"Passe um batom na sua vida" Voluntárias visitam Hospital de Base para maquiar pacientes e ajudá-las a recuperar a autoestima esquecida

Leilane Menezes

Publicação: 07/03/2010 08:35 Atualização: 07/03/2010 12:30

A paciente Eça Ney reaprende a ser bonita com a ajuda de Lydia - (Monique Renne/CB/D.A Press )
A paciente Eça Ney reaprende a ser bonita com a ajuda de Lydia
Os contornos de um batom bem aplicado, um olhar emoldurado por lápis preto e olhos com pálpebras pintadas de sombra podem significar muito além de um detalhe. Especialmente para mulheres que sofrem na tentativa de manter a autoestima diante de uma doença como o câncer de mama. Na batalha contra a enfermidade, muitas pacientes se esquecem de como é se achar bonita. A preocupação com a sobrevivência se mistura ao medo de perder os cabelos, de ficar sem o seio, de talvez não se sentir tão mulher quanto antes.

Para ajudar quem passa por momentos assim, voluntárias da Rede Feminina de Combate ao Câncer lançaram a campanha do Batom Vermelho. Uma vez ao mês, quatro estudantes, administradoras de um site sobre moda e beleza, o www.modismonet.com, doam seu tempo e habilidades para levantar a autoestima de pessoas em tratamento no Hospital de Base. Mais que um agrado, as maquiadoras voluntárias levam força para quem tenta se recuperar da falta de esperança. A próxima ação deve ocorrer na segunda-feira, quando será comemorado o Dia Internacional da Mulher.

O incentivo não acaba no centro clínico. As pacientes levam para casa um kit de maquiagem com sombras, blush, aplicadores e lápis de olho para dar continuidade ao que aprenderam nas oficinas de maquiagem. Cada uma deve ter seu material individual, pois quem passa por quimioterapia, por exemplo, apresenta imunidade baixa e não deve usar nada que tenha sido usado por outra pessoa, pois o risco de contrair uma doença é maior. Em cada sessão, pelo menos 20 são maquiadas. Comprar os produtos não sai barato. As idealizadoras da campanha fizeram um bazar para conseguir a verba, mas os kits devem acabar em breve e elas vão precisar de novas doações.

Na manhã da sexta-feira última, as meninas acolheram as pacientes no ambulatório. Enquanto esperavam na fila por atendimento, elas se distraíam com os mimos das maquiadoras. Ao chegar, a maioria delas ficava envergonhada. Maria do Socorro Fernandes, 45 anos, passa pelo tratamento há cinco. Ao choque inicial do diagnóstico, seguiu-se o medo de morrer. Teve medo de perder os cabelos e ter de retirar parte dos seios. “Depois que você sobrevive, dá graças a Deus. Fica mais vaidosa, dá mais valor ao cabelo”, completou. Pela primeira vez, após muito tempo de tratamento, Maria do Socorro se interessou por embelezar-se. “Faz muito tempo que não passo nada no rosto. É difícil se sentir bonita e desejada durante um tratamento de quimioterapia. A boca fica seca, a sobrancelha cai. Às vezes chego aqui tão deprimida. Essas meninas trazem um novo ânimo para a gente.”

Quem está se curando do câncer garante que manter a autoestima é o segredo para suportar o tratamento pesado e se curar mais rapidamente. “Faço acompanhamento há sete anos. Com a ajuda dos médicos e das meninas da rede resolvi levar uma vida normal. É essencial enfrentar o problema com beleza e bom humor, ao contrário a vida perde a graça”, aconselha Maria Alves Mota, 37 anos, moradora de Samambaia.

Eça Ney, 51, passou pelo ambulatório para se tratar de outra doença grave, nos rins, e aderiu ao tratamento de estética. “Tem dia que parece que morri e não encontrei quem me enterrasse. Mas hoje eu sorri de verdade”, desabafou. “Quem sabe agora eu encontro um namorado”, brincou.

Começo
Levar os cuidados às mulheres do Hospital de Base partiu da estudante Luísa Farani, 24 anos, moradora do Setor de Clubes Esportivos Sul, e mais três amigas: Antonia Dornelles, Maria Lydia Fontenele e Laura Pereira. As meninas procuravam uma forma de ajudar a quem precisa e a avó de Luísa sugeriu o apoio à Rede Feminina. “Nós gostamos muito de moda e assuntos relativos à beleza, mantemos um site sobre esse assunto e pensamos em doar o que sabemos fazer. É importante para todo mundo ser paparicado um pouco, ainda mais para quem passa por um momento difícil”, explicou Luísa. “Passe um batom na vida”, sugeria Maria Lydia às mulheres.

A Rede Feminina de Combate ao Câncer desenvolve várias outras atividades de apoio às mulheres que sofrem desse mal. Antes da presença das meninas, o grupo já promovia oficinas de beleza com um outro perfil havia oito anos. “Damos também cortes de cabelo, escovas, além de maquiagem”, aponta Vera Lúcia Bezerra, coordenadora do projeto. Em 10 de maio, o grupo fará um bazar no estacionamento do Hospital de Base para vender roupas, utensílios domésticos, brinquedos e muito mais para quem frequenta o local, a preços populares. Além disso, todo mês pelo menos 250 cestas básicas são doadas a famílias nas quais as mulheres tiveram de abandonar o emprego para cuidar da saúde.

A voluntária Maria Lucília da Silva, 52 anos, fabrica próteses externas de pano para doar a quem não pode pagar pelo implante interno de seio, depois de uma cirurgia de retirada de mama. Ela também já passou por isso. Hoje, tenta colaborar como pode e fabrica mais de 200 todo mês. “Algumas retiram todo o seio e não têm nenhum enchimento. Elas têm direito a uma protese pelo governo, mas demora muito”, explicou a coordenadora da Rede Feminina no DF, Maria Thereza Falcão. A insituição sobrevive de doações. “As pessoas mais humildes são as que mais ajudam, talvez por também passarem pelas dificuldades. Precisamos muito da mobilização da sociedade. Quem quiser doar em dinheiro recebe o boleto em casa, na quantia que puder pagar. Os que preferirem dar alimentos, roupas e brinquedos também são muito bem-vindos e vamos buscar em casa”, concluiu Maria Thereza.

Rede feminina
A entidade foi fundada no Distrito Federal em 7 de outubro de 1996. Oferece visitas diárias aos quartos e enfermarias, cestas básicas, vale-transporte, passagens estaduais e interestaduais, kits de higiene, espaço de recreação para os pacientes, com vídeo e televisão, medicamentos e apoio jurídico e emocional.

Programação

10 de maio
Bazar beneficente
Local: Estacionamento do Hospital de Base, em frente ao pronto socorro.

Oportunidade


Telefone da Rede Feminina de Combate ao Câncer: 3364-5467
e 3315-1221.

Esta matéria tem: (3) comentários

Autor: neide aguiar
O trabalho voluntário é a maior prova de que a humanidade avança para melhor.Parabéns pela dedicação de todos vocês voluntários Luisa Farani, Maria Lydia e outros pelo belo trabalho.

Autor: Luciana Lima
Bela iniciativa. Aos voluntários PARABÉNS....

Autor: Deborah Asp
Gostaria de parabenizar essa linda ação de vocês, e, participar desse projeto. Como faço pra ser voluntária? Beijos e parabéns!!

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