano. O corpo dele foi lentamente murchando e diminuindo, a sua cabeça tornando-se preta e carbonizada. O cheiro de carne humana queimada espalhou-se. Os seres humanos se queimam de forma surpreendentemente rápida. Atrás de mim, podia-se ouvir o soluço dos vietnamitas. Fiquei muito chocado para chorar, muito confuso para tomar notas ou fazer perguntas, muito confuso para pensar... Enquanto ele queimava, não moveu um músculo, não emitiu um som, sua compostura em forte contraste com as pessoas que lamentavam ao seu redor”, diz David Halberstam, ao lado de Malcolm Browne, prêmio Pullitzer.

As imagens chocantes ganharam as manchetes do mundo. A esta, outras autoimolações se seguiram. Foi o ponto de inflexão e o colapso do governo de Diem. Uma das fotografias está em exibição ao lado do Austin Westminster azul, no pagoda Thien Mu, da Senhora Celestial, na cidade de Hue, antiga cidade imperial do Vietnã, região central do país. Antes do ato de Duc, o pagode de Thien Mu se tornara um importante centro de protesto do movimento budista contra as políticas que promoviam católicos e perseguiam, discriminavam e massacravam adeptos do budismo.

O templo tem mais de 300 anos. No topo de uma colina, à margem esquerda do Rio Perfume, o pagoda Thien Mu, da Senhora Celestial, se impõe com a sua torre octogonal de sete andares — a Torre da Fonte da Felicidade —, um dos ícones da velha cidade. Foi fundado em 1601 por Nguyen Hoang, nobre Nguyen, que, naquele período, era governante independente de Thuan Hoa, atualmente Hue, sob a dinastia Ly. Diz a lenda que, ao percorrer os domínios, Hoang deparou-se com uma senhora — literalmente a Senhora Celestial —, que, sentada onde seria erigido o templo, profetizou que este traria a prosperidade ao país. A edificação foi reconstruída e recebeu acréscimos ao longo do tempo, sobretudo no século 19, quando foi patrocinado pelos imperadores da Dinastia Nguyen, inaugurada em 1802, por Gia Long, depois da unificação do Vietnã.

Marco Polo/CB/D.A Press


A profecia se confirma séculos depois para o Vietnã às custas de sangue, suor e muitas lágrimas. Naqueles anos em que se afundara o país, dividido na luta pela reunificação, só encerrada com a vitória do Vietnã do Norte, em 1975, uma das frases gravadas em isqueiros Zippos pelos soldados americanos que ali lutaram, dá a ideia: “Eu tenho certeza de que irei para o céu, porque passei meu tempo no inferno”.

Para vietnamitas, aquela foi a última das etapas no inferno. Foram séculos de história marcados pela tenacidade e luta ao longo do processo de fundação e independência, seja da dominação mongol-chinesa, da francesa, da japonesa ou da norte-americana. Nas palavras da valente Trieu Thi Trinh, que, no século 3, liderou uma revolta contra a dominação chinesa, estão os dilemas para a consolidação de uma nação independente: “Eu gostaria de montar tempestades, matar tubarões no mar aberto, expulsar agressores, reconquistar o país, desfazer laços de servidão e nunca dobrar minhas costas para ser a concubina de qualquer homem”. 

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