Entrevistas e Artigos

ENTREVISTA | Gina Vieira Ponte

Professora da rede pública e idealizadora do premiado projeto Mulheres Inspiradoras mostra o caminho para desenvolver iniciativas que levem ao engajamento do aluno

Mariana Niederauer

Desenvolver um projeto que estimule a participação do estudante na escola foi o desafio que moveu a professora da rede pública Gina Vieira Ponte nos últimos anos. Idealizadora do projeto Mulheres Inspiradoras, premiado no Brasil e internacionalmente - por meio de convênio que permitiu a expansão para 15 escolas públicas -, ela conta o que é necessário para construir uma proposta que incentive o engajamento dos estudantes. "Percebo que há muita confusão em relação ao que é pedagogia de projetos e o que é o projeto escolar de uma maneira geral. A pedagogia de projetos está associada à minha concepção de prática pedagógica, a como eu organizo o tempo e a gestão da aprendizagem", afirma. Ouvir o que os estudantes pensam, adequar a cultura da escola aos valores levados para a sala de aula, contar com a parceria dos pais e da gestão e se dedicar intensamente ao projeto são algumas das orientações.

O que a levou a desenvolver o projeto Mulheres Inspiradoras?
Na escola pública, o professor tem muito espaço para ser protagonista da própria prática. O projeto foi desenvolvido em 2013, mas nasceu há muito tempo, talvez em torno de uma década atrás, quando eu entrei em um processo de adoecimento e percebi que tinha que me ressignificar como professora. Então ele começa quando eu percebo que esse modelo educacional que está posto precisa ser questionado e não só copiado, como a gente tem feito há anos. Passei a prestar mais atenção aos meus alunos, porque eu queria criar estratégias que estimulassem a participação deles. Vi que eles falavam muito de redes sociais e decidi criar uma conta em uma rede social para utilizá-la como ferramenta pedagógica de aproximação com os meus alunos e perceber que conteúdo eles acessavam e postavam. Fui percebendo várias coisas interessantes. Muitas vezes, eles não são na escola o que de fato gostariam de ser. A escola é um espaço de muito controle, onde eles falam o que a gente quer ouvir, e não o que pensam. Percebi um espaço de comunicação com os mais tímidos, que não conseguiam fazer perguntas em sala e usavam o bate-papo inbox. Outro dado que me apareceu foi a recorrência com que as meninas produziam e postavam conteúdos onde se expunham a partir da produção de conteúdo com algum teor ou apelo erótico. Especialmente, o vídeo de uma garota de 13 anos me incomodou. E o projeto começa quando eu percebo que, numa perspectiva de uma educação mais engajada, eu tinha que fazer uma intervenção.

E como foi o processo de desenvolvimento do projeto?
Naquele ano, eu recebi a proposta de trabalhar com um componente curricular que há em todas as escolas e se chama PD (parte diversificada). Ele existe exatamente para que as escolas tenham a liberdade de trabalhar temas relevantes. Conversei com a professora Vitória Régia, minha coordenadora pedagógica, sobre essa minha preocupação com as meninas e ela topou desenvolver o projeto. A proposta partiu da premissa de que as meninas adotam esse comportamento de replicar esse modelo da mulher objetificada porque essas são as referências que ficam em destaque na nossa cultura. O tempo inteiro, desde muito pequenas, as meninas são apresentadas a esses referenciais, em que a mulher aparece sempre objetificada, medida pelo quanto é sexualmente desejada, por determinados padrões de beleza. Quando eu me dei conta de que as meninas são sujeitos sócio-históricos e elas se contagiam, bebem nas referências que são trazidas para elas, eu pensei que a melhor forma de fazer a intervenção é trazendo outras referências para elas se inspirarem. E para meninos também, porque o projeto foi feito para fortalecer a identidade das meninas e para ajudar os meninos a entenderem a importância de construir masculinidades que não sejam tóxicas. Até porque não dá para discutir gênero fora das relações sociais.

A partir dessa premissa, que atividades foram desenvolvidas?
O projeto teve algumas ações. A primeira delas foi a proposta da leitura de seis obras de autoria feminina: O Diário de Anne Frank, Eu sou Malala, Quarto de Despejo - Diário de uma favelada e três obras de uma grande escritora daqui de Brasília, Cristiane Sobral. Além disso, propus que eles estudassem a biografia de 10 grandes mulheres, um time bem diversificado, desde mulheres jovens, como Anne Frank, até mulheres idosas, como Cora Coralina, mulheres negras, como Rosa Parks, mulheres brancas, como Zilda Arns, grandes pesquisadoras da academia, como Nise da Silveira, mulheres com pouquíssima escolaridade, como Carolina Maria de Jesus. Tudo nessa perspectiva de dizer para eles e para elas que todos nós podemos ser inspiradores, que somos capazes de construir uma história para se orgulhar. Depois de estudar a biografia dessas 10 grandes mulheres, eles estudaram mulheres da Ceilândia com uma atuação expressiva em diferentes áreas. Conheceram Madalena Torres, uma das responsáveis pela criação do Centro de Alfabetização de Adultos Paulo Freire (Cepafre) e uma das pessoas que ajudou a trazer a Universidade de Brasília para Ceilândia. Eles também aprenderam sobre o uso consciente, seguro e ético das redes sociais. Na última etapa, foram incentivados a escolher uma mulher inspiradora da vida deles para entrevistar e fazer uma biografia.

"O projeto foi feito para fortalecer a identidade das meninas e para ajudar os meninos a entenderem a importância de construir masculinidades que não sejam tóxicas. Até porque não dá para discutir gênero fora das relações sociais"

É mais difícil trabalhar com projetos?
É um trabalho muito mais árduo, porque requer autoria, um volume grande de produção e de correção de trabalhos. Como o projeto foi todo orientado na perspectiva da escrita como uma prática social, eu queria que meus alunos trabalhassem muito as habilidades de escrita, havia muito material para ler, dar o feedback para o aluno, voltar pra mim, eu dar outro feedback. Então, é muito trabalhoso. Eu acredito que a gente deveria rever a carga horária do professor, eu tive que virar madrugadas, trabalhar fins de semana, feriados. Não estou dizendo que essa deve ser a regra para os professores, mas para os objetivos que eu queria atingir, isso era necessário. Dá um pouco mais de trabalho na fase de planejamento, mas, na hora da execução na sala de aula, percebo que funciona muito, porque eles se envolvem, portanto as aprendizagens são mais significativas.

A família precisa participar e apoiar essas iniciativas?
Acho que a família tem um papel fundamental. Toda família tem uma narrativa sobre a escola e essa narrativa é decisiva para orientar como o estudante vai olhar para a escola. Acho que a primeira grande contribuição que a família dá é reforçando o fato de que educação é um bem muito precioso. E, mais do que isso, a família precisa ser coerente. Não adianta dizer que a escola é importante, mas a qualquer pequeno imprevisto, a criança pode faltar aula. Eu vejo que isso é muito recorrente. É importante que a família apoie, valorize e acompanhe. No caso do projeto Mulheres Inspiradoras em especial, ele provocou um movimento interessante.

Que movimento foi esse?
Eu cheguei a ouvir depoimentos de alunas que diziam que a mãe não poderia dar a entrevista porque não tinha tempo. Questionei: "Como assim?" "É porque minha mãe trabalha muito." De fato, os pais hoje estão trabalhando muito para dar conta de suas demandas. Aí falei para essa minha aluna: %u201CDiga para ela que é uma tarefa escolar, um trabalho de escola como qualquer outro. A diferença é que, agora, ele pede a participação dela, que é muito valiosa%u201D. Ela conseguiu fazer essa entrevista e o curioso é observar os efeitos disso para as famílias. Essa menina mesmo voltou da entrevista com os olhos brilhando, dizendo: "Nossa, professora, minha mãe é mesmo uma mulher inspiradora". Em outro momento, recebemos o depoimento de uma mãe dizendo que aquele momento de entrevista a havia reaproximado do filho. Eu acho que a escola e a família querem as mesmas coisas, querem que nossas crianças e adolescentes vivam experiências de êxito dentro da escola. Só que, de uns tempos para cá, a escola e a família começaram a se atritar, entrar em um cabo de guerra tentando apontar quem é o culpado por isso ou por aquilo. Temos que tentar aproximar mais a família da escola, mas nessa perspectiva de parceria, de diálogo, de ajuda, de apoio, e não para tentar achar culpado, para ficar nessa relação desgastada.

"Temos que tentar aproximar mais a família da escola, mas nessa perspectiva de parceria, de diálogo, de ajuda, de apoio, e não para tentar achar culpado, para ficar nessa relação desgastada"

Os projetos têm sido muito explorados e mostrados como um benefício. É uma mudança importante?
Percebo que há muita confusão em relação ao que é pedagogia de projetos e o que é o projeto escolar de uma maneira geral. A pedagogia de projetos está associada à minha concepção de prática pedagógica, a como eu organizo o tempo e a gestão da aprendizagem. O Mulheres Inspiradoras, por exemplo, não foi um projeto extracurricular. Ele foi um projeto que começou no ano letivo, em fevereiro, e foi até dezembro, totalmente alinhado com o currículo. Eu tinha de trabalhar com meus alunos os gêneros textuais - reportagem, artigos de opinião -, coerência e coesão textual, produção de texto, tipos e gêneros. Eu não podia abrir mão disso para trabalhar o assunto mulheres inspiradoras. Quando eu trabalho os conteúdos da escola a partir de um tema gerador, isso dá muito mais sentido. Quando eu pedi para o meu estudante escrever a história da mulher inspiradora da vida dele, pude trabalhar todos os aspectos pertinentes à produção textual: separação de parágrafo, coesão e coerência, pontuação, ortografia. Só que isso teve muito mais sentido porque ele estava se debruçando sobre um texto que tinha um apelo afetivo para ele. Então, o primeiro ponto é entender que a metodologia de projetos está relacionada a uma concepção de prática pedagógica onde eu busco atribuir muito mais sentido no que eu estou propondo e coloco meu aluno como protagonista no processo.

E onde se encaixam, então, os projetos extracurriculares?
São muito importantes, servem realmente para engajar os estudantes, fazer com que a escola seja muito mais atrativa, para trazer a comunidade para a escola, porque muitos desses projetos redundam em um evento. Só precisamos ter cuidado, porque eu vejo muito uma coisa que chamo de pedagogia de eventos, que é muito frágil. Você faz um evento bonito, que enche os olhos, mas, quando você vai olhar os projetos que antecederam aquele evento, percebe que não houve processo. Não pode ser só um evento que encha os olhos. Tem que ter sido antecedido por processos pedagógicos muito ricos, com intencionalidade pedagógica clara e metodologias adequadas. Além disso, as pessoas acham que trabalhar com projetos é uma coisa e dar aula é outra, quando, na verdade, as duas coisas se somam. E isso vai ficar muito mais claro agora, porque a gente está, em Brasília, na iminência de uma grande mudança na estrutura do ensino público, que é sair do sistema de seriação e entrar no sistema de ciclos. Nele, a demanda por um trabalho mais voltado para a pedagogia de projetos vai ser maior.

Apesar de ser uma prática pedagógica do professor, a escola deve participar como um todo?
Muitas vezes, se fazem eventos e projetos na escola mas não se pára para pensar como a própria escola funciona. Um exemplo que eu gosto de repetir é: não adianta a escola ter um projeto incrível sobre igualdade de gênero, equidade entre meninos e meninas e, quando a menina chega à direção da escola dizendo que sofreu uma violência, que alguém tocou no corpo dela, o diretor olha para ela e fala: "Mas também, olha a roupa que você está usando". E, muitas vezes, a roupa não tem nada demais. Outra coisa que a gente percebe, principalmente na educação infantil, é que a escola fala sobre igualdade entre meninos e meninos mas adota o discurso de que azul é de menino e rosa é de menina, ou faz uma competição entre meninos e meninas, coloca a menina para brincar com fogãozinho, panela e vassoura e os meninos para brincar com blocos de montar, quebra-cabeças, brinquedos que estimulam muito mais o raciocínio. Acho que as escolas também têm que começar a olhar para a sua própria cultura. Não adianta ter um projeto visando a cidadania se a escola não é um espaço legítimo de exercício de cidadania.

Em que referências as instituições de ensino e professores podem se embasar para construir projetos?
Tem um documento chamado Diretrizes Nacionais de Educação em Direitos Humanos, que diz que a gente tem que trabalhar a educação para a cidadania e em diretos humanos, mas também tem que trabalhar para os direitos humanos, sobretudo garantindo que a escola seja esse espaço onde a criança se sinta respeitada, ouvida, validada, porque, às vezes, existem mil projetos para trabalhar o bullying, mas se o próprio professor faz uma piada a partir da nota que o aluno tirou, tudo aquilo que a escola criou se perde. Ou então faz um projeto sobre racismo e, quando a criança vai falar que sofreu racismo, dizem para ela que foi só uma brincadeira. Uma questão essencial quando a falamos de educação para a cidadania é dizer que ela começa quando eu crio um ambiente escolar onde todas as pessoas são respeitadas e têm o direito de serem ouvidas.

"Temos que garantir que as meninas tenham a oportunidade de ter acesso a escola e a educação, mas, mais do que isso, que elas possam se manter estudando e sejam apoiadas. Dados sinalizam que o número de meninas que abandona a escola é três vezes maior que o número de meninos"

Existe algum comportamento que preocupa mais?
Em se tratando de escolas de anos finais, onde eu tenho atuado, sinto que temos de prestar muita atenção em como estamos permitindo que o jovem se expresse. Tenho percebido que muitos jovens estão abandonando a escola justamente porque não sentem que a escola é para eles, que eles não tem espaço para falar, o que eles pensam não é acolhido. A aprendizagem ocorre quando eu sou acionado em todo o processo. Por isso, é fundamental que a escola faça a própria avaliação crítica de todas as práticas e valores da sua cultura. Talvez isso seja até mais efetivo e importante do que fazer um monte de projetos de cidadania. É mais ou menos aquela lógica de que as palavras convencem, mas as atitudes arrastam. É o princípio do Estado Democrático de Direito. Por exemplo quando o professor arrasta a criança para a direção com uma queixa sobre o que a criança fez. Já vi situações em que só o professor é ouvido. A versão da criança não tem o menor valor. Indiretamente, a gente está dizendo para aquela criança que ela não tem direito a defesa, mas esse é um princípio básico: qualquer pessoa acusada de qualquer coisa tem direito a ampla defesa. E, dentro das escolas, essas práticas são cristalizadas. O que o professor fala é uma verdade absoluta. A questão não é se o professor está certo ou errado, a questão é a criança vivenciar aquela experiência de poder contar a versão dela, de ser recebida, de perceber como aqueles adultos se organizam para resolver aquele conflito, se há maturidade na condução, se conseguem fazer uma comunicação não violenta. Isso é muito mais efetivo do que fazer um projeto fora de sala de aula.

O Mulheres Inspiradoras é um projeto pensado para alunos dos anos finais do ensino fundamental. O processo de desenvolvimento dessas atividades muda quando pensadas para outras etapas, como educação infantil e ensino médio?
A complexidade é a mesma, o que muda são as demandas. É preciso ter uma compreensão muito clara de todas as etapas do desenvolvimento humano para fazer uma intervenção, uma proposta pedagógica adequada. Seria extremamente inapropriado trabalhar as questões de gênero com uma turma de educação infantil fazendo a abordagem de violência doméstica, como eu fiz com meus alunos de anos finais. Tive a liberdade de trabalhar a biografia da Maria da Penha, que é uma história muito dura, que provavelmente não faria sentido contar para crianças pequenas. Eu não preciso necessariamente falar de violência para combater a violência. Para fazer uma abordagem nos anos da educação infantil, poderia falar diferente, fazer uma roda de conversa com as crianças, colocar vários brinquedos no meio e discutir o que é brinquedo de menina e o que é brinquedo de menino. A gente fala disso porque a violência começa quando eu reduzo a possibilidade de acesso de uma criança a um brinquedo por causa de um estereótipo de gênero. Menino quer pegar uma boneca e todo mundo fica horrorizado. Se ele começar a brincar de boneca, vai entender melhor como se exerce a paternidade. Se uma menina brincar de carrinho, vai sentir o poder que o menino sente quando simula que está dirigindo um carro. Em todas as fases existe complexidade. O que o educador precisa ficar atento é com a especificidade de cada fase.

Por que o projeto foi reconhecido nacional e internacionalmente?
É um projeto muito maduro, que acumula quase 30 anos de estudos, pesquisa e prática pedagógica de uma professora egressa da escola pública e completamente apaixonada por educação. Quando eu sistematizei o projeto, tinha muito claro que eu precisava dar para os meus alunos, meninos e meninas, aquilo que pudesse fortalecer a formação deles. Então, tem muita leitura, muita escrita, que são as principais fragilidades dos nossos alunos. Mas é um projeto também que deu muito espaço para eles falarem, para serem protagonistas, trabalhou com a crença na capacidade dos alunos. Sempre repito para eles que só foi bom porque eles abraçaram. Podia ser o projeto pedagógico mais incrível, mas, se o aluno não se engaja, é sinal de que ele não é efetivo. O primeiro ponto é que é um projeto com muita consistência, muita clareza na intencionalidade pedagógica. Além disso, eu acho que ele conseguiu equacionar uma polarização que a gente tem: o professor está sempre nessa angústia de querer formar o aluno para cidadania, direitos humanos, mas tem que dar o conteúdo. E, com o Mulheres Inspiradoras, mostramos que uma coisa não exclui a outra, pelo contrário, elas se somam e se fortalecem. E mais, eu não estava fazendo algo que não estivesse amparado pelos dispositivos legais. Temos, nos parâmetros curriculares nacionais, as sugestões dos temas transversais. Eles não são conteúdos, são temas que eu posso abordar dentro da minha sala de aula quando eu estou abordando meu conteúdo. Outro ponto é que ele tocou em uma questão essencial: a questão de gênero, o assujeitamento e a opressão a que as mulheres estão sendo submetidas. Relatório do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) mostrou que a maioria das meninas de várias partes do mundo, quando completa 10 anos de idade, passa a ser vista como um objeto a ser explorado e deixa de ser vista como um sujeito de direito. Essa menina vai ser explorada no trabalho doméstico, no turismo sexual, vai ser levada a um casamento precoce.

E como o projeto colaborou para o debate?
A agenda 2030 da ONU entendeu que o único jeito de a gente alcançar um desenvolvimento sustentável, sem que ninguém seja deixado para trás, é apoiando as meninas. Quando uma menina é obrigada a casar precocemente, quando é tirada da escola para fazer trabalho doméstico, essa menina engravida e aquela criança vai sendo colocada em um ciclo de pobreza que se perpetua. Para romper esse ciclo, temos que garantir que as meninas tenham a oportunidade de ter acesso a escola e a educação, mas, mais do que isso, que elas possam se manter estudando e sejam apoiadas. Dados sinalizam que o número de meninas que abandona a escola é três vezes maior que o número de meninos. Isso é uma coisa que está naturalizada, as pessoas acham normal que a menina abandone a escola para trabalhar como babá, como empregada doméstica. Falta um olhar de perspectiva a médio e longo prazo no impacto disso. O projeto Mulheres Inspiradoras acabou estando muito alinhado a essa demanda. Só conheci o relatório do UNFPA em 2016 e o projeto aconteceu em 2014. Quando eu fiz o projeto, não tinha esse dado. O projeto colaborou para colocar o tema na agenda nacional. Acho que o fato de o Ministério da Educação reconhecer o trabalho ajudou outros professores a se sentirem valorizados. Ele teve todo esse reconhecimento porque fez algo que é muito valioso: dar o devido reconhecimento a mulheres que não receberam o que deveriam receber. Imagina a força, a energia dessas mulheres que fizeram coisas incríveis e não foram reconhecidas por isso. A gente conta as histórias dessas mulheres e as pessoas perguntam onde eles estavam, porque não são reconhecidas. Desde Nise da Silveira, que reinventou a psiquiatria, até a avó do meu aluno, que ficou viúva muito cedo e trabalhou anos para garantir a sobrevivência daqueles filhos e netos. As mulheres estão fazendo uma revolução silenciosa a todo o momento. Elas garantem a sobrevivência dos filhos e netos, e isso é incrível, mas é olhado como uma coisa menor. Acho que o fato desse projeto honrar a memória de tantas mulheres fez com que as pessoas parassem e se tocassem de que também têm uma mulher inspiradora nas suas vidas.

Que resultados você percebe que o projeto conseguiu alcançar?
Minha primeira intenção era ver os meninos mais envolvidos na escola. Tudo começou quando eu entrei para dar aula na escola onde fui aluna por 11 anos. Escolhi dar aula ali porque eu queria reencontrar a menina que eu fui, e sabia que aqueles meninos precisavam da escola tanto quanto eu. Eram filhos de empregadas domésticas, vendedores ambulantes, pais que não tinham escolaridade, e, quando eu encontro os meninos não dando a mínima pra escola, a sala um caos, eu falo: "Precisamos mudar isso". Meu primeiro desejo com o projeto era trabalhar metodologias que mudassem a percepção dos alunos. Então fiquei muito feliz quando percebi que eles estavam fazendo além do que eu pedia. Eu pedia um seminário, eles iam para as ruas, entrevistavam pessoas, faziam vídeos, promoviam debates na sala de aula. Por isso, o primeiro resultado significativo foi perceber que é possível propor uma escola onde o jovem se sinta representado, da qual ele possa participar. Para mim, uma questão essencial é a questão da leitura dentro da escola. Sou apaixonada por leitura e acho que não existe processo pedagógico sério se ele não fizer um trabalho sistemático com a leitura. Ao longo do projeto, a gente leu em sala de aula e eu fiquei espantada com alunos que tinham um repertório de leitura muito restrito. Recebemos o depoimento de uma mãe que disse que o filho, que nunca lia, estava trancado no quarto lendo. Foi um resultado muito positivo perceber que, se a juventude for devidamente sensibilizada com a leitura, ele vai ler sim. Temos que parar de falar que eles não gostam de ler. Outro resultado que percebo é com a ampliação do projeto. Chegamos a 15 escolas, mais de 30 professores em formação, sem falar nos que estão na escola e também abraçam o projeto. Atingimos mais de 3 mil alunos, distribuímos mais de 1.500 obras de autoria feminina, porque as escolas que participam do programa recebem esse acervo. Mas o que mais me chama a atenção é perceber o efeito disso para a identidade do professor. Os professores que se inscreveram para participar do programa são professores que diziam: "Eu também estou em busca de algo novo para a minha prática". E é incrível como eles são abertos, como querem aprender, como se mobilizam quando estão sendo apoiados. Gosto de falar que o Mulheres Inspiradoras é sim sobre o fortalecimento da identidade feminina, sobre ajudar os meninos a construírem masculinidades que não sejam tóxicas, mas ele, antes de tudo, é sobre a necessidade de ressignificar o espaço escolar e fazer da escola um lugar onde, de fato, os nossos estudantes aprendam, se desenvolvam e sejam cidadãos melhores, porque esse é o papel da escola.

ARTIGO | Qualidade da escola é tão diversa quanto famílias e jovens

Lilian Kelian*

Escolher uma escola para um(a) adolescente não é uma tarefa simples, pois envolve a consideração de inúmeros aspectos. Se olharmos para nossas próprias experiências na adolescência, nos daremos conta da importância delas para formar quem somos atualmente.

Estamos sempre em busca da melhor qualidade de ensino para nossos filhos. A dificuldade está em sabermos traduzir o que é qualidade para cada um de nós. Em geral, quando falamos em boa educação, pensamos nas bem reputadas escolas privadas. Mas a primeira coisa a se considerar é que a educação pública é um direito constitucional e que a escola privada nem sempre é a melhor opção.

Tendo como critério o desempenho dos estudantes em português e matemática, há estudos que mostram que educação privada é, em média, apenas um pouco melhor do que a pública. E essa diferença é explicada por muitos pesquisadores pelo fato de que as famílias que podem optar pela escola privada já dispõem de melhores condições para apoiar o desenvolvimento de seus filhos e filhas. Além disso, quando recorremos aos estudos, estamos falando de médias. Por isso, esse dado, sozinho, não vai ajudar.

Há outros aspectos a considerar além do desempenho das escolas - que você pode conhecer buscando seus resultados no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) e no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). Se o objetivo da educação, de acordo com a Constituição, é "o pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho", que outros aspectos levar em conta na hora da escolha?

É fundamental que pais e adolescentes conheçam a escola e seu projeto político-pedagógico, visitem as instalações, conversem com a direção, com outros alunos e perguntem sobre a existência de canais constantes de diálogo, como associação de pais e mestres, conselho escolar, grêmios, etc. e de projetos especiais que mobilizem interesses e saberes juvenis ou desenvolvam sua expressão no campo das artes, da cultura ou da política.

Com a aprovação da reforma do ensino médio, surgem mais dúvidas e questões a se considerar. Ainda não há clareza se todas as escolas oferecerão todos os percursos formativos, nem sobre as possibilidades de mudar de um para outro ao longo do caminho, pois a reforma ainda depende da aprovação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) do Ensino Médio e da definição do processo de implementação pelos estados. Por isso, os calendários mais otimistas preveem que as mudanças cheguem às escolas apenas em 2019. Até lá, é preciso estar atento e acompanhar de perto a situação no seu estado.

Não existe uma resposta universal e a singularidade do (a) estudante também conta. Uma escola em tempo integral pode ser interessante? Ou uma escola profissionalizante? O estudante pretende estagiar ou trabalhar? O importante é que o (a) adolescente possa participar da decisão, tendo em vista os caminhos que vislumbram para seu futuro. Afinal, se há algum consenso na área de educação, é o de que aprendemos melhor quando felizes.

* Lilian Kelian é historiadora e técnica do núcleo de juventude do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec) | Foto: Danilo Ramos/Cenpec
* Lilian Kelian é historiadora e técnica do núcleo de juventude do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec) | Foto: Danilo Ramos/Cenpec

ARTIGO | O que observar nessa importante escolha

Simone André*

Escolher a escola dos filhos é algo de que você não pode abrir mão. Não dá para imaginar o mundo atual sem escolas e, se tudo estiver certo, os mais jovens passarão boa parte do tempo conhecendo e convivendo sob orientação das equipes escolares. O efeito desses aprendizados na vida é tamanho que, mesmo que seu filho fosse bastante inteligente e pudesse optar por estudar sozinho sem frequentar uma escola, teria menos chances de se desenvolver plenamente, com autoconhecimento e preparo para continuar estudando ao longo da vida, se realizar no trabalho e em seus interesses pessoais, construir relacionamentos estáveis e participar das questões que afetam o bem comum. Escolher a escola dos filhos é, assim, essencial para definir quais oportunidades ele terá para uma formação integral.

Esse foi um dos apontamentos do economista James Heckman no início do século 21: escolas são importantes para realizações futuras porque ensinam algo ainda mais valioso do que matemática, línguas, história, geografia, ciências etc. Elas ensinam persistência, colaboração, curiosidade, resiliência, e outras competências, ainda que a maioria delas não tenha intenção e metodologia claras para isso. Imagine, então, se as escolas tivessem um currículo que potencializasse o aprendizado dessas capacidades, incluindo aspectos como a resolução de problemas, criatividade, responsabilidade, abertura ao novo e às diferenças. Aí sim, estariam cumprindo mais integralmente seu papel de formar pessoas plenamente preparadas para realizar seus projetos de vida e para fazer sua parte na construção do mundo em que vivemos.

É por isso que escolher a escola para um filho vai muito além de buscar uma educação "forte", que ensine conteúdos à exaustão e imponha disciplina, com o professor puxando à frente, as provas punindo ou recompensando no meio e os pais por trás, empurrando. Buscando outros formatos, hoje já existem escolas privadas e públicas que estão dando boas lições sobre a educação necessária para que os filhos tenham autonomia para fazer as escolhas que seu tempo e suas existências pedem.

Se você valoriza esse novo tipo de educação ou deseja que seus filhos realizem o sonho de ser, conviver, aprender e trabalhar ao longo da vida, fique atento a alguns desses pontos: Investigue se, para além de ensinar conteúdos, a escola tem como objetivo desenvolver criatividade, resolução de problemas, colaboração, determinação, curiosidade - e como as aulas são organizadas e os professores preparados para isso. Aulas expositivas com alunos enfileirados, mesmo que tenham notebooks, lousas digitais e plataformas adaptativas, não são suficientes para esse tipo de aprendizado. É importante que os estudantes coloquem a mão na massa, trabalhem em times, aprendam uns com os outros, façam pesquisas e projetos concretos que, além de os deixarem mais sabidos, melhorem a vida das pessoas.

Pergunte também se as crianças e os jovens têm espaço para participar das decisões da escola. Eles são ouvidos e estimulados a se posicionar sobre aspectos da gestão da escola, da escolha dos temas e da forma que vão estudar? Peça exemplos de como isso acontece. Pesquisa de opinião e grêmio estudantil não são suficientes para que seu filho se perceba como parte importante da comunidade escolar. Tente entender como a direção e os professores lidam com os erros - deles mesmos e dos estudantes %u2013 no cotidiano, nas provas e aulas. Mesmo que tenha excelente colocação nos rankings das avaliações do município ou estado, se a escola não for um ambiente em que se permite o erro, inovação, experimentação, como vai desenvolver competências para a vida?

Levem seu filho e observem o convívio entre as pessoas, conversem com outros pais e estudantes, dialoguem com os diretores, professores e funcionários. Sintam o clima escolar, ouçam as pessoas, percebam se vocês são ouvidos com abertura e se as diferenças de ponto de vista são valorizadas. Se seu filho não ficar animado, curioso, instigado... Pode não ser um bom sinal. Se, mesmo que a escola não tenha todas essas características, a direção e os professores ficarem interessados em suas perguntas, esse é um ótimo sinal. Sinal de que você poderá influenciar a futura escola do seu filho a buscar uma educação do futuro. Sinal de que mais do buscar uma escola, você está buscando um país melhor.

* Simone André é gerente executiva de Educação do Instituto Ayrton Senna | IAS/Divulgação
* Simone André é gerente executiva de Educação do Instituto Ayrton Senna | IAS/Divulgação