Rodrigo Craveiro
Publicação: 07/11/2009 10:41 Atualização: 07/11/2009 10:58
Parecia um aviso. “Se um homem-bomba matar 100 soldados inimigos porque eles foram pegos desprevenidos, seria considerada uma vitória estratégica. Sua intenção não é morrer por causa de algum desespero. O mesmo pode ser dito dos camicases no Japão. Eles morreram para matar os inimigos da pátria. A intenção é o principal e Alá sabe o que for melhor.” O texto também faz menção a “uma granada atirada contra um grupo de soldados norte-americanos” e de um militar que tira sua vida para salvar os colegas. Foi publicado em 20 de maio passado no site de relacionamentos Scribd.
O suposto autor, o major Nidal Malik Hasan, esvaziou seu apartamento em Killen (Texas) — 169 dias depois —, partiu para a base militar de Fort Hood, tomou café e comprou batatas fritas na loja de conveniências 7-Eleven, dentro do complexo do Exército. Às 6h20 (hora local), foi filmado pagando a refeição. Vestia trajes muçulmanos brancos. Sete horas e 10 minutos depois disparou a esmo no Centro de Processamento de Prontidão de Soldados, na ala oeste. Antes de matar 12 soldados e um civil, teria gritado “Allahu akbar!” (“Deus é o maior”) — frase pronunciada por muçulmanos em situações de júbilo ou em batalhas. Ao menos 30 pessoas ficaram feridas, duas delas em estado gravíssimo.
A maior carnificina da história em uma base norte-americana só parou quando os policiais Kimberley Munley e Mark Todd atiraram contra Hasan, no momento em que ele recarregava o par de pistolas semiautomáticas. A sargento Munley chegou a ser atingida na coxa. Até a noite de ontem, o estado de saúde do assassino era estável, ele respirava com a ajuda de ventilação mecânica.
Tormento
Os motivos do ataque permanecem obscuros. De acordo com o jornal The New York Times, um primo contou que Nidal estava “mortificado” pela possibilidade de ser enviado ao Afeganistão. O filho de imigrantes de uma pequena(1) cidade palestina escolheu o Exército contra a vontade dos pais e, por meio do serviço militar, galgou a carreira de psiquiatra.
Testemunhas revelaram que ele teria começado a mudar de ideia sobre o Exército anos atrás, quando começou a ser atormentado por outros soldados pelo fato de ser muçulmano. Em entrevista ao Correio, por telefone, Arshad Qureshi — presidente do Centro da Comunidade Muçulmana, em Silver Spring (Maryland) — contou que orou por várias vezes ao lado de Hasan. “Ele era pacífico e temeroso ao profeta Maomé. Costumava fazer suas orações aqui e parecia ser uma pessoa comum, tímida”, descreveu. “Jamais imaginei que ele fosse capaz de algo assim.” Segundo Qureshi, o homem que espalhou a morte em Fort Hood vivia calado. “Ele atendia regularmente às orações muçulmanas.”
O líder da congregação islâmica revelou que Hasan jamais lhes transmitiu a impressão de que estaria sendo discriminado por colegas. “Ele também nunca nos contou que iria ao Afeganistão”, disse. Qureshi acredita que todas as pessoas são pacíficas “até terem uma razão para crerem no contrário”. “Hasan já nascera em uma família muçulmana, não se converteu”, explicou.
O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, pediu que as pessoas não tirem conclusões sobre a tragédia e ordenou que as bandeiras da Casa Branca e de outros prédios do governo federal fossem baixadas a meio mastro. “Esse é um tributo modesto a àqueles que perderam suas vidas, enquanto se preparavam para arriscá-las pelo país”, declarou. O mandatário se reuniu com Robert Mueller, diretor do FBI (polícia federal dos EUA), para discutir detalhes da investigação. O porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, anunciou que Obama visitará Fort Hood nos próximos dias.
O especialista americano-libanês Walid Phares, autor de Future Jihad: Terrorist Strategies against America (A Jihad do Futuro: Estratégias Terroristas contra a América), considera a tragédia um “caso muito sério de infiltração de jihadistas (adeptos da guerra santa) em uma instalação militar dos EUA”. “Há um número de células que têm alvejado instalações militares nos EUA nos últimos meses e anos”, opinou. O analista explica que Phares poderia ter desertado do Exército há muito tempo. “Ele se opunha à guerra contra seus colegas jihadistas, o Talibã. É uma atitude normal dos terroristas, não assumir posições de combate contra colegas.”
1 - Batalha sangrenta
O saldo de mortos na guerra do Afeganistão aumenta de maneira expressiva. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) perdeu ontem quatro soldados norte-americanos e um britânico. Com esses casos, o número de militares mortos em combate, este ano, no Afeganistão, chega a 465. O ano de 2009 já é o mais violento desde 2001.
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