Um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) divulgado ontem, no Rio de Janeiro, apontou quatro cidades brasileiras entre as que mais escancaram suas diferenças sociais: Brasília, Goiânia, Fortaleza e Belo Horizonte. Comparadas a outras 138 cidades no mundo, elas só perdem para Johannesburgo, Buffalo City, e Ekurhuleni, todas sulafricanas, numa lista das 20 cidades mais desiguais. A pesquisa adotou o índice Gini, que leva em conta a renda da população e o acesso a políticas públicas como saneamento básico e água tratada. O método indica que quanto mais próximo da pontuação 1, maior a desigualdade. Brasília obteve 0,6, ficando na 16ª posição da lista, seguida por Fortaleza e Belo Horizonte, com o mesmo índice de 0,65, e, portanto, 13º lugar, e por fim, Goiânia, com índice de 0,65 e 10ª posição no ranking. Comparado entre aos 63 países analisados, o Brasil foi classificado como um país de desigualdade muito alta, com um índice de 0,58 Gini. Ficou atrás apenas da África do Sul, Zâmbia e Namíbia.
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| Denilson mora em uma área invadida no Varjão: "A gente aqui sente medo, insegurança. Não tem como ficar feliz numa situação dessa, né?" |
O documento — intitulado de Estado das Cidades do Mundo 2010/2011: Unindo o Urbano Dividido — reúne dados de países de África, Ásia, América Latina e Caribe. Os dados revelam também que 59% dos latino-americanos acreditam que as reformas urbanas ocorrem para atender a interesses de classes sociais mais elevadas. Na África, esse número sobe para 71%. O relatório conclui que os recursos, muitas vezes, são distribuídos em áreas não prioritárias, por causa de pressões exercidas por grupos de interesse, restando o mínimo de acesso aos centros urbanos mais pobres. De acordo com o especialista em urbanização e saneamento, Onofre Campos, esse modelo apontado pela ONU é um dos motivos que colocam o Brasil entre os mais desiguais. “Em qualquer lugar do mundo, as políticas públicas sempre giram em torno daquele cidadão que tem mais renda e mais influência na comunidade, e no Brasil não seria diferente”, afirma. O Correio procurou a assessoria de imprensa do Ministério das Cidades para comentar o relatório, mas foi informado de que só falaria depois de ter acesso ao documento.
No caso de Brasília, por exemplo, o relatório apontou que mesmo com a maior renda per capita do país, 10% da população carecem de água tratada e 15% não têm acesso a esgoto. Joana Cruz, 23 anos, moradora da invasão da Estrutural, retrata bem o drama. Mãe de duas crianças, ela diz que a dificuldade é grande na hora de cozinhar e dar banho. “Além de não ter algumas coisas básicas, falta lazer e área verde para passear”, reclama a moradora, que vive há 8 anos no local. Joana está entre os 22,4% da população que sobrevivem com um salário mínimo no Distrito Federal, de acordo com o último levantamento da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan).
Numa situação parecida, Denilson Silva, 31 anos, morador do Varjão, fala da falta de perspectiva: “A gente aqui sente medo, insegurança. A energia é feita de forma irregular. Não tem como ficar feliz numa situação dessa, né?”, lamenta o jardineiro que sustenta a esposa e os dois filhos com um salário mínimo.
Na outra ponta da balança — a dos ricos —, os dados da Codeplan indicam que é cada vez mais difícil reduzir a desigualdade. No DF, 33,4% das pessoas ganham mais de 20 vezes o salário de Joana e Denilson. “Brasília tem uma renda per capita acima da nacional e, por isso, a desigualdade vai ser sempre maior se compradas as áreas nobres e as áreas com menos infraestrutura. A solução para impedir essa diferença está no investimento em políticas públicas”, diz a coordenadora de Estudos e Pesquisas da Codeplan, Iraci Maria Peixoto.
» De Pequim a MinasErnesto Braga e Flávia AyerPara o professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Jorge Alexandre Neves, PhD em desigualdades sociais, os dados apresentados ontem no Rio não foram motivo de surpresa. “Desde os anos 1950, observamos níveis de desigualdade mais elevados em locais de desenvolvimento médio e baixo e essas capitais estão num grau médio de desenvolvimento.”
O professor acrescenta ainda que Belo Horizonte é marcada pela alta qualificação de mão de obra, o que contribui para um índice alto de desigualdade. “A cidade tem profissionais de remuneração alta. Ao mesmo tempo, apesar de ser circundada por indústrias, é uma cidade de serviço, não é tão rica e tem grande percentual da população com nível de renda baixa”, afirma.
Pequim é a capital mais igualitária do mundo, com valor de Gini de 0,22, seguida da cidade chinesa de Benxi (0,29). O curioso é que nem sempre municípios com menor desigualdade social do mundo são aqueles que oferecem melhor qualidade de vida. Afinal, o mesmo nível de consumo pode estar ligado tanto à pobreza quanto à riqueza.
A diretora executiva da UN-Habitat, um dos braços da ONU, Anna Tibajika, destaca os desafios da urbanização. “O relatório aponta caminhos necessários para vencer a barreira da divisão urbana”, ressalta.
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Autor: Humnberto Mota
Vale lembrar que Goiânia, a pior no ranking, é governada pelo Sr. Iris Resende há cerca de 40 anos. Logo, isto desmascara o discurso dele, que diz governar para o povo. O discurso é para o povo, o governo para os ricos.