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| Fofão (Besthoven), Vander (ARD) e Bosco (Detrito Federal): ideologia e hardcore de raiz |
Na Inglaterra do final dos anos 1970, muitos davam o punk como morto. Àquela altura, a música e o visual (roupas rasgadas, cabelos espetados e coloridos, couro e coturnos) relacionados ao estilo musical foram absorvidos pelo establishment, tinham perdido parte do impacto e do caráter contestador, rebelde. Mas no começo da década seguinte, uma nova geração de garotos empunharia guitarras mais nervosas em músicas com uma batida percussiva rapidíssima e crua e com um discurso mais radical, antissistema e anárquico. Nascia — paralelamente nos Estados Unidos e no Reino Unido — o hardcore. E assim como seu primo mais velho, a nova vertente espalhou-se e encontrou adeptos em todo o mundo.
Com três décadas de atuação, a influente banda escocesa The Exploited toca hoje em Brasília pela primeira vez . Assim como eles, muitos veteranos grupos brasilienses desafiam as dificuldades do cenário underground e mantêm vivos o som e a ideologia do hardcore de raiz. O quarteto ARD, por exemplo, completou, em 2009, 25 anos de formação. O Detrito Federal já contabiliza 26 verões. E a banda de um homem só Besthöven chegou à maioridade em 2008. Muito mais do que um tipo de som, o punk/hardcore mostrou aos integrantes desses grupos uma maneira diferente de enxergar o mundo. Hoje, o pensamento xiita dos tempos de adolescência deu lugar a um comportamento mais sereno, o que não significa resignado, conformista.
Lições aprendidasBaixista do Detrito Federal, João Bosco Ferreira Mattos, 48 anos, o Bosco, não sabe explicar por que continua punk desde a adolescência. “Aprendi com o punk coisas que não se ensinam em casa. Antes de entrar no movimento, eu era alienado, um porra louca. Com o punk, aprendi a respeitar a liberdade individual, ter consciência política, não me deixar levar pela moda, não me prender ao capitalismo”, lista. Ser punk, ele conta, não é só aprendizado e música. “Arrumar emprego com cabelo moicano era complicado. Atualmente não uso mais esse penteado — que hoje em dia qualquer um usa, o sistema comercializou”, reclama.
“O pessoal confunde anarquia com caos”, comenta o baixista do ARD, Vander Batista, 40 anos. “Me considero muito mais punk do que muita gente que se diz assim. Mas quando vejo o que escreveram os filósofos anarquistas, percebo que não sou tanto quanto eles”, pondera. Para Vander, arquivista da Câmara dos Deputados prestes a concluir doutorado em tecnologia e informação (“jamais imaginei isso quando comecei no punk!”), a grande lição aprendida é não ser usado pelo sistema, mas usá-lo a seu favor: “Eu quero o melhor para a minha família, mas não vou me vender: tirar o que é meu e nada mais — essa é a herança do pensamento sóciolibertário que aprendi com o punk”.
Punk globalCom uma discografia de 34 lançamentos, entre compactos, LPs e CDs lançados por selos da Finlândia, Japão, Suécia, Noruega, Dinamarca, Peru, México, Eslováquia, Espanha, entre outros países, o Besthöven é uma referência internacional do crust. “É uma linhagem mais pessimista do hardcore. Falamos de guerra, holocausto, fim do mundo. O som é muito sujo, repetitivo, as músicas são parecidas”, explica Robson da Silva Felipe, o Fofão, 34. Punk desde menino, ele começou a se corresponder com pessoas de outros lugares nos anos 1990 e assim foi estendendo sua teia de contatos. Atualmente, registra (toca todos os instrumentos) de dois a três discos por ano, cuja gravação, prensagem e distribuição são feitas internacionalmente por selos especializados.
“O que aprendi com o punk foi a trabalhar dentro do idealismo, mas só fazendo as coisas que tenho afinidade. Me desvinculei desse lado mais político, de que a anarquia vai mudar o mundo. Tem punks que falam de liberdade, mas parecem mais a polícia. Os grupos acabam se afundando, virando inimigos”, conta Fofão, fazendo referência à patrulha ideológica que circunda o movimento. “A minha relação é com o lado musical, com os fanzines, correspondências com o mundo todo”, continua.
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