Márcia Neri
Publicação: 29/09/2009 07:00 Atualização: 29/09/2009 09:44
As conhecidas e indesejáveis cáries não são as únicas grandes vilãs do sorriso saudável. A erosão dental, doença decorrente do consumo excessivo de bebidas e alimentos ácidos, pode desgastar os dentes e causar danos funcionais e estéticos em crianças, adultos e idosos. Conhecido como erosão ácida, o problema também afeta pessoas que sofrem de refluxo (1)gastroesofágico e de bulimia.
Especialistas observam que a ocorrência do mal tem aumentado por conta do alto consumo de refrigerantes, energéticos e bebidas alcoólicas. O transtorno é mais incidente em países nos quais a cárie está sob controle. “O desgaste da dentição é provocado pelo contato direto com ácidos de origem alimentar ou gástrico. Refrigerantes à base de cola ou limão, frutas e sucos cítricos, águas saborizadas, energéticos, vinhos e bebidas ‘ice’ são responsáveis pelo problema”, aponta Cecília Turssi, professora e pesquisadora da Universidade de Uberaba, em Minas Gerais. “A corrosão também é causada pelo ácido clorídrico presente no suco gástrico que atinge a cavidade bucal devido a vômitos recorrentes”, acrescenta.
A pesquisadora lembra que a cárie e a erosão são provocadas por fatores diferentes. “Elas também não ocorrem simultaneamente, porque nas cáries há a presença de placas bacterianas. Esse acúmulo de bactérias, muito maléfico para a saúde bucal, acaba protegendo os dentes do contato com as substâncias ácidas”, ressalta. Cecília explica que os sinais clínicos da erosão estão relacionados à perda da forma e redução da altura dos dentes, que ficam quebradiços e arredondados por causa do desgaste. “O paciente também sofre com a hipersensibilidade, já que a polpa pode ficar exposta. A ingestão de água gelada e até mesmo um vento causam dor. Nos casos mais avançados, é perceptível o afilamento da espessura dental. É importante lembrar que a erosão é democrática. Ela atinge crianças, adultos e idosos”, relata Cecília.
Sem notar
A pedagoga Maria Luíza Geraldo Fernandes, 45 anos, não se deu conta que os dentes estavam comprometidos pela erosão dental. Apreciadora de frutas cítricas, ela conta que a sua dieta sempre foi extremamente rica nesse tipo de alimento. “Adoro abacaxi, laranja e tangerina, e bebo muito refrigerante. Não cheguei a sentir dor, mas acho que isso acabou agravando o problema, que nunca foi percebido pelos dentistas que eu consultava a cada semestre”, lamenta.
A erosão dental de Maria Luíza foi diagnosticada pela dentista Jussara de Godoi Rodrigues. Segundo a profissional, a evolução da doença depende de cada pessoa. “Algumas são mais suscetíveis à acidez. Depende da composição mineral do dente, da frequência de ingestão de alimentos ácidos e da ação deles na estrutura dentária, que carrega características hereditárias também”, esclarece. A especialista lembra que a erosão dental é um assunto atual. Nem todos os dentistas fazem o diagnóstico. “A erosão é confundida com a abrasão ou atritos por hábito parafuncionais, também causadores de desgaste. No entanto, a abrasão é provocada por fatores mecânicos, como o bruxismo, apertamento e técnica de escovação inadequada. Clinicamente, os dentes ficam foscos. Na erosão, eles não perdem o brilho”, esclarece Jussara.
Em alguns casos, a hipersensibilidade provocada pela erosão é grave e demanda um tratamento endodôntico, ou seja, de canal. “Esteticamente, quando a corrosão é intensa, podemos lançar mão de restaurações e facetas, que reconstituem a parte do dente que foi perdida. Em desgastes extremos, usamos coroas para reconstituir totalmente a estrutura perdida”, diz a dentista. Ela observa que as medidas tomadas para impedir o avanço do enfraquecimento dependem muito do paciente. “É fundamental diminuir o consumo de refrigerantes e frutas ácidas. Após a ingestão desses alimentos, recomendamos que se espere uma hora para fazer a escovação. É o tempo necessário para dar condições à saliva de mineralizar novamente os dentes, prover cálcio e fosfato a eles. Cerdas macias para as escovas e cremes dentais menos abrasivos e com fluor também são boas ferramentas para evitar a erosão”, garante.
Para a pesquisadora Cecília Turssi, os fatores de risco devem ser evitados desde a infância. “A erosão dental não escolhe idade, mas algumas condições específicas favorecem a ocorrência da doença. Quem tem o hábito de bochechar bebidas ácidas potencializa a chance de adquirir o problema. Mamadeiras de sucos ácidos devem ser evitadas. O esmalte dos dentes de leite é menos mineralizado e a erosão evolui com mais rapidez em crianças”, aponta. “Os adultos podem adotar hábitos mais saudáveis. Evitem refrigerantes e álcool. Não proibimos os sucos, eles são saudáveis, mas podem ser ingeridos com canudo para reduzir o contato com a dentição”, sugere a dentista Jussara. Foi o que fez a pedagoga Maria Luíza. “Me assustei com o diagnóstico, porque nunca havia ouvido falar de erosão dental. Não é fácil passar por uma reeducação alimentar, mas estou me policiando para evitar o agravo do desgaste”, comenta.
Dor e desconforto
O refluxo gastroesofágico é a percepção da volta do conteúdo estomacal no sentido da boca, sem enjôo ou vômito, mas com azedume ou amargor. Desconforto ao engolir e fortes dores com aperto — espasmos — no meio do peito são considerados complicações do refluxo. Na criança, ainda no primeiro ano de vida, pode ocorrer um refluxo gastroesofágico excessivo, levando à devolução da mamada, engasgos, choro excessivo e sono interrompido. O problema predispõe a infecções e distúrbios respiratórios.
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