Considerado estratégico para o desenvolvimento de qualquer país, o setor de ciência e tecnologia depende, além de investimentos em laboratórios e centros de pesquisa, de pessoas estimuladas e qualificadas. E uma das formas de identificar aqueles que poderão desempenhar um trabalho científico de qualidade e estimulá-los a continuar na carreira acadêmica, segundo especialistas, são os prêmios que reconhecem novos talentos.
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| Daniel venceu a Olimpíada de Matemática no ano passado: "Sei que o Brasil é carente de matemáticos e físicos. Quem sabe eu não possa contribuir mais tarde nessas áreas?" |
Foi a partir da conquista de uma dessas premiações que Vanderlei da Conceição Veloso Júnior, 25 anos, decidiu se tornar cientista. Em 2001, quando tinha 17 anos e cursava o 3º ano do ensino médio, Veloso venceu o Prêmio Jovem Cientista. A conquista veio por meio de um trabalho de física realizado para a feira de ciências da escola. “Eu não tinha contato com a ciência, a não ser nas aulas. Mas o professor insistiu para que eu me inscrevesse e deu certo. Vencer me motivou a seguir a carreira acadêmica”, diz o rapaz, que hoje faz mestrado em zoologia na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC/MG).
Ele conta que, a partir daquele momento, surgiram diversas oportunidades para trabalhar em pesquisas, entre elas uma bolsa de iniciação científica. “Eu me senti capaz de entrar no mundo da ciência e comecei a fazer estágios em laboratórios. Não parei mais.” Tudo isso acabou ajudando na formação de currículo extenso, que o ajudou a ingressar no mestrado. “Os prêmios abrem portas”, resume.
Como em qualquer carreira, o reconhecimento é um importante elemento para o sucesso no meio acadêmico. “O Brasil precisa avançar muito no reconhecimento e na atribuição de valor aos novos talentos, para formar produtores de conhecimento”, afirma Gilberto Lacerda, professor da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB). Ele acredita que os prêmios têm duas características com direções distintas e complementares. Por um lado eles atuam como elemento de reconhecimento pelo trabalho realizado. Por outro, são fatores de incentivo, apoio e fomento para a realização de mais pesquisas científicas. “Ninguém faz ciência sozinho. Esses prêmios não são somente para o cientista. Eles acabam premiando toda uma equipe, o que permite a todas as pessoas que trabalham, direta ou indiretamente, também serem reconhecidas”, avalia o educador.
Para os mais jovens, principalmente aqueles que ainda estão no ensino médio e fundamental, reconhecimentos desse tipo são fundamentais e contribuem para que se faça entender a ciência como um empreendimento possível. “No caso dos jovens, o valor simbólico que o prêmio representa é mais importante que o financeiro. Quando ele recebe um prêmio que o faz ser amplamente reconhecido pelo seu trabalho, isso reforça sua autoestima e cria um engajamento maior com a ciência, fazendo com que esse indivíduo persista na carreira científica e constitua a nova leva de cientistas no país”, defende Lacerda.
Com apenas 12 anos, Daniel de Almeida Sousa, aluno do 7º ano do ensino médio do Colégio Militar de Brasília (CMB), venceu a Olimpíada de Matemática 2009, na categoria nível 1 — correspondente ao 6º e 7º anos do ensino médio. O adolescente disse que ganhar o primeiro lugar nacional o deixou motivado a participar de outras edições. “Eu me senti desafiado. Quero chegar à edição internacional, ser reconhecido”, planeja. Quando perguntado se gostaria de seguir a carreira cientifica, Daniel não descarta a ideia. “Ainda é muito cedo. Não sei como funciona a pesquisa. Mas sei que o Brasil é carente de matemáticos e físicos. Quem sabe eu não possa contribuir mais tarde nessas áreas?”
MotivaçãoNas últimas três décadas, foram constituídos prêmios importantes no Brasil, resultado de parcerias entre governo, organizações internacionais e empresas privadas, que trazem fomento tanto para cientistas com carreiras já consolidadas, quanto para jovens de ensino médio e universitários. Entre eles, estão o Prêmio Jovem Cientista, o Prêmio Mercosul de Ciência e Tecnologia, a Olimpíada Brasileira de Matemática (OBM) e o Prêmio Petrobras de Tecnologia. “Não se constrói uma nação sem conhecimento científico, que gera tecnologia”, afirma Ary Mergulhão Filho, oficial de ciência e tecnologia no Brasil da Unesco, promotora do Prêmio Mercosul, com patrocínio do Ministério de Ciência e Tecnologia.
Os prêmios também são importantes para quem já ingressou na área da pesquisa. Segundo Lacerda, eles são fundamentais para que o trabalho realizado se mostre útil para a sociedade. “Isso é muito positivo, porque, muitas vezes, o cientista tem a impressão de que seu projeto não tem ligação direta com a sociedade. A premiação diz exatamente o contrário: que o trabalho do cientista é importante e que é útil para a sociedade e para o desenvolvimento do bem comum.”
Jéssica de Matos Nunes, 22 anos, estudante de farmácia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e vencedora do Prêmio Mercosul de Ciência e Tecnologia de 2009, na categoria universitário, sempre se interessou pela carreira científica, mas só depois de entrar na universidade pôde descobrir como é o dia a dia de um pesquisador. Terminando sua graduação e integrante de um grupo de pesquisa, ela é categórica ao afirmar que a produção científica é seu projeto de vida. “Quero ficar dentro da universidade”, diz.
Quanto aos prêmios, Jéssica afirma que é “uma oportunidade que não dá para desperdiçar”. Contudo, a jovem aponta a falta de incentivo, divulgação e financiamento de pesquisas como os problemas que mais afetam a categoria e afastam talentos que poderiam seguir na carreira. “Passamos por muitas dificuldades de financiamento para tocar os projetos, assim como incentivo e divulgação. Ter uma pesquisa premiada é o reconhecimento de um árduo trabalho e uma grande motivação para continuar, além de mostrar que estamos no caminho certo”, afirma a jovem.
Já Carlos Volais ganhou da 2ª edição do Prêmio Jovem Cientista em 1982 — na época o prêmio aceitava pessoas até 30 anos na categoria jovem cientista. Ele havia terminado o mestrado e venceu o concurso com um trabalho sobre fontes alternativas de energia. Volais conta que o prêmio o ajudou na progressão da sua carreira. “Vi que meu projeto tinha consistência e que os colegas o reconheciam. Tinha 28 anos e a conquista foi um incentivo para eu continuar”, lembra o atual diretor do departamento de engenharia mecânica da Pontifícia Universidade do Rio de Janeiro (PUC/RJ).
Os especialistas afirmam que a busca pelo interesse dos jovens na ciência deve ser feita por meio de ações diversas, que vão além dos prêmios. A mais importante delas é a educação científica. “Nesse ponto, o Brasil é um dos campeões em ineficiência, pois não há aparatos para despertar a consciência de que a ciência pode ser um projeto de vida”, lamenta Lacerda. Para Mergulhão Filho, da Unesco, faltam incentivos aos jovens para conhecerem a ciência desde muito cedo. “O prêmio é apenas um desses mecanismos”, afirma.
Ouça entrevista com o professor da UnB Gilberto LacerdaInformações
Prêmio Jovem Cientistawww.jovemcientista.org.brOlimpíada Brasileira de Matemáticawww.obm.org.brPrêmio Petrobras de Tecnologiawww2.petrobras.com.br/minisite/premiotecnologia
Esta matéria tem: (2) comentários
Autor: Vanilda Vale
Srta. Sílvia Pacheco, Nós - familiares do Daniel de Almeida Souza, de Uberlândia/MG, sentimo-nos honrados e muito felizes com mais essa conquista do Dani (assim que o denominamos carinhosamente). Parabéns pela matéria. Vanilda Aparecida do Vale.
Autor: Vaine Souza
Srta.Sílvia Pacheco, Com muito orgulho vimos a matéria sobre o nosso filho Daniel. Para sermos justos, esclarecemos que o 1º lugar nacional foi de um outro aluno, também do Colégio Militar, de Salvador-BA. O Daniel ficou em 2º lugar na sua categoria no Brasil em 1º no DF.Abraço. Vaine José de Souza