CARCASSONE

Muralhas que abraçam: descubra a cidade medieval que é símbolo da França

Por entre as ruelas de pedras milenares, histórias de guerras da cidade francesa que é um dos maiores conjuntos fortificados medievais da Europa

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postado em 04/12/2017 16:46 / atualizado em 04/12/2017 16:53

Arnaud Conton/Flickr


Cercada a Oeste pelo Pireneus, ao Norte pelo Maciço Central e a Nordeste pelos Alpes, açoitada por fortes e constantes ventos, Carcassone, no Sul da França, é abraçada por duas muralhas, observada por 52 torres, que, sob a iluminação noturna, erguem-se douradas num horizonte de histórias. Protegida por torres, portões, fosso e ponte levadiça, ao cruzar pela Porte Narbonnaise, principal entrada desta que é um dos maiores conjuntos fortificados medievais da Europa, a lenda ainda grita. O busto da Dama Carcass explicaria o batismo dessa fortaleza estrategicamente fincada às margens do Rio Aude, entre históricas rotas comerciais, interligadas pelo Canal Midi, juntando o Atlântico ao Mediterrâneo, um dia imaginado por Leonardo da Vinci, mas só implementado um século e meio depois.


Carcass era esposa do rei sarraceno Ballak, que teria sido abatido durante o cerco de Carlos Magno, por volta do ano 800. Cinco anos se passaram e, sem mantimentos, os dois exércitos andavam famintos. Dentro das muralhas, só restava um pequeno porco e uma poção de trigo. Para desmoralizar o inimigo, a Dama Carcass teria agarrado o animal e lhe alimentado com o cereal, antes de lançá-lo para fora das muralhas. Acreditando que sobravam alimentos do lado de dentro, os sitiantes partiram. A Dama Carcass, em celebração, teria soado as trombetas: “Carcass sonne” —  em tradução livre, “Carcassa soa”. Mas lendas são lendas: considerando que a reconquista cristã da região do Languedoc tenha ocorrido em meados do século 8, por Pepino, o Breve, pai de Carlos Magno, a história recontada por franceses é improvável.

A impecável cidadela de Carcassone, listada pela Unesco como patrimônio da humanidade, esteve no centro de conflitos militares medievais e acumula alguns milênios e registros arqueológicos, com assentamentos que datam do neolítico. Tribos célticas e suas habitações gaulesas foram apossadas por romanos em 118 a.C., no século 5, dominadas por visigodos e, mais tarde, pelos árabes (século 8). Com a dissolução do Império Carolíngeo e a ascensão do feudalismo, Carcassone ficou, entre os séculos 11 e 13, sob o domínio da família Trencavel, responsável pela construção do Castelo Condal, cujas fundações se assentam sobre uma casa romana (domus) do século 1.

The Jacksmans/Flickr


Nesse período, os Trencavel se mantiveram no poder sob a bênção papal. Entretanto, a região de Languedoc independente foi adotada por dissidentes cátaros — do grego, “puros” — que nasceram de movimentos reformistas e antimaterialistas contrários à ostentação e abusos cometidos pela Igreja Católica. Não aceitavam a hierarquia de bispos e papas nem o Novo Testamento. Por isso, eram considerados “hereges”.

Entre 1209 e 1229, o território se tornaria alvo das cruzadas anticátaras — também chamadas albigenses —, lançadas pela Coroa francesa e pelo papa Inocêncio III. Em 1º de agosto de 1209, Raimond-Bernard Trencavel — visconde de Nimes e Albi, viu a sua cidadela de Carcassone bloqueada pelo exército de cruzados e sem acesso à água. Ao tentar negociar os termos de rendição, apesar do salvo-conduto, foi trancafiado nos porões de seu próprio castelo, onde morreu três meses depois. Os habitantes foram poupados, mas obrigados a partir. Ao investir em 1240 para retomar o comando da cidade de seu pai, Raimond II Trencavel e a população que o acompanhou foram perseguidos até ser, depois, autorizados a se instalar na outra margem do Aude, onde foi fundada a Bastide Saint-Louis — parte baixa da cidadela. A cidade baixa prosperou e no século 16 havia se tornado o principal centro de produção têxtil da França, exportando para grandes entrepostos como Alexandria e Constantinopla.

A cidadela inexpugnável esteve no foco da Guerra dos Cem Anos e das guerras religiosas entre católicos e protestantes. Ao mesmo tempo, com a Revolução Industrial e a mecanização dos processos na Grã-Bretanha, a atividade industrial na Bastide entrou em decadência. Atualmente, Carcassone prospera, entre belos vinhedos e hordas de turistas que lotam a cidadela em viagem de imersão na história.
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