SEU BOLSO » Inflação volta a preocupar; IPCA anualizado aponta índice entre 6,5% e 9% Números são muito altos para não provocarem dor de cabeça em um governo sério

Vicente Nunes

Publicação: 02/02/2010 08:00 Atualização: 02/02/2010 12:58

O reajuste das tarifas de transporte público em grandes centros urbanos pesa no cálculo do IPCA - (Carlos Silva/Esp. CB/D.A Press -9/10/09 
 )
O reajuste das tarifas de transporte público em grandes centros urbanos pesa no cálculo do IPCA
O mercado financeiro acendeu o sinal de alerta em relação à inflação. Ainda que a grande maioria dos analistas não veja o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) se distanciando muito do centro da meta de 4,5% perseguidos pelo Banco Central, está se formando o consenso de que a taxa final deste ano ficará mais próxima de 5%. Há pouco mais de um mês, o quadro era o oposto: o grosso dos especialistas via o índice oscilando entre 4,2% e 4,3%, ou seja, abaixo do objetivo fixado pelo governo.

A mudança nas projeções ocorreu depois de os economistas recalcularem as estimativas para o IPCA de janeiro, que será divulgado na próxima sexta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A taxa esperada praticamente dobrou, atingindo até 0,71%, índice que, quando anualizado, aponta para inflação de quase 9% — o dobro da meta oficial. E mais: com o resultado de janeiro, o IPCA acumulado em 12 meses ficará acima de 4,5%, fato que não se via desde junho de 2009, quando cravou 4,80%.

“Não podemos esquecer que, no mês passado, o IPCA foi afetado por fatores pontuais, como o aumento de 17,4% das passagens dos ônibus urbanos em São Paulo. Sozinho, esse item impactou a inflação em 0,14 ponto percentual (outro 0,03 ponto será captado em fevereiro, que também refletirá a alta das mensalidades escolares)”, disse o economista-chefe da Concórdia Corretora, Élson Teles. “Há, também, o efeito da alta do álcool, que repercutiu na gasolina, e dos produtos de safra curta, como as frutas e hortaliças, afetados pelo excesso de chuvas”, acrescentou.

O problema, assinalou o economista-chefe do Banco Schahin, Sílvio Campos Neto, é que os reajustes pontuais estão vindo acompanhados de aumentos em grupos de preços mais dependentes do aumento da renda e do aquecimento da economia. Por isso, o mercado acompanhará com lupa os núcleos da inflação, medidas que descontam altas atípicas de preços e de algumas tarifas públicas. “Essa é a inflação mais limpa, que dá um quadro mais claro do que realmente está acontecendo. Veremos se os reajustes pontuais tenderão a se esgotar até o início de março ou vão persistir”, frisou.

Alta dos juros
Os núcleos da inflação estão em alta desde dezembro passado. Na média, saltaram de 0,38% para 0,45% e devem ter atingido, no mês passado, 0,53%, o que, nos cálculos do economista-chefe do Banco BES Investimento, Jankiel Santos, dará uma taxa anualizada de 6,5%, o teto da meta oficial (que pode variar dois pontos para cima ou para baixo). É por isso que as expectativas de inflação vêm subindo há duas semanas seguidas, atingindo 4,62%, segundo a pesquisa Focus divulgada pelo Banco Central.

“Também é por isso que o BC está se mostrando cada vez mais propenso a antecipar o processo de aumento da taxa básica de juros (Selic)”, destacou Campos Neto. “O importantíssimo para o BC é que as expectativas não saiam do controle. Se isso acontecer, começará um processo indesejado de remarcação de preços”, complementou Élson Teles. Os dois economistas, inclusive, admitem a possibilidade de o Comitê de Política Monetária (Copom) começar a subir a Selic em março em vez de abril, para onde aponta o consenso do mercado.

A aposta dentro do governo, principalmente do ministro da Fazenda, Guido Mantega, é de que o mercado desligue o sinal amarelo com a promessa de se cumprir a meta de superavit primário (economia para o pagamento de juros da dívida) de 3,3% do Produto Interno Bruto (PIB) e com o fim dos estímulos fiscais (redução de impostos) dados no auge da crise mundial. No entender de Mantega, tais medidas tendem a tirar um pouco da pressão sobre o crescimento econômico, que estaria jogando a inflação para cima. No BC, porém, o clima é de preocupação. Já admite-se, por sinal, que o IPCA do primeiro trimestre ficará acima do 1,5% previsto no último relatório de inflação. Essa taxa já considerava todos os reajustes pontuais – inclusive o reajuste das mensalidades escolares. Com isso, a previsão oficial de inflação para o ano, de 4,6%, pode estar ultrapassada.


Leia íntegra do Boletim Focus


"O importantíssimo para o BC é que as expectativas não saiam do controle. Se isso acontecer, começará um processo indesejado de remarcação de preços”
Élson Teles, economista-chefe da Concórdia Corretora


Começo perigoso


Victor Martins
A inflação, que deu uma leve trégua em 2009, assustou o consumidor em janeiro. O Índice de Preços ao Consumidor - Semanal (IPC-S), medido pela Fundação Getulio Vargas (FGV), apresentou variação de 1,29% — maior resultado desde fevereiro de 2003, quando atingiu 1,55%. Reajustes em tarifas de ônibus em São Paulo e aumentos em cursos escolares figuram como os algozes do mês e são responsáveis por mais da metade da inflação.

A chuva também colaborou para deixar o custo de vida mais alto. Os alimentos in natura aparecem em terceiro lugar no ranking de vilões, pois as hortaliças ficaram 0,12% mais caras e as frutas, 0,11%. “Se juntarmos todos esses itens anteriores ao grupo combustíveis, no qual entra o álcool, também prejudicado pela chuva (subiu 0,10%), explicamos quase que toda a inflação”, disse o coordenador do Índice de Preços ao Consumidor, o economista Paulo Picchetti.

Ainda de acordo com Picchetti, a alta de mensalidades de cursos formais se tornou tradicional em todo começo de ano. Somente a chuva e o aumento no custo do transporte não eram esperados. “Por isso que eu acredito que essa alta é sazonal. É preciso ter cuidado com as projeções de inflação. A tendência é sem dúvida de em fevereiro haver uma desaceleração”, emendou.

 

Ouça entrevista com Paulo Picchetti, coordenador do Indice de Precos ao Consumidor - Brasil, da FGV, sobre a alta da inflacao em janeiro

 

Esta matéria tem: (4) comentários

Autor: Ricardo Cubas
Haja paranóia no Brasil. Janeiro sempre teve sazonalidade no aumento de preços. É mês de recebimento de férias e ainda há alguma coisa de décimo terceiro. Agora, basta um espirro para o BC já ver uma gripe crônica de inflação e já anunciar que vai aumentar ainda mais os tão elevados juros.

Autor: neide aguiar
Gastando desbragadamente como está gastando o Governo e incentivando o consumo a inflação já chegou. A culpa não é da chuva é da gastança.

Autor: Joaquim Aragão
Embora que o investimento total ainda esteja baixo, o em bens capital está bastante alto. Isso significa que vem aí aumento da capacidade produtiva do país, o que irá reduzir a pressão inflacionária. Essa pressão acontece quanto o aumento da renda está em descompasso com a capacidade produtiva.

Autor: Joaquim Aragão
É essencial que essa mexida na taxa seja feita de forma responsável. Qualquer aumento provocará a) um endividamento adicional; b) uma atração de capital especulativo, valorizando o real e prejudicando as exportações. O importante é seguir a evolução dos investimentos, sobretudo de bens de capital.

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