Trecho da reforma do Judiciário prevê a regalia para antigos ocupantes de cargos políticos Segundo texto, eles teria foro privilegiado para serem processados em Cortes superiores

Alana Rizzo

Publicação: 09/02/2010 08:16

"É uma das propostas que deve gerar mais polêmica. O foro garante agilidade nos processos. O Supremo julga mais rápido do que qualquer outra instância" Paes Landim (PTB-PI), deputado federal, relator da PEC 358/2005
Antigos ocupantes de cargos políticos estão mais perto de garantir o privilégio de só serem processados e julgados pelos Tribunais de Justiça ou Cortes superiores. A extensão do foro privilegiado está prevista na Proposta de Emenda à Constituição nº 358/2005, que trata da reforma do Judiciário e começa a ser discutida hoje pela Câmara dos Deputados. A matéria foi aprovada no Senado. Atualmente, apenas quem está no exercício da função tem direito ao benefício.

De acordo com o substitutivo do deputado federal Paes Landim (PTB-PI), relator do projeto, a competência para analisar ações de improbidade de ex-prefeitos será dos Tribunais de Justiça; de ex-governadores, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), e de ex-ministros e parlamentares, do Supremo Tribunal Federal (STF). Também tramitam na Casa propostas contrárias ao foro. Entretanto, em novembro, a Câmara marcou posição derrubando uma outra PEC que acabava com o foro para autoridades dos três poderes.

A proposta, que está na pauta do dia, vai na contramão do que pregam entidades ligadas à moralização da política nacional. A Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) rejeita a ampliação e defende, inclusive, o fim do foro. Presidente da associação, Mozart Valadares afirma que é necessário extinguir o benefício, que é “sinônimo de impunidade”. Valadares espera que o trecho da proposta não seja votado e que projetos como o que exige ficha limpa de candidatos a cargos eletivos sejam colocados na pauta.

"Não tem que aumentar o foro privilegiado. Tem é que extinguir, porque é sinônimo de impunidade" Mozart Valadares, presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB)
O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Ophir Cavalcante, explica que o foro foi instituído durante a ditadura militar para a defesa de ocupantes de cargos públicos e hoje, portanto, torna-se desnecessário. “Entretanto, temos alguns que defendem que a medida é boa porque concentra o julgamento em apenas um tribunal, mas, diante da falta de estrutura para a administração da Justiça, isso termina por dificultar a aplicação da lei.” Como exemplo da dificuldade da Justiça na instrução de processos, Ophir Cavalcante cita o caso do Mensalão, com 40 réus, que tem sido um verdadeiro desafio para o relator do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa.

O presidente da OAB admite a necessidade da promoção da reforma do judiciário. “A atual estrutura é um monstrengo que impede que a Justiça chegue perto do cidadão”, diz o presidente da OAB. Apesar de assumir a necessidade de mudança, o presidente diz que o Conselho Federal da autarquia ainda não tem posição de consenso em relação à Proposta de Emenda à Constituição da Reforma do Judiciário, que será votada hoje pela Câmara.

"O foro privilegiado foi instituído na ditadura para a defesa de ocupantes de cargos públicos e hoje, portanto, se torna desnecessário" Ophir Cavalcante, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB)
Autor do substitutivo da proposta e relator da matéria na Comissão Especial criada para discutir o assunto, o deputado Paes Landim sabe que a proposta é polêmica e vai provocar reações. “Acho que podemos discutir com calma hoje e votar na quarta”, diz. Ele defende que o foro garante agilidade e independência nos julgamentos. “As ações de tramitação no STF são mais rápidas e os julgamentos, também. É melhor do que começar no primeiro grau”, afirma. Com relação à impunidade, Landim diz que a sensação se dá quando um processo é mal instruído. Outro argumento usado pelo parlamentar é o de que os tribunais superiores julgam com menos paixão. “O Supremo, por exemplo, tem equilíbrio e serenidade, enquanto um juiz de primeira instância vai pela imprensa e a política”, critica.

Adendos
A PEC também aborda outros assuntos que devem render polêmica. Entre eles, mudanças nas regras de promoção na carreira de juízes, do grau de parentesco para o fim do nepotismo e a criação da Polícia Judiciária. Há alterações na composição e nas competências de alguns tribunais.

Esta matéria tem: (6) comentários

Autor: Joilton Silva
Só para esclarecer, o texto acima cita assuntos que devem render polêmica como a criação da Polícia Judiciária. Mero equivoco, pois o que se predende e criar uma "Polícia Adiministrativa" nos molde da Câmara e Senado o q trara simetria entre os Poderes. Salientando q P. Judiciária é a P. Federal CF.

Autor: jeziel oliveira
Difícil dizer se é boa ou não a proposta, uma vez que quaisquer das instâncias têm demonstrado uma completa ojeriza ao trabalho... per si... quanto mais em se tratando de processos contra... digamos, aliados, parentes, patrões, sócios... afinal, aos amigos do rei, Tudo! aos demais, a força da lei

Autor: Guilherme Rbr
A argumentação desse PAES LANDIM é ridícula e absurda! O STF é a instância que mais demora pra julgar. Ele tá é protegendo a impunidade dele e de seus colegas corruptos!

Autor: gilvan gilvan andrade
Isso é uma vergonha, o próprio nome ja diz: FORO POR PRERROGATIVA DE FUNÇÃO, não há por que se estender para quem não está no exercício da função. Só na cabeça do autor da PEC é que o julgamento no STF é mais ágil, no mínimo ele esta querendo se beneficiar deste instituto para não ser processado.

Autor: Hildo Evaristo
Extremamente antidemocrático a proposta do Foro Privilegiado, tal qual, Anti-Democrático.

Autor: Hildo Evaristo
Nenhum homem público deste País poderá falar de Democracia enquanto houver Foro Privilegiado, exceto, o Presidente da República. Foro é anti-democrático.

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