CONDOMÍNIOS » Perito questiona valores de lote no Jardim Botânico vendido por licitação em 2006 Em ação judicial movida por moradora contra o preço cobrado pela Terracap, técnico diz que houve supervalorização de 86%

Luísa Medeiros

Publicação: 25/11/2009 07:20 Atualização: 25/11/2009 08:27

O modelo de avaliação dos lotes em condomínios horizontais adotado pela Companhia Imobiliária de Brasília (Terracap) está em xeque. Um laudo pericial feito pela Justiça mostra que a empresa pública supervalorizou em 86% o valor de um terreno vendido por licitação em 2006.

O imóvel de 581 metros quadrados no condomínio Mansões Califórnia, localizado na Etapa I do Jardim Botânico, foi ofertado à época por R$ 117,3 mil. Três anos depois, um perito nomeado pela 2ª Vara de Fazenda Pública do Distrito Federal calculou que o preço real da terra nua, descontando as benfeitorias de obras de infraestrutura, deveria ter sido de R$ 62,8 mil. A decisão final caberá ao juiz Carlos Divino, da Vara de Meio Ambiente, Desenvolvimento Urbano e Fundiária do DF.

Para fazer o novo cálculo, o perito Victor Emmanuel Saboya obteve documentos tanto da Terracap quanto da parte que pediu a perícia de avaliação do lote à Justiça, a professora Ana Paula Pedrosa de Lima Marques, 44 anos. Ela participou da licitação nº 1 de 2006, que ofereceu a chance de compra do lote dela e mais 31 no Jardim Botânico. A professora depositou a caução de R$ 5.865 no banco, mas entrou com ação judicial uma semana depois.

Pediu que fosse feito perícia para averiguar se o terreno estava em área particular ou pública, para reavaliar o preço ofertado pela Terracap e que a caução permanecesse em juízo. “Não aceitei a licitação, mas participei para poder questioná-la. Tinha comprado antes meu terreno de um proprietário particular, que me apresentou o registro da área de 160 hectares na fazenda Taboquinha e a cadeia dominial”, lembra ela.

O perito, cujo trabalho foi pago pelos moradores do Jardim Botânico, apresentou no laudo do último dia 19, obtido com exclusividade pelo Correio, uma equação básica considerando o valor da venda do lote, a valor da terra nua, as despesas do governo, o lucro e a valorização do empreendimento diante da hipótese de regularização. Levou em consideração a tabela publicada pela revista Pini referente aos custos de urbanização abrangendo janeiro de 2006 e agosto de 2007.

Victor Saboya comparou os valores praticados pela Terracap na venda direta dos imóveis da Etapa I do Jardim Botânico, ocorrida em 2007. Á época, a empresa ofereceu o metro quadrado dos lotes, em média, por R$ 107,96. Um ano antes, quando abriu processo de licitação da mesma área, a companhia estipulou R$ 208,90 para o preço médio do metro quadrado.

Terra nua
Victor Saboya concluiu em seu cálculo que sobre o preço do terreno licitado — se atualizado para agosto de 2007 — estava muito próximo ao valor ofertado pela companhia (a partir de R$ 71 mil) no processo de venda direta dos lotes da Etapa I do Jardim Botânico, que considerou o preço de terra nua das áreas. De acordo com o documento, “não há como dizer que a avaliação da terra nua proposta pelo perito não está coerente com as vendas diretas de áreas equivalentes, com uma diferença de 1%”.

Para o advogado que representa a ação judicial, Mário Gilberto de Oliveira, o laudo pericial mostra que a Terracap não considerou que as benfeitorias foram feitas pelos moradores. “A Terracap não pode cobrar por algo que não fez. O critério de terra nua não foi seguido”, afirma. Mário Gilberto ressalta que o modelo adotado pela empresa para avaliação dos lotes em condomínios horizontais pode ter prejudicado outras pessoas.

O diretor técnico da Terracap, Luiz Antônio Reis, destaca que o laudo produzido pelo perito ainda será apreciado pelo juiz responsável e preferiu não comentar as conclusões dele. “Nosso departamento jurídico está a par da situação e vai verificar o que foi concluído. Iremos esperar a sentença judicial”, diz. Para a presidente da União dos Condomínios Horizontais do DF (Unica), Junia Bittencourt, está claro no laudo pericial que o imóvel tinha condições de ter sido vendido pelo preço praticado na venda direta de lotes da Etapa I do Jardim Botânico em 2007.

“A Terracap joga muito para cima os valores e o impacto disso é muito importante, não só para os lotes em condomínios, mas como para o mercado imobiliário em geral, que é norteado pelo preço deles. Se o juiz acatar esse laudo, teremos que reavaliar e acompanhar toda a avaliação de imóveis proposta pela Terracap”, acredita Júnia.



"Nosso departamento jurídico está a par da situação e vai verificar o que foi concluído. Iremos esperar a sentença judicial"
Luiz Antônio Reis, diretor técnico da Terracap



Duplicidade da posse
Em 23 de abril de 2008, o perito Victor Saboya emitiu a primeira parte do laudo pericial pedido pela professora Ana Paula Marques à Justiça sobre a propriedade e a localização geográfica do lote de 581 metros quadrados no Mansões Califórnia, na Etapa I do Jardim Botânico. Ele constatou que havia duplicidade de título no 2º Cartório de Registros de Imóveis do DF entre as fazendas Taboquinha e Papuda, onde está localizada as etapas 1 e 2 do Jardim Botãnico. Tanto a Terracap quanto Ivan Alves Côrrea obtiveram matrículas das terras.

De acordo com o advogado Mário Gilberto de Oliveira, o laudo pericial afirma que há decisão judicial, transitada em julgado, que assegura a Ivan Côrrea a posse do imóvel com área de 160 hectares na Fazenda Taboquinha. Ele destaca que a Terracap entrou na Justiça com uma ação de reintegração de posse em 13 de fevereiro de 1975. E perdeu em todas as instâncias. No entendimento do diretor técnico da Terracap, Luiz Antônio Reis, a perícia afirma que o Mansões Califórnia está dentro da Fazenda Papuda I, que é de propriedade da empresa. “A área que eles reclamam não corresponde ao terreno que ocupam. Houve um deslocamento de área no ato da matrícula”, afirma.

Esta matéria tem: (17) comentários

Autor: Hercilio Silva
Gostaria de saber porque a imprensa não denuncia a questão fundiária no DF, se houve invasões a rodo, é porque não havia meios legais, foi proposital para dar lucro a grileiros. Regularizar com preços irreais é inconstitucional, o certo é baratear os terrenos para permitir ao cidadão honesto comprar.

Autor: Roberto E Duardo
Estamos pagando o pato pela leniência (até mesmo cumplicidade criminosa) que governos tiveram com a máfia da grilagem.

Autor: Roberto E Duardo
ROGÉRIO CRUZ, que tal comprar um lote vazio de 150m2 em Santa Maria por R$ 60.000,00? Bobinho você...kkkkkkkk, tenho que rir

Autor: Roberto E Duardo
Bobinhos! Todos sabiam que tavam comprando coisa irregular. Tinham é que ser processados, mas quem vai processar? O vizinho?

Autor: Roberto E Duardo
Se isso passar, passarei a pensar que o CRIME COMPENSA!

Autor: Roberto E Duardo
Mais barato que em santa Maria? Desse preço quero 5 lotes no Jardim Botânico. Me pergunto quantos juizes, promotores, procuradores, advogados, políticos, etc, devem ter lotes naquela área.

Autor: Jarbas Massuquetto
É incrível como tem gente que não percebe que é tudo uma jogada do GDF. Supervalorizam os preços para que as imobiliárias aumentem seus lucros e o IPTU seja cada vez maior. Tem que ser muito ingênuo para não perceber isso. Sem contar que desde quando que um empresa do governo tem que ter tanto lucro?

Autor: Hercilio Silva
Finalmente uma decisão com os pés no chão. O GDF patrocina a especulação imobiliária e cobra imposto embutido no preço dos terrenos, o que é inconstitucional. Por isso os imóveis estão caros, lote no Noroeste vai pagar até a Copa de 2014, quem consegue pagar esses preços do DF? Com salário? duvido

Autor: Zec Melo
Absurdo! O M² a 62 mil no Setor Habitacional Jardim Botânico. Pensando bem não é absurdo. O perito foi pago pelos ocupantes dos lotes..rs. As pessoas que moram no SHJB sabiam dos riscos quando compraram sem licitação, pois, na maioria, são bem instruídos. Agora querem posar de vítimas? Fora grilagem!

Autor: Guilherme Aires
Os habitantes dos condomínios do Jardim Botânico Não tem que pagar nada a mais do que pagaram pelos lotes. A terra é particular, sempre foi!

Autor: ROGERIO CRUZ
Parabéns a esse perito, seu trabalho foi perfeito, o valor da terra nua dos condomínios está muito abaixo daquele praticado pela terracap do governo verde. O preço justo para os moradores dos condominios é aquele pago aos "empreendedores" com a devida atualização monetária.

Autor: ROGERIO CRUZ
É assim que o governo verde produz as supervalorizações dos imóveis em Brasília. Não é só esse caso, todos estão vendo o que está acontecendo com o NW, com oTaquari, etc...Quando os cidadãos(ãs) dessa cidade correram para os condominios horizaontais "irregulares" é porque não lhes restaram outra via.

Autor: Pedro Junior
Além de pagar mais barato estão fazendo lobby para pagar apenas a TR sem juros o que fará com que o contribuinte em geral (os brasilienses) fiquem com o prejuízo de o governo não receber juros pelos empréstimos. É uma vergonha.

Autor: Pedro Junior
O engraçado é que se eu quiser comprar um lote nesta região em licitação pública terei que dar um lance mínimo maior que 200000 reais. Isto que o terreno nem é condomínio fechado. E os juros são de 12% a.a. + TR enquanto o deles é de 3% a.a. + TR e ainda estão fazendo lobby para tirar os juros.

Autor: celio
Acho que vem por aí uma enchurrada de processos contra a terracap. É bom os outros condomínios ficarem de olho no desfecho final dessa história. Afinal esse é o castigo merecido de uma ganacia sem fim da terracap.

Autor: Fábio F.S
O que eu vejo é que as pessoas que invadem lotes tem como "prrêmio" pagar barato pelo lote valorizado. E as demais que procuram lotes legalizados têm que pagar caro e valorizado. É um absurdo. O governo tem q parar de penalizar os honestos e penalizar os desonestos, aproveitadores, grileiros e etc

Autor: francisco bezerra
Esse Perito deve ser louco! R$ 60 mil é o preço do lote em santa Maria...

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