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Muralhas que abraçam: descubra a cidade medieval que é símbolo da França

Por entre as ruelas de pedras milenares, histórias de guerras da cidade francesa que é um dos maiores conjuntos fortificados medievais da Europa

Bertha Maakaroun - Especial para o Correio




Cercada a Oeste pelo Pireneus, ao Norte pelo Maciço Central e a Nordeste pelos Alpes, açoitada por fortes e constantes ventos, Carcassone, no Sul da França, é abraçada por duas muralhas, observada por 52 torres, que, sob a iluminação noturna, erguem-se douradas num horizonte de histórias. Protegida por torres, portões, fosso e ponte levadiça, ao cruzar pela Porte Narbonnaise, principal entrada desta que é um dos maiores conjuntos fortificados medievais da Europa, a lenda ainda grita. O busto da Dama Carcass explicaria o batismo dessa fortaleza estrategicamente fincada às margens do Rio Aude, entre históricas rotas comerciais, interligadas pelo Canal Midi, juntando o Atlântico ao Mediterrâneo, um dia imaginado por Leonardo da Vinci, mas só implementado um século e meio depois.

Carcass era esposa do rei sarraceno Ballak, que teria sido abatido durante o cerco de Carlos Magno, por volta do ano 800. Cinco anos se passaram e, sem mantimentos, os dois exércitos andavam famintos. Dentro das muralhas, só restava um pequeno porco e uma poção de trigo. Para desmoralizar o inimigo, a Dama Carcass teria agarrado o animal e lhe alimentado com o cereal, antes de lançá-lo para fora das muralhas. Acreditando que sobravam alimentos do lado de dentro, os sitiantes partiram. A Dama Carcass, em celebração, teria soado as trombetas: “Carcass sonne” —  em tradução livre, “Carcassa soa”. Mas lendas são lendas: considerando que a reconquista cristã da região do Languedoc tenha ocorrido em meados do século 8, por Pepino, o Breve, pai de Carlos Magno, a história recontada por franceses é improvável.

A impecável cidadela de Carcassone, listada pela Unesco como patrimônio da humanidade, esteve no centro de conflitos militares medievais e acumula alguns milênios e registros arqueológicos, com assentamentos que datam do neolítico. Tribos célticas e suas habitações gaulesas foram apossadas por romanos em 118 a.C., no século 5, dominadas por visigodos e, mais tarde, pelos árabes (século 8). Com a dissolução do Império Carolíngeo e a ascensão do feudalismo, Carcassone ficou, entre os séculos 11 e 13, sob o domínio da família Trencavel, responsável pela construção do Castelo Condal, cujas fundações se assentam sobre uma casa romana (domus) do século 1.

Ao todo, são 52 torres que antes serviam como pontos de observação. Hoje, iluminam a paisagem


Nesse período, os Trencavel se mantiveram no poder sob a bênção papal. Entretanto, a região de Languedoc independente foi adotada por dissidentes cátaros — do grego, “puros” — que nasceram de movimentos reformistas e antimaterialistas contrários à ostentação e abusos cometidos pela Igreja Católica. Não aceitavam a hierarquia de bispos e papas nem o Novo Testamento. Por isso, eram considerados “hereges”.

Entre 1209 e 1229, o território se tornaria alvo das cruzadas anticátaras — também chamadas albigenses —, lançadas pela Coroa francesa e pelo papa Inocêncio III. Em 1º de agosto de 1209, Raimond-Bernard Trencavel — visconde de Nimes e Albi, viu a sua cidadela de Carcassone bloqueada pelo exército de cruzados e sem acesso à água. Ao tentar negociar os termos de rendição, apesar do salvo-conduto, foi trancafiado nos porões de seu próprio castelo, onde morreu três meses depois. Os habitantes foram poupados, mas obrigados a partir. Ao investir em 1240 para retomar o comando da cidade de seu pai, Raimond II Trencavel e a população que o acompanhou foram perseguidos até ser, depois, autorizados a se instalar na outra margem do Aude, onde foi fundada a Bastide Saint-Louis — parte baixa da cidadela. A cidade baixa prosperou e no século 16 havia se tornado o principal centro de produção têxtil da França, exportando para grandes entrepostos como Alexandria e Constantinopla.

A cidadela inexpugnável esteve no foco da Guerra dos Cem Anos e das guerras religiosas entre católicos e protestantes. Ao mesmo tempo, com a Revolução Industrial e a mecanização dos processos na Grã-Bretanha, a atividade industrial na Bastide entrou em decadência. Atualmente, Carcassone prospera, entre belos vinhedos e hordas de turistas que lotam a cidadela em viagem de imersão na história.