Presidente do Irã defende o Brasil no Conselho de Segurança da ONU e recebe apoio a seu programa nuclear

Isabel Fleck

Publicação: 24/11/2009 08:28 Atualização: 24/11/2009 09:08

Depois de três horas de conversa com o "bom amigo" Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente iraniano, Mahmud Ahmadinejad, parece só ter confirmado as convergências de interesses que o fizeram vislumbrar no Brasil um companheiro para sua empreitada de deslocar o eixo de poder das grandes potências ocidentais. Em breve coletiva à imprensa, o iraniano disse que os dois países "procuram resolver os problemas do mundo, combater as injustiças e buscam um mundo livre de armas de destruição em massa, particularmente armas nucleares". Aproveitou para defender, diante do anfitrião, o ingresso do Brasil como membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

"O Conselho de Segurança precisa passar por profundas mudanças. Apoiamos a candidatura de novos membros individuais. Apoiamos a presença do Brasil como membro permanente", disse Ahmadinejad. Além das afinidades no terreno estritamente político, os dois governos assinaram diversos acordos nas áreas de energia, comércio, ciência e tecnologia e agricultura.

Lula (1) retribuiu a solidariedade sem meias-palavras. "O que o que defendemos para o Brasil, defendemos para os outros", afirmou. "O Brasil tem um modelo de desenvolvimento de energia nuclear reconhecido pelas Nações Unidas e pela AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) e, ao mesmo tempo, sabemos da polêmica que existe em torno do mesmo desenvolvimento acontecido no Irã", disse. "O que nós defendemos é que o Irã tenha o direito de desenvolver o enriquecimento de urânio para produção de energia, portanto, para fins pacíficos, da mesma forma que o Brasil está desenvolvendo", completou.

Ahmadinejad aproveitou a única pergunta feita pela imprensa brasileira para "desmentir" que a proposta de o país "exportar" seu urânio para enriquecimento no exterior e depois "importá-lo" de volta como combustível para seus reatores, tenha sido feita pela agência da ONU e pelos países ocidentais. As negociações sobre o impasse estão paralisadas pela recusa de Teerã à fórmula apresentada. "A proposta de troca de combustível foi feita originalmente pelo Irã, não pela AIEA. Há quatro meses, o Irã, no intuito de criar uma nova oportunidade para o governo americano e outros países e para mudar esse clima, apresentou uma proposta para o intercâmbio de combustível (nuclear)", afirmou.

Segundo o visitante, seu país "tem condições técnicas de enriquecer urânio até um grau de 20%", porém abriu a mão desse direito em prol do diálogo com o Ocidente. "Dissemos à AIEA que estávamos prontos para comprar esse combustível necessário e comunicamos essa decisão por escrito", explicou. Dias depois, a AIEA enviou carta propondo que Teerã repassasse 1.250kg de urânio enriquecido a 5% para que seja enriquecido a 20% (fora do país) e depois repatriado. "Em princípio, concordamos com a proposta apresentada. Mas o outro lado se mostra disposto a continuar com suas tendências hegemônicas, e isso não é aceitável para nós", explicou, alegando que os países que dizem tentar negociar estão fazendo uma "campanha negativa" contra Teerã. De acordo com Ahmadinejad, seu governo também quer "concretizar o acordo", mas não vai permitir que os países ocidentais ignorem sua condição de signatário do Tratado de Não Proliferação. "Não vamos abrir mão dos nossos direitos legais", garantiu.

1 - De olho na terra
A comitiva iraniana chegou a Brasília com a intenção de fechar acordos que permitissem a seus empresários participar na exploração agrícola em terras brasileiras. Segundo o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, o Irã não é o primeiro país a sugerir tal proposta, mas o governo brasileiro não aceitou por não ser esse "o nosso modelo". "O que poderia ser discutido é eles fazerem contratos de longo e médio prazo com cooperativas e produtores brasileiros, para ter um fluxo de atendimento (agrícola)", afirmou o ministro. O único acordo fechado é de cooperação técnica com a Embrapa, para troca de informações e pesquisa. "Eles estão interessados em tecnologias para utilização no semiárido e cultivo de laranjas", explicou.

Veja vídeos sobre os protestos na Esplanada dos Ministérios


Ataque à intolerância
Apesar da sintonia desfilada com o governo iraniano, o presidente Lula fez questão de destacar, na sua fala inicial, o compromisso da política externa brasileira com a "democracia e o respeito à diversidade". "Defendemos os direitos humanos e a liberdade de escolha de nossos cidadãos e cidadãs com a mesma veemência com que repudiamos todo ato de intolerância ou recurso ao terrorismo", disse o presidente brasileiro, ainda em tom de justificativa pelo convite feito ao iraniano.

Lula confirmou que deve ir ao Irã em abril ou maio de 2010, mas que antes enviará o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, em uma missão para identificar novas oportunidades de comércio, investimentos e cooperação. Ao discursar para um auditório lotado de empresários, durante a tarde, ainda no Itamaraty, o presidente afirmou que o Irã é "um dos maiores mercados para as exportações agrícolas brasileiras e, em breve, poderá voltar a ser o principal destino das exportações brasileiras no Oriente Médio". Ahmadinejad veio ao Brasil com uma delegação de quase 200 empresários, que devem ficar no país por mais dois dias. O presidente iraniano, no entanto, segue para a Bolívia na manhã de hoje, e, de lá, para a Venezuela.

Esta matéria tem: (3) comentários

Autor: Benedito Castro
... com o Hugo Chaves da Venezuela e o Evo Morales na Bolívia. Os protestos embora não resolva nada, demonstra que ele é pessoa "non grata" ao País. Enquanto ele não exclarecer como foi sua eleição adulterada lá no Irã, ele não conseguirá convencer ninguém com essa sua cara de bom samaritano fajuta.

Autor: Benedito Castro
... de energia comercial e residencial e, não é isto que é processado no Irã. Se é pacífico, porque tanta polêmica quando se fala em inspecionar as usinas nucleares do Irã. Para um Presidente eleito por fraudes nas eleições, o Ahmadinejad não inspíra nenhuma credibilidade. O dialogo dele deve ser...

Autor: Benedito Castro
O que o Presidente Lula quer com o Presidente Iraniano? Só pode ser troca de tecnologia nuclear talvez para fabricar artefatos de guerra, como o fazem os cientistas do Irã. Míssil não é para fins pacíficos e o Irã já tem muitos. Energia para fins pacíficos é utilizada em reatores para fornecimento..

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