Pesquisadora defende que a maioria dos crimes praticados contra mulheres estão relacionados ao sexismo

Marcionila Teixeira

Publicação: 30/08/2009 10:04


Ele é invisível, se disfarça de amor, mas tem um alto grau de letalidade. Quanto mais se infiltra na alma, mais chances de sofrimento pode causar. Nasce e se propaga no seio da família, nos corredores escolares, na sociedade como um todo. O machismo, que pode levar à posse doentia e até ao assassinato da mulher amada, está incrustado nas relações afetivas e tem mostrado seu lado mais cruel.

Mortes como a de Andrea Karla de França, 42 anos, na última quarta-feira, em Recife, e de Maria Betânia de Souza, 28, em Goiana (PE), mostram que o machismo dá sinais de estar pulsante. A dissertação de mestrado da socióloga Luzia Azevedo, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), apresentada na última sexta-feira, questiona se a forma como são construídos os dados de violência contra a mulher permite identificar se elas foram vítimas de violência de gênero ou urbana. E mais: defende que os crimes praticados contra a mulher, pelo simples fato de ela ser mulher, são sempre motivados pelo machismo.

O fenômeno identificado pela pesquisadora é conceituado como “cegueira de gênero”. Luzia analisou dados do Sistema Único de Saúde (SUS), da Secretaria Nacional de Segurança Pública, do Instituto Feminista para a Democracia (SOS Corpo), do Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (Gajop) e da Fundação Perseu Abramo, além de cinco inquéritos policiais envolvendo assassinatos de mulheres no estado. Nos documentos, percebeu que faltam análises sobre os dados. “É como ter um ingrediente que não é colocado na receita”, compara.

Femicídio
No caso dos inquéritos policiais, a pesquisadora percebeu que em apenas um deles é reconhecido o crime de gênero. Os demais apontam que as mulheres são vítimas simplesmente da violência urbana. “Se a mulher é morta dentro de casa, pensa-se logo que é crime passional. Se ela morre na boca de fumo, é violência urbana, quando ela pode ter sido morta em uma boca de fumo por ciúmes também”, disse. A proximidade da vítima com o agressor e o local onde foi morta são, segundo ela, os principais indicadores para se perceber o que ela chama de femicídio, ou seja, morte da mulher em razão do sexo.

De acordo com levantamento do Departamento de Polícia da Mulher de Pernambuco, 38% dos assassinatos de mulheres registrados este ano no estado foram passionais. Mas para a socióloga, os números podem ser bem maiores. “Foram só 38% ou há mais casos? A forma como os dados foram construídos representa a realidade?”, questionou.

Na opinião de Luzia Azevedo, não basta apenas acrescentar informações de gênero às fontes de dados. “É necessário que a leitura desses indicadores tenha uma perspectiva feminista para se captar de maneira legítima a violência contra a mulher nos crimes investigados pelas instituições policiais”, ressaltou. Somente assim, considera, políticas públicas mais eficazes de combate à violência de gênero podem ser postas em prática.

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