Ensino Médio

Tempo de reforma

Ainda não há data para a implementação completa do novo ensino médio. Mesmo assim, as mudanças estão em debate e as redes de ensino começam a se preparar

Jéssica Luz - Especial para o Correio | Mariana Niederauer

Estudantes têm opiniões diversas sobre a reforma e ressaltam pontos positivos e negativos do modelo | Foto: Barbará Cabral/Esp.CB/D.A Press

Com o novo ensino médio chegando, os debates aumentam e a expectativa de se ter em mãos o documento que vai pautá-lo cresce a cada dia. Apesar de haver um debate avançado acerca da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) dessa etapa do ensino, ainda serão necessárias muitas discussões para que o novo modelo passe a valer de forma efetiva.

A assessora de Educação do Itaú BBA, Ana Inoue, acredita no potencial inovador da reforma. "A possibilidade que essa nova lei traz de dar ao aluno opções de escolha é algo incrível. Teremos uma escola mais autônoma e os alunos vão se sentir mais motivados a correrem atrás do que realmente desejam, pois é uma decisão deles", diz.

A especialista observa, no entanto, que a mudança é algo progressivo e lento. Ela explica que existe um tempo hábil para que a implementação ocorra por completo. "De início, precisa-se que a BNCC seja homologada. Logo após sua homologação, os estados brasileiros terão um ano para planejar o formato que vão implementar em seu sistema de ensino. Só a partir desse momento é que teremos uma realidade mais palpável quanto à reforma do ensino médio."

João Paulo Franco estuda no Colégio Objetivo, em Taguatinga, e, para ele, a mudança não afetará o objetivo principal que tem atualmente. "Apesar de ser uma mudança grande, que visa a nossa preparação para a vida e o mercado de trabalho, eu vejo que, pela realidade das escolas particulares, nós temos uma grande chance de continuarmos trilhando nosso caminho para entrar em uma universidade, sendo esse nosso foco principal, mesmo com todas as opções que estão previstas", relata.

Os alunos do 1º ano do Sigma Yuri Probst Raiter, Mariah Oliveira e Amanda Moraes, todos de 15 anos, têm opiniões diversas sobre o tema. "Acho que a reforma vai trazer muitas coisas boas. Eu, por exemplo, poderei focar meus estudos em exatas, que é com a qual eu mais me identifico", afirma Yuri. Já Amanda observa alguns pontos negativos. "Acho que a flexibilidade, além do poder de escolha, é algo muito bom. Mas, ao mesmo tempo, eu sinto medo de escolher um caminho errado e isso me prejudicar no futuro", opina.

Processo

A BNCC tem como objetivo estabelecer as aprendizagens e conteúdos básicos a que todos os brasileiros devem ter acesso, em escolas públicas ou privadas, na educação infantil, no ensino fundamental e no médio. Quando o legislação que prevê as mudanças nesse último ciclo da educação básica entrou em vigor, no entanto, o processo de discussão da Base já estava avançado, e o Ministério da Educação optou por desmembrar do documento os trechos que tratam do ensino médio.

Enquanto isso, a terceira versão das partes referentes à educação infantil e ao ensino fundamental foram enviadas ao Conselho Nacional de Educação (CNE), em abril deste ano, para avaliação e preparação de resolução normativa.

O MEC ainda trabalha na parte que trata especificamente do ensino médio. O objetivo é que as aprendizagens e as opções formativas presentes na Base conversem com a reforma determinada para o ensino médio. A estimativa do MEC é de que a terceira versão do documento que trata do ensino médio seja enviado ao CNE até o fim do ano. Depois disso, o conselho precisará avaliar e emitir parecer e resolução normativa para posterior homologação pela pasta, o que deve ocorrer apenas no segundo semestre de 2018. A partir daí, a reforma terá todos os instrumentos legais e de regulamentação para ser colocada em prática. Caberá às redes de ensino e escolas definirem os próprios currículos e os itinerários formativos a serem disponibilizados aos estudantes.

Professores e alunos em ação

Jéssica Luz - Especial para o Correio

Os professores estão na linha de frente dos resultados que virão após a implantação do novo ensino médio. É necessário, portanto, discutir a capacitação desses profissionais e como eles vão lidar com a mudança.

O professor de português Josino Nery, mais conhecido como Jota, atua no Sigma e, para ele, a reorganização de horários, tanto de alunos quanto de professores, é essencial. "É necessário que os professores se readequem antes, para que os alunos recebam um sistema organizado de verdade. Estamos passando por uma mudança radical de paradigmas, é importante que o planejamento de tudo isso seja benfeito", acrescenta.

Na avaliação da psicopedagoga e orientadora educacional Aline Nara Araújo Dias Campos, a mudança será positiva, entretanto é importante que os professores das disciplinas formativas saibam instruir o estudante. "Esse vai ser um momento em que o aluno vai buscar a relação entre teoria e prática. Isso exige que o professor trabalhe de forma interdisciplinar", ressalta.


Inspiração

Matheus Vilhena, 17, Gabriela Aquino, 17, e Maria Fernanda de Oliveira, 16, estudam no Centro Educacional 1 do Cruzeiro Velho. Os três fazem parte de um novo modelo de ensino aplicado na rede pública do Distrito Federal: a semestralidade e o ensino técnico no período contrário ao das disciplinas obrigatórias. Ao todo, 13 escolas públicas aderiram a esse novo modelo. Os estudantes têm aulas voltadas para a área de tecnologia da informação.

Um dos destaques do método apontado por Gabriela é a aplicação dos aprendizados relacionados aos trabalhos em grupo que realizam durante as atividades do contraturno. Para ela, a partir dessa interação, nasce uma nova forma de ver a escola. Os alunos ficam na instituição de ensino das 8h às 17h, todos os dias da semana, menos às quartas-feiras. No período matutino, são dadas as aulas que compõem a grade obrigatória estabelecida pelo Ministério da Educação (MEC).

"Eu acho bem legal o modelo, pois temos o ensino em tempo integral. As atividades extracurriculares nos dão um descanso mental. Passamos a manhã inteira estudando. Já no horário de almoço, temos uma hora e meia e podemos produzir algo de interessante até mesmo dentro das atividades propostas pela escola", ressalta Maria Fernanda.

Matheus completa ressaltando que as atividades que vão além do formato comum de sala de aula trazem novos aprendizados. O estudante cita o projeto Química na Horta, promovido pelo professor de química da escola, também assessorado pela área de biologia, em que os alunos têm contato direto com o plantio de vários tipos de plantas, que serão agregadas à alimentação dos alunos - parte da produção é utilizada no refeitório para preparo das refeições.

O que é a BNCC?

A Base Nacional Comum Curricular, ainda não com esse nome, estava prevista na Constituição Federal desde a sua promulgação, em 1988, no artigo 210. O Plano Nacional de Educação (PNE), aprovado em 2014 no Congresso Nacional, também prevê a formulação da Base. O debate começou em 2015, quando a primeira versão da Base recebeu mais de 12 milhões de contribuições em uma consulta pública. Em maio de 2016, a segunda versão do documento foi entregue para seminários em todas as unidades da Federação. Mais tarde, em setembro do mesmo ano, Undime e Consed entregaram ao MEC um relatório das contribuições coletadas nos encontros locais. Chegou ao CNE - apenas as partes sobre educação infantil e ensino médio - em abril deste ano e, logo depois, começaram as audiências públicas.

TRÊS PERGUNTAS PARA | Aléssio Trindade

Foto: Secretaria de Educação do Estado da Paraíba/Divulgação

Por que o ensino médio passará por essa mudança?
O nosso ensino médio atual prepara o aluno para a entrada na universidade, não foca na vivência dele no dia a dia. Por conta disso, tornou-se um sistema muito teórico e pouco prático. Além disso, a porcentagem baixa de estudantes que ingressam na universidade é preocupante, pois acaba mostrando que eles não estão aptos a entrar em uma instituição de ensino privada, nem prontos para ingressar no mercado de trabalho. A partir daí, pensamos no que fazer para mudar essa realidade. Foi quando observamos países que têm um sistema educacional de ensino médio desenvolvido, como Finlândia e Canadá. A partir dessa observação, concluímos que essas nações valorizam a escolha do estudante e se preocupam com o sentido da escola na preparação para a vida do aluno após o término dos seus estudos.

Qual a principal mudança que deve ocorrer no processo de transição?
A transição de um sistema escolar autoritário, no que diz respeito à transferência do conhecimento do professor e da escola para o jovem, deve ser feita de forma cautelosa, já que vamos lidar com um sistema flexível, com possibilidades de escolha. Atualmente, temos uma rede com carência de estrutura de laboratórios e, muitas vezes, até de uma coordenação pedagógica, de formação de professores. Temos uma história e é necessário dialogar com ela, não é apenas ter vontade de mudar por meio de uma lei todo o ensino médio: precisamos pensar em mudanças estruturais. Devemos lembrar que vivemos em um país que está reduzindo os investimentos em educação, e as metas que o PNE (Plana Nacional da Educação) precisa bater para financiamento não estão sendo alcançadas e respeitadas. Ainda há necessidade de continuidade dos investimentos estruturantes na reforma e ampliação das escolas. Precisamos equipar as instituições de ensino, capacitar nossos professores para a mudança. Além disso, existem municípios que contam só com uma escola. Como trabalhar a flexibilidade assim? São questões que devemos pensar, pois é uma mudança grandiosa.

Como o Consed está participando?
O Consed modelou um curso de desenvolvimento do ensino médio. Cada unidade da Federação contém técnicos que estão fazendo um estudo aprofundado e um diagnóstico de como está o ensino médio. Esse é um projeto que ainda está no início e deve acabar em 2018. O Consed fala que é preciso ter calma, precisamos estudar, aprofundar, saber o que é preciso ser a base em cada local para que haja cobrança e reivindicação.

Aléssio Trindade é secretário de Educação da Paraíba e coordenador do grupo de trabalho sobre ensino médio do Conselho Nacional de Secretários da Educação (Consed)

Oportunidades do high school

Modelo diversifica a formação do aluno e é uma opção para quem busca proficiência em inglês. O estudante sai do ensino médio com dupla certificação

Jéssica Luz - Especial para o Correio

O modelo do novo ensino médio proposto para o Brasil guarda semelhanças com o high school americano, também com carga horária ampliada. Algumas escolas no DF já oferecem esse formato, como é o caso do Mackenzie. Durante os três anos, os alunos cursam as disciplinas obrigatórias do currículo brasileiro, definidas pelo Ministério da Educação (MEC). Em duas tardes por semana, são ministradas aulas, em inglês, com as matérias do ensino médio americano - começa no 9º ano do ensino fundamental e se estende até a 2ª série do ensino médio brasileiro.

Entre as disciplinas do currículo americano ministradas aos alunos por professores de língua nativa inglesa estão oratória, debate, economia, marketing, história americana, redação para o pensamento crítico, saúde, planejamento de carreira e preparação para a universidade, entre outras. O foco do programa é desenvolver habilidades avançadas de escrita, leitura, fala e escuta, permitindo ao estudante o acesso a situações acadêmicas e profissionais avançadas, como congressos, seminários, mestrado e doutorado.

"Com os projetos que ocorrem no high school e a parceria entre pais, alunos e a nossa instituição, conseguimos extrair o melhor do estudante e ver a evolução dele. Aqui, eles estão se preparando para o mundo e nós estamos vendo como isso é realmente possível", afirma a assessora internacional do colégio, Erika Zaidan. "Sabemos que não estamos os preparando apenas para uma vida acadêmica e profissional. Nossa escola preza muito pelo desenvolvimento do pensamento crítico, e isso é muito evidente nos alunos do high school", completa.

No fim da formação, o aluno recebe dupla certificação, graças à parceria com a Universidade de Missouri, em Columbia. Os créditos de matérias do ensino médio são acrescidos das matérias específicas do currículo americano. O estudante sai do curso com o diploma de high school, equivalente a qualquer curso secundário realizado nos Estados Unidos. Os alunos que terminam essa etapa recebem dispensa do Test of English as a Foreign Language (TOEFL), teste de proficiência em inglês que é exigido pela maioria das universidades americanas para admissão de discentes.

Os alunos Felipe Sathler e Karen Dantas, ambos de 16 anos, cursam o high school no Mackenzie. "Em muitas escolas fora de Brasília podemos ver o sistema high school sendo implantado. Eu acho isso muito importante e, se fosse possível levar essa experiência para mais estudantes, seria um salto, já que, para nós que fazemos parte desse sistema, as oportunidades acabam sendo diferenciadas", diz Karen. Para Felipe, é importante que a escola proporcione um bom ambiente de aprendizagem, que culmine em uma comunidade escolar harmônica.

Como funciona

Veja quais são os três valores fundamentais em que se baseia o high school

  • addMobility through Education - (Mobilidade por meio da educação)
    Promover a mobilidade do aluno por meio da educação em um currículo internacional, com impacto na mobilidade acadêmica (poder estudar onde quiser), na mobilidade profissional (poder trabalhar onde quiser) e na mobilidade pessoal (poder viver onde quiser).
  • addForeign Teacher in the classroom - (Professor estrangeiro em sala)
    A convivência semanal com um professor estrangeiro na escola, que possibilita ao aluno brasileiro e demais colegas da turma ter, durante três anos, uma imersão na língua inglesa em um ambiente educativo organizado e com uma proposta curricular pré-definida.
  • addDual Diploma - (Duplo diploma)
    Ao completar todos os créditos do programa, o aluno recebe dois diplomas oficiais - um brasileiro e um americano - frutos da parceria educacional entre a escola brasileira, a HSE e uma universidade americana. Em 2008, foi criada a empresa High School Serviços Educacionais (HSE), para que alunos de outras escolas brasileiras pudessem se beneficiar do modelo de currículo duplo.
Fonte: HSE Educacional