REMÉDIO DA DISCÓRDIA À VENDA » Proibida na Europa e sob restrição nos EUA, a sibutramina, usada para emagrecer, divide a opinião de médicos e pacientes no Brasil

Luiza Seixas

Publicação: 27/01/2010 09:05 Atualização: 27/01/2010 09:14

Uma das substâncias para emagrecer mais vendidas no mundo foi proibida esta semana pela Agência Europeia de Medicamentos. A sibutramina, famosa entre brasileiros e americanos, não poderá mais ser vendida e nem recomendada por médicos na Europa, pois, de acordo com o órgão, “os riscos que este medicamento provoca são bem maiores do que seus benefícios”, aumentando assim as chances do paciente de sofrer derrame e infarto, segundo relata a agência. A medicação é vendida com os nomes Reductil, Reduxade, Zelium e Meridia. Para tomar a providência, a agência se baseou em dados do Estudo Scout, que avaliou 10 mil pacientes durante seis anos e apontou risco de problema cardiovascular maior entre os que usavam o remédio.

Nos Estados Unidos, a venda de medicamentos com a substância é restrita desde dezembro. Um trabalho realizado pela Agência de Alimentos e Medicamentos americana (FDA, de Food and Drug Administration) também observou que a droga aumenta o risco de infartos e derrames em pessoas que têm problemas cardíacos. De acordo com o estudo, 11,4% dos consumidores da sibutramina morreram ou sofreram paradas cardíacas.

Mesmo com esses dois exemplos, no Brasil a droga ainda é vendida e, em alguns casos, defendida pelos médicos. Segundo o relatório da Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes (Jife), o país continua sendo o que mais consome remédios para emagrecer, seguido da Argentina e dos Estados Unidos. O presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, Ricardo Meirelles, alega que as 10 mil pessoas do estudo da Scout eram portadoras de doença cardiovascular e, por isso, não são elegíveis para a prescrição da substância. “A sibutramina, como a própria bula estabelece, não deve ser prescrita para pacientes com doença cardiovascular. Na realidade, a análise final dos resultados ainda não foi publicada e os resultados são preliminares, mostrando que, em pacientes com distúrbios cardiovasculares, os riscos parecem superar os possíveis benefícios do uso da sibutramina”, explica.

Como destacou, o medicamento já é comercializado há mais de 10 anos e não há, até o momento, evidências de que sua prescrição criteriosa, apenas para pacientes sem contraindicações formais para o seu uso, ocasione aumento de eventos cardiovasculares. “Como a obesidade é um dos maiores problemas de saúde pública dos dias atuais, é necessário lançar mão de todos os recursos terapêuticos seguros e consagrados por pesquisas científicas, com o objetivo de combatê-la”, argumenta Meirelles.

Para a endocrinologista Elisiane Brandão Leite, a suspensão da substância foi uma surpresa, pois é rotina dos médicos da área recomendarem o tratamento de redução de peso com o remédio. “Então, é um medicamento confiável, mas, claro, tem que ser administrado e acompanhado pelo médico. O paciente tem que voltar após a primeira consulta e utilizá-lo por um período específico”, alerta. Segundo a especialista, a quantidade não deve passar de 20mg por dia e a medicação não deve ser utilizada por mais de dois anos.

Mas a endocrinologista não nega que pode haver, sim, efeitos colaterais. “O paciente pode sentir um aumento na frequência cardíaca e uma redução do ritmo intestinal”, completa.


Caso a caso


Veja em quais casos o Consenso Latino-Americano de Obesidade acredita ser possível o uso de medicamentos para emagrecer:


  • Em pacientes com Índice de Massa Corporal (IMC) igual ou superior a 30kg/m²
  • Em pacientes com IMC igual ou superior a 25 kg/m², acompanhado de outros fatores de risco, como a hipertensão arterial, diabetes mellitus tipo 2, hiperlipidemia etc.
  • Quando não alcançados os objetivos com planos alimentares e estímulo a atividades físicas


  • A endocrinologista Elisiane Leite:
    A endocrinologista Elisiane Leite: "É um medicamento confiável, mas tem que ser acompanhado pelo médico"

    Batimentos nas alturas

    Para a paciente Luísa de Carvalho, que há seis meses toma o remédio para emagrecer, a sibutramina tem ajudado a controlar, principalmente, as crises de ansiedade que a faziam comer muito. Ela conta que, com o esforço diário de controlar a alimentação e frequentar academia, já conseguiu reduzir 5kg. “É um trabalho em conjunto. Só o remédio, eu acho que não faz tanto efeito”, pondera.

    Ela acredita ainda que o remédio não é tão forte a ponto de ter que ser proibido no Brasil. “Nestes seis meses, eu não tive qualquer efeito colateral.”

    A opinião de Gabriel Assis não é a mesma. Ele diz que, também com acompanhamento, tomou o remédio por um mês para ajudar na meta que ele tinha, de perder 20kg. Nele, o remédio foi utilizado para perder apenas 3kg, mas o suficiente para que sentisse uma série de sintomas. “Além da total falta de fome, meus batimentos cardíacos ficaram acelerados, eu fiquei muito irritado, mais elétrico e com dificuldade para dormir”, conta.

    Para Gabriel, se já foi diagnosticado que o remédio realmente faz mal, ele deve ser suspenso. “Por todas essas consequências que ele traz, eu acho que é agressivo, sim. Eu tomei por pouco tempo e já tive todos esses sintomas. Fico imaginando quem toma por um tempo prolongado.” (LS)

    Esta matéria tem: (2) comentários

    Autor: Julio
    Antiinflamatórios aumentam o risco de hemorragia digestiva e nem por isso são proibidos, são necessários em inúmeras situações. Certos analgésicos podem provocar lesão no fígado, nem por isso devemos deixar as pessoas sentindo dor. Nem todas as pessoas tem reações negativas, ou contraindicações.

    Autor: Francisco Vieira
    As pessoas são diferentes umas das outras, por isso é importante um médico para avaliar as respostas individuais. Agora, proibir seria cortar os benefícios para que pode tomá-la.

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