Todo domingo, por volta das 14h, a casa de Maria da Paz, 44 anos, na Quadra 8 de Ceilândia Sul, começa a encher. O quintal vira vestiário para quase 40 mulheres que se preparam para trocar a rotina de dona de casa por um campo de futebol de terra batida. A organizadora Francinete Moura Lima, 31, é sempre a primeira a chegar. Com a prancheta em mãos, vestindo meião e chuteira, distribui os uniformes de todas as participantes e divide os dois times: Mulheres de Hoje e Quebrando a Rotina. Às 16h em ponto, o juiz apita o início da partida. E, a partir daí, a diversão não tem hora para acabar. Seis meses depois do primeiro jogo, a mudança de vida das jogadoras é perceptível pelo sorriso sem fim no rosto de cada uma.
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Francinete teve a ideia de organizar os jogos para oferecer às mulheres da comunidade um momento de diversão. Grande parte delas passava a semana inteira, inclusive os sábados e os domingos, em casa, trabalhando. Aos fins de semana, enquanto os maridos saíam para jogar futebol ou conversar em bares, elas ficavam sem opções. “As mulheres ficavam dentro de casa pedindo socorro, enquanto os maridos iam para barzinhos beber e assistir a jogos de futebol”, contou Francinete. Agoniada com a situação, saiu pela cidade em busca de opção de diversão. O campo de futebol, utilizado pelos jovens, tornou-se a opção mais acessível. Mesmo sem gostar do esporte, bateu de porta em porta para recrutar mulheres. O sucesso foi imediato.
No início, os jogos eram realizados a cada 15 dias. Mas as mulheres não conseguiam manter o ritmo de jogo e o condicionamento físico em dia. Animadas, passaram o compromisso para todo domingo. A comunidade não acreditava que o ânimo das donas de casa perduraria. Mas, aos poucos, elas conquistaram a credibilidade dos vizinhos e firmaram o horário e o local de todos os jogos. Hoje, contam até mesmo com espectadores e torcedores. “Os maridos são os maiores fãs. Eles torcem, incentivam e dão dicas. Quando fazemos gols, saem correndo para dar beijo”, contou Francinete.
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| Todos os domingos, os problemas de casa são esquecidos no jogo |
As inscrições para os jogos são feitas durante a semana no bar localizado bem em frente ao campo de futebol. O dono do estabelecimento, Francisco Vieira Neto, tornou-se um dos principais investidores das mulheres. Patrocinou uniformes, oferece água e banheiro às jogadoras e ainda paga o caminhão-pipa para molhar o campo de terra batida em época de seca. O juiz Marcos Antonio de Oliveira, jogador profissional no Distrito Federal, também apoia a diversão das mulheres. A cada 15 dias, ele fica responsável pelas regras do jogo. “A gente ajuda ao máximo. O objetivo delas foi alcançado. Elas começaram mal, mas merecem parabéns. Melhoraram 100%”, contou. Ele brinca com todas, dá dicas durante o jogo e deixa a brincadeira correr solta. “Só tenho dó da minha mãe”, brincou, referindo-se às reclamações das jogadoras.
A animação é tanta, que as mulheres jogam bola até mesmo embaixo de chuva. Ainda assim, todas fazem questão de arrumar o cabelo, passar sombras coloridas e batons brilhantes. “Deixamos a chapinha de lado para nos divertir”, garantiu uma delas. A maioria carrega os filhos para os jogos. Mas muitas foram obrigadas a deixar o campo para amamentar ou tirar crianças que subiram em árvores e se recusam a descer. “O jogo serve também como resgate do valor da família. Os filhos nos ensinam algumas coisas de futebol e a gente sai de casa para assisti-los jogar. Além de melhorar a disposição para o dia a dia”, contou a dona de casa e frequentadora assídua dos jogos Marinete Moura Lima, 34 anos.
Superação
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| As mulheres contam com a torcida dos maridos e a orientação dos filhos |
Segundo Francinete, a organização dos jogos é feita com improviso. Se a atacante falta, a zagueira ocupa o espaço vazio. Se tem poucas jogadoras ou as reservas faltam, o tempo de jogo diminui para evitar o cansaço. Nos dias mais animados, são realizadas três partidas. Até mesmo o nome do campo muda, dependendo da estação do ano: Barreirão, na época da seca, e Lamação, no período de chuva. Mas nada disso importa para as participantes. Das 14h até o momento em que o céu escurece, elas não param de rir, brincar e estimular uma à outra.
Funcionária pública, Maria da Paz prefere ocupar a posição de atacante do time. Começou a brincadeira há seis meses, mesmo sem gostar de futebol. Ela garante que a iniciativa mudou de vez a relação dela no ambiente de trabalho, com a família e até mesmo com os vizinhos. “Eu era nervosa demais. Eu não tinha amizade e brigava muito com as pessoas”, contou. Mas quando Francinete passou em sua casa, resolveu ajudar a amiga a preencher o time. Não parou mais. Hoje, ela oferece a casa para as amigas se arrumarem antes das partidas e mantém o sorriso no rosto a todo instante. “Hoje tenho amigas demais. Sou outra pessoa. Não tenho nem palavras para explicar a mudança”, desabafou.
A dona de casa Deusiane Fonseca Ferreira, 26, jogou escondida do marido por três meses. “Eu queria quebrar a rotina. Estava sempre estressada. Até a minha autoestima subiu”. Empolgada, ela contou que o marido descobriu a mentira, mas a autorizou a participação nos jogos. A amiga Maria Aparecida Souza Rodrigues, 26, participou da brincadeira pela segunda vez neste domingo. Da primeira vez, falou ao marido que ia assistir ao jogo. Mas não resistiu: dobrou as calças e entrou em campo. Quando foi obrigada a deixar o jogo por causa do filho de 10 meses, Maria chorou. “Aqui você brinca, sorri, se diverte. Ainda tem uma palavra amiga e conforto com as outras mulheres”, contou.
Mas o maior orgulho de todas as participantes é Maria Celina Rodrigues da Costa, 51. Zagueira, é aplaudida e elogiada pelas adversárias e tem torcida toda vez que tira uma bola da grande área. Antes de se envolver com o futebol, Celina tinha depressão e quase não saía de casa, a não ser para ir ao médico ou supermercado. Mesmo sem entender sobre futebol, ela resolveu passar por cima de todas as dificuldades e enfrentar o campo. Hoje em dia, a vida dela é bem diferente. “Minha vida mudou aos poucos e agora é bem diferente de antes. Eu precisava de uma ginástica. Hoje eu me sinto bem!” comemorou. “Ela melhorou muito, principalmente a coordenação motora e a convivência com as pessoas”, elogiou uma colega de time.
Esta matéria tem: (5) comentários
Autor: ADELMAR SILVA FERREIRA SILVA FERREIRA
Parabens Meninas vcs sao Numero 1.000 a vida Se comeca aos 40 anos
Autor: Maquiela Delazari
PARABÉNS a todas pela iniciativa!!!! São todas um exemplo a ser seguido!
Autor: manoel vieira dos anjos
PARABENS,ESTE ESPORTE DEVERIA SER MAIS BARATO PARA QUE TODOS PARTICIPASSEM,MAIS É COM A GARRA DESTAS SENHORAS QUE EU SÓ TENHO É QUE PARABENISAR!!!!CONTINUEM ASSIM QUE VCS DÃO UM
Autor: Jerusa Dantas
É is ai, mullheres de muita garra. Continuem sempre unidas e correndo atrás da bola. Divirtam-se muitoooo.
Autor: adyson
Parabéns a todas elas pela organização e pela iniciativa.