Marcelo Abreu
Publicação: 28/08/2009 16:56 Atualização: 28/08/2009 17:08
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| Jair Lima da Silva e as frases sem norma culta: %u201CEscrevo o que me vem à mente, o que me toca e acho que toca as pessoas%u201D |
As pessoas param. Admiram o trabalho daquele homem. Fotografam suas frases. Perguntam-lhe por que ele faz aquilo. Querem saber da sua história. Incentivam-no. O sapateiro Jair Lima da Silva, de 39 anos, mudou a cara da 415 Norte. Transformou-se, sem saber, em paisagem. Impossível não vê-lo. “Quem chegou aqui primeiro foi meu pai, em 1983, e plantou esta mangueira. Nem todos os blocos estavam construídos. Não tinha nem o ponto de táxi” lembra o filho do sapateiro, que igualmente sapateiro se tornou.
Um ataque do coração matou Raimundo, o pai cearense, há 11 anos. Jair, que era garçom e servia gente chique em festas e bares de arromba, assumiu o ofício que desde menino, lá em Sobral, acostumou-se ver o pai fazer. Começou a tratar sapatos velhos como se gente também fossem. Deu a eles sobrevida, elegância e sofisticação. Lambuzou as mãos de graxa, cola e tinta. E, com os dedos impregnados, se descobriu poeta das frases certeiras. “Tô aprendendo o gosto da leitura. As pessoas, meus fregueses, me dão livros usados. Às vezes, eu pego emprestado também nos pontos de ônibus (refere-se ao projeto Parada cultural). Todo tempinho que tenho, tiro pra ler.”
Numa manhã dessas, o sapateiro lia um poema que dizia assim: “Fui sempre de percorrer na carne o puído dos vãos. Sempre de pôr o pé na intimidade das veias. Sempre de lavrar os dias mais ferozes para que, doendo, amansem a morte”. Suas impressões: “Eu fico arrepiado quando leio uma coisa que me faz pensar”. Essa é a história do garçom que virou consertador de sapatos. E ela se repete todos os dias, quando ele deixa o Paranoá, pedalando sua bicicleta, com destino à Asa Norte. “Pego o Varjão e, em 40 minutos, tô aqui”, conta.
Às 9h, pontualmente, desde que assumiu o ofício do pai, ele abre a banquinha. Faça chuva ou sol. Fecha às 17h30. Tem dia em que leva encomenda pra casa na bicicleta. “Só descanso no domingo.” Manhã de quarta-feira. Começa o longo dia de Jair. Recebe encomendas. Devolve o que está pronto. Termina o que já começou. Cada velho sapato recebe o mesmo cuidado. Como se fosse ourives, trata-os como joias raras. “Tem gente que se mudou daqui, mas até hoje continua trazendo serviço pra mim. Vem até freguês que nunca morou na quadra e sai de Taguatinga, da Asa Sul, do Sudoeste e até do Lago Sul”, conta, orgulhoso da clientela.
Na moda
O sapateiro poeta garante que gente chique conserta sapatos, sim, senhor. “Quanto mais dinheiro, mais as pessoas mandam consertar. Se o calçado arrebenta, elas mandam ajeitar. Pobre, não. Joga logo fora. É por isso que vão ser sempre pobres. É pobreza de espírito”, ele reflete. Neste momento, chega à banca uma mulher bem-vestida, de saia longa, funcionária do Palácio do Planalto. Ela pega três peças que havia deixado para recauchutagem. E sai feliz da vida. “É uma raridade encontrar hoje em dia um sapateiro. É gente quase em extinção. Morava na quadra, conheci o pai dele. Hoje, volto pra trazer sapatos pro conserto.”
Nome da freguesa? “Nome? Pra quê? Não vou dizer, não.” A mulher que sempre reforma os pisantes chiques não quis revelar o nome. Uma pena. Vai ver, gente chique é assim mesmo... Jair entende as esquisitices de sua clientela. Prefere não comentar (“sapateiro precisa ser discreto, cada sapato é um túmulo, um segredo”, ele ensina). E se volta às suas frases de efeito, esta aqui escrita na lateral: “Quando você usa drogas, se transforma no que você nunca será. Não faça isso. Deus te ama... Viva ao natural”.
Separado, um filho de 13 anos, ensino fundamental incompleto, Jair conta que se inspira na Bíblia para escrever muitas de suas frases. “Usei maconha e me livrei disso há mais de uma década. A palavra de Deus me salvou.” E tasca mais uma, nas “paredes” do seu escritório ao ar livre: “Tudo que temos é o criador que nos dá. Se não soubermos administrar, ele tira tudo de nós”.
Um morador, velho conhecido do sapateiro, desce do prédio ao lado e lhe deixa uma revista semanal. Jair vibra. “É assim que me informo”, diz. Mas há hora para isso. “Aproveito o almoço e ponho a leitura em dia. Guardo uma meia horinha pra isso. Dependendo do dia, até um cochilo dá pra tirar.” Outro lhe entrega o jornal lido. E um radinho o mantém ainda mais ligado às notícias.
Na pauta de planos, a reforma da banquinha é a prioridade. “O governo agora legalizou a gente. E o prefeito da quadra me pediu pra melhorar a fachada da banca. É o que sempre quis fazer. E ela vai ficar bem bonita, à altura dos meus fregueses e como meu pai sonhava também”, comemora.
Artesanal
Todo o trabalho de Jair é feito manualmente. Da troca de solado à costura de sapatos. “Toda peça é como se fosse uma obra de arte. Quando eu termino, sempre penso que fiz o melhor”, analisa. Assim, quando o mês é generoso, a renda líquida, descontando todos os produtos que compra, pode chegar a mais de R$ 1,6 mil. “Tem mais de 10 anos que não sei o que é tirar férias”, comenta. Mas não se mostra abatido: “Quando você faz um trabalho com amor e dedicação verdadeira, o cansaço não existe”.
Jair elogia uma sandália preta de salto que acaba de ficar pronta. De tão bem feita a reforma, parece nova, recém-saída de uma loja. “Você tem que ver como ela chegou aqui. Tava bem castigada.” Mira novamente a obra de arte que saiu de suas mãos sujas de graxa. Junto aos cacarecos de sua banquinha, os livros de poesia que ganha e deseja ler. Sonhos feitos de letras. “A leitura deixa a pessoa mais viva”, reconhece o cearense.
De repente, vem a saudade de Raimundo, o pai que, sem imaginar, lhe ensinou o mesmo ofício. “Ele era um artista excepcional. Não faço nem a metade do que ele fazia. Costurava bola na mão, usando ao mesmo tempo duas agulhas. Eu nunca consegui fazer isso.” E conta um segredo: “Um dia, queria ter uma sapataria. Vender sapatos novos, mas sem me esquecer dos velhos”.
Do lado de fora da banquinha apertada de Jair, a vida segue seu rumo. Ziguezague de gente e carros. No meio do caminho, debaixo de uma mangueira que dá sombra, a barraquinha do sapateiro fazedor de frases. A cena incorporou-se à paisagem da quadra. Virou cartão-postal. Referência. “Tem gente que adora fazer foto aqui. Pede até pra entrar. Gringo fica doido”, alegra-se.
Um morador passa de carro e buzina. É o cumprimento ao homem que, mesmo sem ali viver, conhece a história de muitas pessoas daquela região. Gente que hoje virou confidente e passa na banquinha para jogar prosa fora. Há quem — os mais novos que viu crescer — até lhe peça conselhos. Quando a modernidade se impõe e a vida agitada sufoca, um sapateiro filósofo com mãos sujas de graxa — dentro de sua barraquinha maltrapilha — rouba a cena. E não arrasa com ninguém. Se todos os ladrões — sobretudo os da política — fossem desse naipe, esse país, enfim, teria salvação.
De
até
Esta matéria tem: (3) comentários
Autor: luiz ricardo
PARABENS AO SR. JAIR PELO TRABALHO HONESTO E QUE NAS HORAS VAGAS CONSEGUE ESCREVER, MESMO SER TER ESTUDADO PRA ISSO, IMAGINE SE ESSE PAIS DESSE EDUCACAO AO POVO BRASILEIRO...PARABENS DE NOVO AO SAPATEIRO.
Autor: Rogério Silva
Qual seja o ofício que desempenhamos, a recompensa maior será sempre, se o fizermos com amor!
Autor: Hildo Evaristo
CB, parabéns pela matéria, pois a sensibilidade da matéria traz a tona uma coisa simples, porém desapercebida no dia-a-dia, todos somos importantes independente da classe social, se cada um fizer sua parte por menor que seja ao final o acumulo gera uma sociedade mais humana. Trabalho e prazer, 1000.