FESTIVAL DE BRASÍLIA » Glória Pires e Paulo Miklos são as estrelas do longa É proibido fumar

Ricardo Daehn

Publicação: 22/11/2009 15:49 Atualização: 22/11/2009 17:35

Logo que despontou no cenário nacional, há sete anos, a diretora Anna Muylaert ouviu de muitos que o premiado filme dela, Durval discos, tinha dois lados: A e B (num primeiro momento melancólico e, subitamente, soterrado por violento ar surreal). À frente do novo longa, É proibido fumar — concorrente a troféus Candango —, detido num triângulo dramático, Anna encoraja a leitura até de um lado C. “Pode até ser um disco de três lados, mas isso por causa do final surpreendente”, brinca. O gosto de integrar cinema e música deriva de várias explicações: a mãe de Anna foi professora de violão (tal qual a protagonista, interpretada por Glória Pires)e, de forma amadora, a cineasta já tocou baixo, além de ter sido casada com André Abujamra. “Na verdade, em termos de amizades, fui mais da turma da música do que da do cinema”, explica.

Baby (Glória Pires) e Max (Paulo Miklos): uma crítica a comportamentos de submissão - (África Filmes/Divulgação)
Baby (Glória Pires) e Max (Paulo Miklos): uma crítica a comportamentos de submissão
É proibido fumar bebe, portanto, da sonoridade, com inusitado eco da obra para violão de Heitor Villa-Lobos. “A gente foi colocando, experimentalmente, — depois, fui me deslumbrando e a trilha milionária, que fez estourar o orçamento, rendeu enorme qualidade”, observa. No fim, porém, o que pesa no filme é a história de amor (moldada na relação cão e gata) entre a solitária Baby (Glória Pires) e o novo vizinho, Max (Paulo Miklos), um músico de churrascaria. “A Regina Casé leu o roteiro e chegou à conclusão de que é o encontro entre o chinelo velho e o pé cansado”, ri. Nos bastidores, porém, nem tudo pendeu para a descontração. “Procurei o Paulo e a Glória por representarem um polo positivo e outro, o negativo. No processo de trabalho, que não foi fácil, houve crises e superações. A enorme eletricidade transparece na tela”, conta. Tudo foi arquitetado para desembocar no enredo que ressalta o desejo e a impossibilidade de satisfação.

Entusiasta do cinema independente americano, Anna Muylaert cita a devoção a Wes Anderson (de Viagem a Darjeeling), aos irmãos Joel e Ethan Coen e ainda ao Quentin Tarantino da época de Pulp fiction. Parados no tempo, os personagens gozam de distinções sonoras — “ela tem mais ligação com melodia e ele, com o ritmo” — e de alguma familiaridade com Durval discos. “Baby é, de certa forma, irmã do Durval. Ela mora na casa dos pais que morreram e usa roupas anacrônicas. A musicalidade do Villa-Lobos dos anos 1950, ajudou a dar o clima de mofo que ela tem. Quando entra o personagem do Miklos, ele muda a musicalidade”, adianta a diretora.

Com custo de R$ 3,8 milhões, o longa demandou uma infra-estrutura pesada (para o arcaico formato Super 35), numa via de resistência ao digital, “que acabou”. Em mais uma investida simbólica, a diretora exagera, aos risos, cravando que “a evolução do roteiro trata de um mito”. Além de quase dar vida a objetos como violão e o cigarro (“que é animado, na boca do fumante”), Muylaert enfocou uma crítica a comportamentos de submissão. “Acho que as mulheres evoluíram, principalmente no campo profissional mas, no aspecto afetivo, ainda existe uma tendência grande de se colocarem como serviçais dos homens — isso mesmo que não queriam, ocorre até com as ricas e poderosas. Nesse quesito, há tanto uma carga milenar, quanto uma luta da mulher”, avalia a cineasta.

Gangue alternativa
Na trama do longa, o “cenário humano” é composto por 15 participações de intérpretes de papéis como os alunos de Baby, familiares das personagens, o pessoal do prédio do casal e gente vista no elevador. Somadas à coadjuvante Alessandra Colasanti (a eterna Bailarina de Vermelho, “um geniozinho”, como ressalta Muylaert), despontam figuras pouco tradicionais, como Antônio Edson, Paulo César Pereio, Lourenço Mutarelli e Etty Faser. “No fim, é uma história sobre duas pessoas, mas você viu mais gente”, explica.

Para dar andamento ao filme, Anna conta que aguardou espaço livre na agenda de Glória Pires, um imã de popularidade, mas que “trouxe a maestria no vídeo como qualidade principal”. Curioso é a estrela global estar numa produção “sobre pessoas não muito sérias”, como define a diretora. No filme, é gritante a avacalhação com o modo de ser do brasileiro: “Os personagens seguem a linha do ‘tá errado, mas bola para frente’, ‘aceita como tá’”.

Ex-crítica de cinema, a cineasta não se deu refresco, nos bastidores de É proibido fumar. O agrado ao público, à crítica e ao júri oficial de Gramado (com Durval discos), não atenuou cobranças: “É você com você mesmo, numa questão do tipo ‘pô, não posso baixar de nível!’ (risos). O segundo filme é um fantasma, mesmo. No Brasil, com um passo em falso você cai do mercado”, explica a diretora, que fez questão de guardar a exibição do inédito longa para a capital. “A gente preservou porque o Festival de Brasília está meio abandonado pelos realizadores e não existe razão para isso: o festival ainda tem a atenção da imprensa, em nível nacional. E acho que meu filme foi feito para o Brasil”, conclui.

Ouça trechos da entrevista com a diretora Anna Muylaert

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